Pergunte a alguém na Alameda que leva o nome dele quem foi Ricardo Paranhos. A resposta mais provável será um silêncio, um sorriso um pouco constrangido, talvez um palpite dado apenas para não admitir que não sabe. E não estamos falando de uma rua perdida num bairro distante. Estamos no Setor Marista, diante de um dos metros quadrados mais caros de Goiânia, num endereço cercado por edifícios de luxo, restaurantes, academias, clínicas e lançamentos imobiliários em que basta escrever “Ricardo Paranhos” para acrescentar valor ao anúncio.

É uma dessas ironias urbanas que dizem muito sobre uma cidade. Goiânia conhece perfeitamente a localização da Ricardo Paranhos, sabe quanto custa morar ali, sabe onde começa, onde termina, quais restaurantes abriram, quais prédios serão erguidos, mas quase nunca se perguntou quem foi o homem cujo nome pronuncia todos os dias. A cidade preservou o endereço e deixou a pessoa escapar.

Alameda Ricardo Paranhos, área nobre de Goiânia: Há anos que a placa, que homenageava o homem Ricardo Paranhos, desapareceu e nunca foi substituída. (Foto: Camila Nunes/Jornal Opção)

O traçado da atual alameda já aparecia no Plano Original de Goiânia, aprovado em 1937, numa área que mais tarde se transformaria no Setor Marista e se encontraria com a reserva que deu origem ao Parque Areião. Quando Ricardo Augusto da Silva Paranhos morreu, em 1941, aquele pedaço da nova capital ainda era praticamente cerrado. Décadas depois, quando o bairro se consolidou, a via recebeu o nome do poeta, cronista e político catalano, patrono da Academia Goiana de Letras, homem celebrado em seu tempo e chamado de “Príncipe dos Poetas”.

Ricardo Paranhos: “Príncipe dos Poetas”. (Foto divulgação)

Para descobrir quem ele foi, porém, é preciso sair de Goiânia, abandonar por alguns instantes os edifícios espelhados do Marista e voltar ao século XIX, quando Catalão era uma cidade pequena, rica, violenta e politicamente conflagrada, e o sobrenome Paranhos significava muito mais do que uma placa.

Foto original de Catalão, final do século XIX: Uma pequena cidade rica e violenta. (Foto divulgação)

Ricardo nasceu ali, em 1866, filho do coronel Antônio da Silva Paranhos e de Belisária da Costa. O pai, comerciante, possuía um sobrado no centro da cidade e pertencia a uma família de origem portuguesa ligada a José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Nascido no Rio de Janeiro em 1822, Antônio Paranhos tornou-se coronel da Guarda Nacional e acabou estabelecendo-se em Catalão, onde mantinha relações próximas com figuras como o coronel Roque Alves de Azevedo, o vigário Luiz Antônio da Costa e Bernardo Guimarães, escritor de A Escrava Isaura, que também foi magistrado.

Antônio Paranhos: Coronel da Guarda Nacional e primeiro senador da República por Goiás. Pai de Ricardo Paranhos. (Foto divulgação)

Ricardo foi estudar em São Paulo ainda muito jovem e pretendia cursar Direito no Largo São Francisco, mas problemas de saúde o obrigaram a voltar para Goiás. O fracasso daquele projeto universitário acabou produzindo outra coisa: foi em São Paulo que ele descobriu com maior intensidade a literatura, paixão que carregaria pelo resto da vida.

Regressou a Catalão em 1884. As descrições da época apresentam um rapaz louro, de olhos azuis, estatura mediana, nariz adunco, pince-nez para leitura e maneiras consideradas aristocráticas. Começou a trabalhar no comércio da família e tornou-se sócio da Casa Paranhos & Cia., que revendia produtos vindos do Rio de Janeiro. A vida poderia ter seguido nessa relativa tranquilidade provinciana, entre negócios, livros e família, não fosse a política.

Com a Proclamação da República, Antônio Paranhos foi eleito, em 1890, senador por Goiás. Ricardo acompanhou o caminho do pai e chegou à Constituinte estadual de 1891 como deputado, ocupando a Secretaria da Assembleia. A experiência seria curta e violenta. A maioria dos constituintes era de oposição, o governo dissolveu a Assembleia e Ricardo participou de uma reação que chegou à tomada da Prefeitura de Catalão, acreditando que outros municípios acompanhariam o movimento. Não acompanharam.

Em 1892, a disputa política deixou definitivamente de caber nos discursos. A casa dos Paranhos foi cercada e atacada por jagunços e adversários. O tiroteio durou dias, houve morte, o vigário Luiz Antônio da Costa precisou intervir e a família acabou obrigada a deixar a cidade. Pouco depois, o coronel Paranhos reuniu homens na zona rural e retornou a Catalão com cerca de uma centena de simpatizantes armados.

“O Crime de Catalão”: Obra em que Ricardo Paranhos, pela primeira vez, denunciou os conflitos políticos em sua cidade natal. (Foto divulgação)

É difícil compreender aquela Goiás utilizando a régua da política contemporânea. O poder local se sustentava em alianças familiares, propriedades, comércio, favores, coronéis e homens armados. Uma eleição podia terminar na Assembleia ou numa tocaia de estrada. Ricardo Paranhos viveu no centro dessa atmosfera e começou a registrá-la. Publicou no Rio de Janeiro um livreto de 34 páginas chamado O Crime de Catalão, em que denunciava os conflitos políticos e as mortes ocorridas na região.

O drama familiar estava apenas começando

Em novembro de 1897, Antônio da Silva Paranhos foi assassinado a tiros em plena luz do dia, diante de seu sobrado. Os disparos partiram da casa vizinha e o velho senador caiu na rua. O crime incendiou novamente Catalão e Ricardo seguiu para o Rio de Janeiro, decidido a transformar a morte do pai numa denúncia pública.

Em 1898 publicou outro folheto. O título, Os Canibais, não deixava espaço para conciliação. Ao narrar a cena do assassinato, escreveu:

“Como era horrível se ver aquele ancião de cabelos de prata, respeitável pela idade e pela posição social, de joelhos em plena rua, todo banhado em sangue e envolto em camadas densas de fumaça, ao concerto lúgubre das detonações!”

É um trecho que vale não apenas pelo documento histórico, mas porque revela a maneira pela qual Ricardo Paranhos passou a usar a escrita: não como ornamento, mas como tentativa de enfrentar o que a violência havia feito com sua família e com sua cidade.

“Os Canibais”: Em 1898, Ricardo Paranhos denuncia o assassinato do pai, o senador Antônio da Silva Paranhos, repercussão nacional.

A repercussão do assassinato ultrapassou Goiás. Em 1899, Ricardo foi nomeado delegado de polícia em Catalão numa tentativa de restabelecer a ordem, mas permaneceu pouco tempo no cargo. No ano seguinte elegeu-se senador estadual, assumiu o mandato em 1901 e fundou o jornal Goiás e Minas. Política, jornalismo e literatura ainda conviviam nele, embora cada vez com maior dificuldade.

Em 1904, reeleito senador estadual e integrante da mesa diretora da Assembleia, mudou-se com a mulher e os filhos para a Cidade de Goiás. Foi nesse período que escreveu um de seus poemas mais conhecidos, “Despedida de Catalão”:

Vou partir, eu vou deixar-te,
Terra minha, sonhos meus!
Vou partir p’ra longes plagas,
Terra minha, adeus, adeus.

Deixo tudo quanto adoro,
Risos, sonhos, meus amores,
Estes montes, estes vales,
Estes campos, estas flores.

“Despedida de Catalão”: Escrito em 1904, um dos poemas mais conhecidos de Ricardo Paranhos.

Os versos parecem simples quando retirados da biografia. Dentro dela, ganham outro peso. Ricardo estava deixando uma cidade que amava e que ao mesmo tempo havia lhe imposto perseguição política, exílio e o assassinato do pai. Essa contradição acompanharia toda a sua vida: Catalão era a ferida e também o lugar ao qual ele nunca conseguiu deixar de pertencer.

Exilado em sua própria terra

A mudança de poder ocorrida em Goiás em 1909, com a ascensão de Totó Caiado e seus correligionários, tornou sua situação ainda mais difícil. Para Ricardo, não se tratava apenas de alternância política. Eliseu da Cunha, apontado por ele entre os envolvidos na morte de Antônio Paranhos, foi nomeado intendente de Catalão. A velha capital deixara de ser confortável, Catalão continuava perigosa e Ricardo passou a viver uma espécie de desterro dentro do próprio Estado.

Afastou-se gradualmente da política e investiu em negócios ligados à estrada de ferro, especialmente serrarias voltadas à produção de dormentes. Quando os trilhos chegaram a Catalão, em 1913, a direção da ferrovia convidou justamente Ricardo Paranhos para ser o orador oficial da inauguração. O comboio saiu de Araguari num ambiente de festa. Ele discursou em Anhanguera, Cumari e Goiandira. Ao chegar à cidade natal, encontrou outra recepção.

Inauguração da Estação Ferroviária de Catalão, em 1913. (Foto: Acervo do Museu Histórico Municipal Cornélio Ramos – Catalão)

Inauguração da estação ferroviária de Catalão, em 1913. (Foto: Acervo do Museu Histórico Municipal Cornélio Ramos – Catalão)

Segundo os relatos, Isaac da Cunha surgiu armado e foi direto:

“Aqui, você não fala! E, se abrir o bico, morre!”

Isaac da Cunha, homem violento, ameaçou Ricardo Paranhos de morte, em 1913. (Foto divulgação)

Convidado para inaugurar a estação de trem, em Catalão, Ricardo Paranhos teve que retroceder devido à ameaça de morte. (Foto divulgação)

Ricardo não falou. Conhecia o ambiente, conhecia o homem que fazia a ameaça e sabia que certas frases, em Catalão, não eram força de expressão. Ainda cumpriria o mandato de senador estadual entre 1913 e 1916, mas abandonaria depois a vida política, lamentando os anos consumidos por ela.

O golpe seguinte não veio de um adversário, mas da natureza

Em 1920, uma enchente do Rio Paranaíba comprometeu suas serrarias em Anhanguera e Engenheiro Bethout. Ricardo faliu e passou a viver com muito mais modéstia, inclusive na casa de uma das filhas, em Corumbaíba. A literatura, que sobrevivera a todas as mudanças, tornou-se então o centro de sua vida.

A partir de 1920, Ricardo Paranhos passa a se dedicar à Literatura. (Foto divulgação)

Sua reputação como poeta atravessava Goiás e chegava ao Triângulo Mineiro. Malba Tahan – o escritor e matemático Júlio César de Mello e Souza, autor que se tornaria célebre com O Homem que Calculava – foi visitá-lo em Corumbaíba, atraído por seus versos. Há nessa visita uma imagem particularmente bonita: um escritor conhecido nacionalmente viajando pelo interior para encontrar um poeta que o Brasil praticamente esqueceu.

Malba Tahan, nome fictício do escritor e matemático Júlio César de Mello e Souza. O autor de “O homem que Calculava” visitou Ricardo Paranhos em Corumbaíba. (Foto divulgação)

Parte significativa da obra de Ricardo Paranhos desapareceu ainda durante sua vida. Quando se mudou para a Cidade de Goiás, em 1904, deixou livros, papéis e manuscritos encaixotados na casa de Catalão. O imóvel foi alugado e o material acabou levado para um ambiente térreo, úmido e salitrado. Ele próprio registrou o resultado: “Perdi toda a livraria e tudo o mais que com ela encaixotado estava!”

Em outra ocasião, sua mulher, Maria Carolina Leite, a Cota, viajava de trem levando cadernos com poemas e crônicas. Os cadernos ficaram esquecidos numa poltrona e nunca reapareceram. Por isso, o que chegou até nós é fragmentário: textos publicados em jornais da Cidade de Goiás, do Triângulo Mineiro e no próprio Goiás e Minas, onde Ricardo mantinha a coluna Arcádia Catalana e divulgava autores da região.

Em frente à tipografia do Jornal Goiás e Minas. Ricardo Paranhos é o último à direita. (Foto divulgação)

O Anuário Descritivo Histórico e Geográfico de Goiás, de 1910, publicou seu poema Convalescência e destacou a vida intelectual de Catalão, que passou a ser chamada de “Atenas de Goiás”, denominação incorporada mais tarde ao imaginário e ao próprio hino da cidade.

Catalão, 1910: Atenas de Goiás. (Foto divulgação)

Mas reduzir Ricardo Paranhos ao político trágico ou ao poeta melancólico seria outra maneira de não o compreender. Ele era também boêmio, engraçado, gostava de serenatas, de violão, de noites longas e da convivência com gente de todas as classes. Criou o Clube Suan, cuja proposta parecia quase uma provocação social: arroz, suã e pinga crua, um cardápio barato o suficiente para que o encontro não fosse privilégio de ricos.

Sobre a bebida deixou uma frase que atravessou o tempo com muito mais leveza do que seus discursos políticos:

“Todo mundo tem a sua cachaça. A minha, é ela mesma!”

Cachaça, Suã e Serenata: O poeta também era um boêmio.

É nesse ponto que a vida de Ricardo Paranhos deixa de parecer apenas uma sequência de fatos históricos e revela algo muito mais íntimo. Depois de tudo o que Catalão lhe havia dado e tirado, ele não escolheu ser enterrado longe. Não desejou um monumento público, uma praça, um mausoléu ou alguma homenagem ligada aos cargos que exerceu. Queria permanecer no alto do morro, perto da cruz e da pequena capela, no lugar associado à mulher que amava e à cidade que jamais conseguiu abandonar por inteiro.

Ricardo morreu em Corumbaíba, em 1941.

Em 1978, 37 anos depois, a Academia Catalana de Letras retirou seus restos mortais do cemitério de Corumbaíba e realizou o desejo escrito no poema. Ele foi sepultado no Morrinho de São João, em Catalão.

Túmulo de Ricardo Paranhos em Morrinho de São João, Catalão. (Foto divulgação)

A literatura havia antecipado a sepultura.

E talvez seja justamente por isso que a história de Ricardo Paranhos incomode tanto quando voltamos àquela alameda de Goiânia.

Hoje, seu nome aparece em placas, anúncios de apartamentos, endereços comerciais, convites, aplicativos de trânsito e contratos imobiliários. Tornou-se uma das referências urbanas mais conhecidas da cidade. Mas aquilo que o nome carrega – Catalão, a morte do pai, os folhetos de denúncia, a política armada, as serenatas, os poemas, a falência, Cota, o Morrinho de São João – desapareceu quase inteiramente da memória cotidiana.

Ricardo Paranhos não precisa de outra homenagem. A homenagem já foi feita quando Goiânia lhe deu uma avenida.

Alameda Ricardo Paranhos: Um dos endereços mais caros de Goiânia. (Foto divulgação)

O que falta é explicar a homenagem.

Uma cidade que coloca nomes de pessoas em suas ruas deveria sentir alguma obrigação de contar quem elas foram, porque, do contrário, transforma a memória em sinalização viária. A placa informa onde estamos, mas deixa de dizer de onde viemos.

Aos 93 anos, Goiânia já tem idade suficiente para começar a fazer esse movimento de volta, não por nostalgia, mas por inteligência histórica. E talvez Ricardo Paranhos seja um ótimo ponto de partida, justamente porque seu caso expõe de maneira quase perfeita o modo como uma cidade consegue preservar um nome e esquecer tudo o que existe dentro dele.

Na Alameda Ricardo Paranhos, muita gente sabe quanto custa o metro quadrado.

Talvez esteja na hora de saber, também, quem foi Ricardo Paranhos.

Alameda Ricardo Paranhos: A cidade conseguiu preservar o nome, mas se esqueceu de tudo o que existe dentro dele. (Foto: Camila Nunes/Jornal Opção)