Goiânia, 93 anos: uma cidade, muitas histórias e algumas perguntas que não podem esperar pelo centenário
19 outubro 2026 às 19h07

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A partir de segunda-feira, 19, até sábado, 24, dia do aniversário da capital de Goiás, Bolha publica uma série especial de seis reportagens dedicadas a Goiânia. Não será uma coleção de homenagens protocolares, tampouco um inventário de saudades, mas uma viagem pela história, pela memória, pelas contradições e pelas escolhas que transformaram a cidade que conhecemos.
Desde suas primeiras publicações, Bolha tem procurado fazer justamente isso: investigar o que existe por trás da paisagem cotidiana, recuperar personagens esquecidos, revisitar acontecimentos, questionar versões consagradas e encontrar histórias onde muita gente já não percebe nada além de uma rua, uma praça ou um edifício antigo.
Afinal, uma cidade não é feita apenas de avenidas, prédios e monumentos. É também construída por aquilo que desapareceu, pelas decisões que alteraram seu destino e pelas pessoas cujos nomes raramente aparecem nas placas inaugurais.

Nos próximos seis dias, vamos percorrer diferentes dimensões dessa história. Não pretendemos esgotar esse enredo em seis reportagens. Seria uma ambição excessiva, mesmo para uma cidade relativamente jovem. Queremos, isto sim, abrir caminhos, provocar perguntas e lembrar que conhecer o passado é uma das maneiras mais inteligentes de discutir o futuro.
Goiânia não precisa esperar pelo centenário para examinar suas escolhas. Aliás, talvez seja melhor começar agora, enquanto ainda há tempo de corrigir algumas delas.
Bolha inicia hoje essa viagem pela cidade que nasceu para representar o futuro e que, aos 93 anos, precisa aprender a cuidar também de sua memória.

Vamos começar por uma questão que deveria interessar a todos os goianienses: o que acontece quando a instituição encarregada de proteger o patrimônio histórico apresenta informações contraditórias sobre aquilo que deveria preservar?
A seguir, a primeira reportagem da série especial de Bolha pelos 93 anos de Goiânia
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O patrimônio que o Iphan protege no papel
Às vésperas dos 93 anos de Goiânia, uma contradição no cadastro oficial do patrimônio art déco revela dois diagnósticos para o mesmo conjunto arquitetônico. A autorização de estações do BRT na Praça Cívica, inclusive diante do Museu Zoroastro Artiaga, amplia uma discussão incômoda: quais são os limites da preservação histórica e como o órgão encarregado de protegê-la justifica suas decisões?
Goiânia tem uma relação peculiar com a velhice. Admira fotografias antigas, celebra pioneiros, organiza exposições sobre sua fundação e, sempre que chega outubro, descobre novamente a importância da própria história. O entusiasmo costuma durar até que algum edifício antigo apareça no caminho de um empreendimento imobiliário. Nesse momento, a memória precisa apresentar documentos, justificar sua existência e, de preferência, não atrapalhar o estacionamento.
É um procedimento bastante civilizado. Primeiro, homenageia-se o passado. Depois, verifica-se quanto vale o terreno. Mas, às vésperas de completar 93 anos, Goiânia oferece um exemplo particularmente interessante de como a preservação do patrimônio histórico pode se transformar numa sucessão de contradições.

O cenário é a Praça Cívica, coração político e simbólico da cidade. Ali, entre edifícios que ajudaram a definir a identidade arquitetônica da nova capital, está o Museu Zoroastro Artiaga, uma das construções mais representativas do conjunto art déco goianiense.
Durante décadas, o edifício integrou uma paisagem urbana concebida para representar a modernidade de Goiás. Suas linhas geométricas, sua composição arquitetônica e sua posição na praça não são elementos isolados. Fazem parte de um conjunto planejado, cuja importância histórica ultrapassa os limites de cada construção.
Pois foi justamente nesse espaço que o poder público decidiu instalar estruturas do sistema BRT, o transporte rápido por ônibus. A intervenção, evidentemente, não ocorreu às escondidas. Em novembro de 2021, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou oficialmente a aprovação das obras do BRT na Praça Cívica (o prefeito da capital era Rogério Cruz). A autorização abrangia estações de embarque e desembarque, alterações na circulação e intervenções nos canteiros da praça. Uma das estações foi prevista diante do Museu Zoroastro Artiaga.

O detalhe é importante. Não se trata de uma obra executada sem o conhecimento do órgão federal de preservação. O próprio Iphan confirmou sua aprovação. Na ocasião, o instituto sustentou que o projeto não comprometeria a leitura do traçado urbano tombado. Também estabeleceu condições relacionadas à recomposição da vegetação afetada.
Portanto, a discussão não é simplesmente sobre a existência de autorização. É sobre os critérios utilizados para concedê-la. Afinal, o patrimônio arquitetônico não se resume às paredes dos edifícios. Também envolve perspectivas visuais, relações espaciais, circulação, jardins, monumentos e a maneira como diferentes construções dialogam entre si.
A Praça Cívica não é apenas um conjunto de prédios antigos convenientemente reunidos no mesmo endereço. É parte de uma concepção urbanística (e não é história morta – é história viva). E é precisamente essa concepção que torna sua preservação relevante.

Não se trata de negar a importância do transporte coletivo. Goiânia precisa de mobilidade urbana eficiente, acessível e integrada. Uma cidade não pode transformar sua história em obstáculo permanente às necessidades contemporâneas. Mas também não deveria tratar o patrimônio histórico como um detalhe secundário a ser acomodado depois que as grandes decisões já foram tomadas.
A questão é outra: seria aquela a melhor solução para um espaço urbano tombado? Foram examinadas alternativas de localização? Quais estudos demonstraram que as estruturas propostas não comprometeriam os valores arquitetônicos e paisagísticos da praça? E, sobretudo, o resultado efetivamente construído corresponde ao projeto autorizado? São perguntas legítimas, que, por certo, representam a voz da sociedade ou de parte desta.

A autorização do Iphan não significa, por si só, que tenha ocorrido dano ao patrimônio. Tampouco dispensa o órgão de explicar publicamente os fundamentos técnicos de sua decisão. O problema é que a história não termina na Praça Cívica. Ela continua nos próprios arquivos da instituição encarregada de protegê-la.
Ao consultar o Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão, o SICG, encontra-se uma situação que seria cômica, não fosse tão reveladora das dificuldades brasileiras para lidar com a preservação histórica.
Na ficha oficial do Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia, identificada pelo código GO-5208707-BI-CU-00001, o Iphan apresenta duas avaliações diferentes sobre as condições do mesmo conjunto.
Nos campos principais do cadastro, o estado de conservação aparece classificado como ruim e o estado de preservação como muito alterado. O diagnóstico é muito preocupante. Mas basta avançar algumas linhas no documento para que a situação melhore consideravelmente.
Na seção intitulada Síntese do bem, o estado de conservação passa a regular, enquanto o de preservação se transforma em pouco alterado. Tudo na mesma ficha oficial. É uma restauração extraordinária. Sem arquitetos, sem pedreiros, sem andaimes, sem licitação e, sobretudo, sem gastar um centavo.
Bastou mudar de parágrafo para que o patrimônio saísse da enfermaria (sem passar pela UTI) e começasse a apresentar sinais de recuperação. Naturalmente, pode haver uma explicação técnica perfeitamente razoável para a divergência. Os diagnósticos podem ter sido elaborados em momentos distintos, com metodologias diferentes, ou pode ter ocorrido uma falha na atualização das informações.
A ficha apresenta registros de movimentações em março e abril de 2024, mas essas datas, isoladamente, não permitem determinar a origem das avaliações contraditórias. O que se pode afirmar é que o cadastro público apresenta informações divergentes sem oferecer, na própria ficha, uma explicação suficiente para reconciliá-las.
Não é possível concluir, apenas com esses dados, qual avaliação corresponde às condições atuais do conjunto arquitetônico. No entanto, é plausível a conclusão de que o registro merece esclarecimento. E aqui a ironia ganha contornos particularmente brasileiros, afinal uma instituição encarregada de preservar a memória nacional deveria demonstrar especial cuidado com a memória de seus próprios documentos.
Não estamos discutindo um inventário de cadeiras ou a localização de um arquivo morto. Estamos falando de informações oficiais sobre um conjunto arquitetônico protegido pelo patrimônio histórico federal. É razoável exigir que essas informações sejam claras, coerentes e atualizadas.
O problema se torna ainda mais significativo quando se considera que o mesmo instituto responsável por esse cadastro é também o órgão que analisa intervenções urbanas em áreas tombadas, como ocorreu com as obras do BRT na Praça Cívica.
São situações distintas, evidentemente. Uma inconsistência cadastral não demonstra que uma autorização de obra tenha sido tecnicamente equivocada. Mas ambas conduzem à mesma pergunta: quais são os critérios utilizados para preservar o patrimônio histórico de Goiânia, como são aplicados e de que maneira a sociedade pode verificar seus resultados? Além disso: o que se respeitou ou não da lei?
Porque proteger o patrimônio não é apenas impedir demolições. É também preservar a integridade de conjuntos urbanos, orientar intervenções, acompanhar obras, manter registros confiáveis e prestar contas das decisões tomadas.
O tombamento federal do conjunto arquitetônico e urbanístico art déco de Goiânia ocorreu em 2003, com inscrição nos Livros do Tombo em 2005. Foi um reconhecimento importante. A cidade planejada para representar a modernidade brasileira havia adquirido, ela própria, valor histórico. O paradoxo é fascinante.

Na década de 1930, Pedro Ludovico Teixeira decidiu construir uma capital que simbolizasse a ruptura com a antiga ordem política de Goiás. O urbanista Attilio Corrêa Lima elaborou o projeto inicial, posteriormente desenvolvido e modificado com a participação de Armando de Godoy. Goiânia nasceu de uma decisão política, de um desenho urbano e de uma ideia de futuro. E, talvez, de muita coragem.

O art déco tornou-se uma das expressões mais visíveis dessa ambição. Linhas geométricas, volumes definidos, ornamentos estilizados e uma linguagem arquitetônica que pretendia anunciar uma nova época. O Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, a Estação Ferroviária, o Museu Zoroastro Artiaga e outros edifícios públicos passaram a integrar uma paisagem concebida para demonstrar que Goiás havia ingressado na modernidade. Não eram apenas construções. Eram declarações políticas feitas de concreto, tijolo e argamassa.

O tempo, naturalmente, transformou aquela arquitetura futurista em patrimônio histórico. E foi aí que começaram os problemas. Porque Goiânia aprendeu rapidamente a construir, mas preservar exigiria uma virtude diferente: reconhecer valor naquilo que já não é novidade.
Aos poucos, a cidade expandiu seus limites, modificou suas centralidades e passou a conviver com pressões imobiliárias, transformações econômicas e novas necessidades urbanas. Nada disso é necessariamente negativo. As cidades precisam mudar. O problema começa quando a mudança deixa de dialogar com a história e passa a tratá-la como inconveniente.
A memória urbana não habita apenas edifícios tombados. Também está nas antigas residências, nos cinemas desaparecidos, nos estabelecimentos comerciais, nas fachadas transformadas e nos espaços públicos cuja função original já não é reconhecida.
Uma cidade não perde sua história apenas quando derruba um monumento. Também a perde quando elimina sucessivamente os lugares onde a vida cotidiana aconteceu. O Centro de Goiânia oferece exemplos dessa transformação. Ali se concentraram durante décadas atividades políticas, culturais, comerciais e sociais que ajudaram a definir a identidade da capital. (Por sinal, vale começar a olhar para outros bairros da cidade, como a Vila Nova, o Setor Universitário e o Setor Pedro Ludovico. Não há nada para preservar nos três?)
Hoje, parte desse território convive com imóveis subutilizados, alterações arquitetônicas e uma progressiva perda de protagonismo urbano. Seria simplista atribuir tudo à especulação imobiliária. As cidades mudam porque a economia muda, os hábitos mudam, a população cresce e novas centralidades aparecem. O problema não é a transformação. É a ausência de critérios suficientemente consistentes para determinar o que deve permanecer.

Preservar também não significa transformar Goiânia numa reprodução cenográfica de 1933. Uma cidade viva precisa adaptar seus edifícios, modernizar instalações, oferecer acessibilidade, permitir novos usos e atender às necessidades de quem trabalha e mora nela. O patrimônio que não encontra função corre o risco de se transformar em cenário vazio. Mas a adaptação pode respeitar características históricas, e a recuperação de construções antigas pode produzir atividade econômica, cultura e habitação. Há uma diferença considerável entre modernizar um edifício e apagar sua identidade. (De que adianta curtir Paris, Roma e Buenos Aires e não ter um olhar preservacionista para sua própria cidade?)
Em outubro de 2024, o Iphan publicou a Portaria nº 201, estabelecendo diretrizes e critérios para intervenções no conjunto protegido. Trata-se de um instrumento importante. Mas nenhuma portaria restaura uma fachada por iniciativa própria. Nenhum tombamento substitui manutenção, fiscalização, investimento ou planejamento. E nenhuma política de preservação deveria prescindir de informações consistentes sobre as condições do patrimônio que pretende proteger.
Goiânia poderia fazer de seu patrimônio uma das bases da revitalização do Centro. Poderia estimular a ocupação de imóveis históricos, ampliar incentivos à restauração, criar circuitos culturais permanentes e integrar a preservação arquitetônica às políticas de moradia e desenvolvimento urbano. Nada disso depende exclusivamente de nostalgia. Depende de planejamento, dinheiro, fiscalização, conhecimento técnico e vontade política e, sobretudo, de compreender que o patrimônio não é um luxo reservado às cidades europeias ou aos centros históricos coloniais.
A capital também possui uma história arquitetônica digna de ser preservada, ainda que tenha menos de um século. Aliás, talvez justamente por isso capital chega aos 93 anos com uma vantagem que poucas cidades possuem: ainda pode decidir, antes do centenário, quais marcas de sua formação pretende transmitir às próximas gerações.
Sete anos não bastam para resolver todos os problemas urbanos. Mas são suficientes para estabelecer prioridades, recuperar edifícios importantes, impedir perdas evitáveis e transformar a preservação em política pública permanente.
Também são suficientes para esclarecer uma contradição cadastral, tornar públicos os critérios utilizados nas autorizações de obras e permitir que a sociedade compreenda melhor as decisões tomadas em nome da proteção de sua memória.
O centenário de 2033 será inevitável. Virão discursos, exposições, fotografias, homenagens e provavelmente uma quantidade respeitável de placas comemorativas. Goiânia sempre demonstrou alguma habilidade para celebrar a própria existência. Resta saber o que haverá para mostrar. Porque uma cidade não se torna histórica apenas por completar cem anos. Torna-se histórica também pela maneira como trata os vestígios daqueles que vieram antes. Goiânia nasceu querendo ser o futuro. Chegou a hora de compreender que o futuro não exige a destruição sistemática do passado.
Aos 93 anos, a cidade mereceria um presente mais útil do que outra placa comemorativa: um diagnóstico público, atualizado e confiável sobre aquilo que ainda lhe resta preservar. E mereceria também respostas claras sobre os critérios utilizados para autorizar intervenções em seus espaços históricos.
O Iphan não é o único responsável pela preservação do patrimônio de Goiânia. Proprietários, governos, instituições e a própria sociedade civil compartilham responsabilidades. Mas o órgão federal possui atribuições específicas que não podem ser reduzidas à emissão de documentos.
A preservação precisa existir na paisagem urbana, não apenas nos processos administrativos. Porque, convenhamos, uma cidade que já enfrenta dificuldades para conservar o próprio patrimônio não precisava descobrir que até o cadastro oficial encarregado de descrevê-lo parece sofrer de dupla personalidade administrativa.
E a pergunta que fica, às vésperas dos 93 anos de Goiânia, é inevitável: quando a cidade completar um século, estaremos celebrando a história que o Iphan e os demais responsáveis ajudaram a preservar ou lamentando aquela que, apesar de tantas normas, autorizações e discursos, permitimos desaparecer?

Nota da Bolha
Os registros públicos do Iphan apresentam diagnósticos diferentes para o mesmo conjunto arquitetônico tombado, uma divergência que precisa ser esclarecida. O instituto também confirmou, em novembro de 2021 (quando, insista-se, o prefeito era Rogério Cruz), a autorização das intervenções do BRT na Praça Cívica, incluindo uma estação diante do Museu Zoroastro Artiaga.
Esses fatos não comprovam, por si só, negligência administrativa ou danos ao patrimônio. É necessário conhecer os critérios técnicos utilizados, examinar o projeto aprovado e verificar a fiscalização das obras.
A documentação disponível sustenta questionamentos sobre a coerência e a transparência dos procedimentos de preservação, mas não permite concluir que houve irregularidades.
Fontes documentais
- Cadastro oficial do Iphan – Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia. Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG). Ficha GO-5208707-BI-CU-00001.
- Autorização das obras do BRT na Praça Cívica. Comunicado oficial do Iphan, publicado em novembro de 2021.
- Portaria Iphan nº 201, de 25 de outubro de 2024. Normas para intervenções no conjunto protegido de Goiânia.

