O Araguaia em cena: audiovisual aproxima ciência, território e sociedade
23 maio 2026 às 21h00

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Por: Thais Rodrigues Oliveira, Andreia Juliana Rodrigues Caldeira, Ana Clara Diniz e Mariana Pires de Campos Telles – Especial para o Jornal “Opção”
O cinema possui um papel fundamental na divulgação científica e na sensibilização ambiental, especialmente por sua capacidade de transformar dados, pesquisas e questões ecológicas complexas em narrativas acessíveis. Por meio da linguagem audiovisual, pesquisas podem alcançar públicos amplos, promovendo conscientização, educação e aproximação entre ciência e sociedade. Documentários, animações, videocasts, podcasts, filmes experimentais e produções audiovisuais no geral podem contribuir para o registro da biodiversidade, modos de vida tradicionais, transformações dos territórios e impactos causados pela ação humana, funcionando também como instrumentos de memória, preservação cultural e mobilização social. Nesse contexto, o cinema e o audiovisual amplia a visibilidade de pesquisas desenvolvidas em universidades, laboratórios e projetos científicos, permitindo que conhecimentos produzidos no campo acadêmico sejam compartilhados de forma mais democrática e sensível.
Do ponto de vista de quem filma e pesquisa, os produtos audiovisuais que têm sido desenvolvidos nos projetos Araguaia Vivo gerenciado pela TWRA com financiamento da FAPEG, e o PPBio Araguaia executado pela PUC Goiás e com financiamento do CNPq, o “Coletivo de Mulheres Cientista em Rede” da UEG e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ecologia Evolução e Conservação da Biodiversidade (INCT EECBio), ambos om financiamento doCNPq, nascem do encontro entre ciência, cinema, território e afeto.
No documentário Expedição Araguaia, acompanhamos em fevereiro de 2025 uma das maiores expedições científicas já realizadas no Brasil em uma única bacia hidrográfica, reunindo cerca de 30 pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento ao longo de 3.500 quilômetros de rios (veja ensaio sobre os bastidores do documentário publicado aqui no “Araguaia em Foco”). Os registros do filme constroem um gesto de escuta e observação de um sistema vivo e ainda pouco conhecido: o Rio Araguaia, que é eixo de conexão entre biomas fundamentais para o equilíbrio ambiental em Goiás e no Brasil.

Trata-se de uma região estratégica, responsável por conectar o Cerrado à Amazônia, influenciando as populações que dela dependem. Para uma cineasta, o desafio foi traduzir a grandiosidade do Rio Araguaia em imagens e sons, sabendo que nenhuma câmera ou gravador de som é capaz de registrar plenamente a sua escala, beleza cênica e riqueza biológica. A quantidade de água na cheia, a presença constante de aves, peixes, répteis e mamíferos, compõem uma paisagem em permanente transformação. A paisagem do rio muda e essa dinâmica contínua é transposta na linguagem do filme, convidando o espectador a acompanhar.
A narrativa do filme também se constrói a partir das pessoas que vivem às margens do rio Araguaia. Os moradores e moradoras tratam a região com pertencimento e dependência, em que o Araguaia é chamado com afeto de “Mãe Araguaia”, que evidencia como o rio sustenta modos de vida, cultura e saberes transmitidos de geração em geração.
Ao longo da expedição foi possível registrar que ciência e conhecimento tradicional se encontram de forma concreta. A interação com as comunidades locais mostrou que a conservação não se faz apenas com dados, mas com diálogo, educação e escuta. Apesar de sua enorme extensão e importância, o rio permanece à margem do imaginário nacional, frequentemente ofuscado por outros grandes sistemas fluviais brasileiros. A proposta transdisciplinar da expedição aponta para a urgência de novas formas de produzir e compartilhar conhecimento.

Com o filme finalizado, o lançamento oficial ocorreu em junho de 2025, durante o FICA (“Festival de Cinema e Vídeo Ambiental”). A estreia contou com sessão lotada e marcou o início da circulação da obra em festivais nacionais e internacionais. Desde então, o filme vem construindo um percurso consistente no circuito audiovisual voltado à ciência, ao meio ambiente e à cultura. Além disso, o filme está disponível no YouTube e já conta com mais de 29 mil visualizações!
Entre junho de 2025 e o momento atual, o filme participou de diversos festivais, entre eles o Science Film Festival, 4º FESTICINI- Festival Internacional de Cinema Independente, V PLANETA.doc- Festival internacional de Cinema Socioambiental, V International Riom Scientific Short Film Festival, 23ª Edição do Troféu Seriema, Festival Internacional de Imagem de Natureza (FIIN- Portugal), Cape Maclear International Film Festival (Malawi), Festival Latinoamericano de la Cultura Científica (RedPop- México), Earth Film Festival, Festival Historias de Región (Colômbia), 8º Festival de Cinema de Jaraguá do Sul, 9th International Folklore Film Festival 2026 (Índia), Frome International Climate Film Festival (Reino Unido), FestCine Pedra Azul (Espírito Santo, Brasil), Sittannavasal Film Festival (Índia), SCINEMA International Science Film Festival (Austrália) . Ao longo desse percurso, o filme recebeu importantes reconhecimentos. No FESTICINI, conquistou o prêmio de melhor filme ambiental. Internacionalmente recebeu na Índia o prêmio de Melhor Curta Ambiental. No Troféu Seriema, foi reconhecido como melhor obra na categoria imprensa, consolidando sua relevância!
A participação de um filme sobre ciência e biodiversidade em festivais de cinema nacionais e internacionais representa uma oportunidade estratégica para ampliar o seu alcance e impacto social. Esses eventos funcionam como importantes vitrines de difusão cultural, permitindo que temas como conservação da natureza, mudanças climáticas e proteção da biodiversidade cheguem a públicos diversos, incluindo cientistas, educadores, estudantes, decisores políticos e o público em geral. A participação das professoras Mariana Telles e Thais Oliveira representando o filme no festival de cinema científico de Riom, na França, marcou um momento importante de diálogo internacional em torno do filme e da pesquisa desenvolvida no Brasil. Durante as exibições e debates, o público demonstrou curiosidade sobre o rio Araguaia, sua localização e importância ecológica. Ao circular em festivais, o filme contribui para a sensibilização ambiental e para o fortalecimento da alfabetização científica, aproximando o conhecimento acadêmico da sociedade. E esse é o nosso maior objetivo.

Outro documentário foi o Mulheres da Pesca no Araguaia. Gravado em agosto de 2025, durante o campeonato feminino de pesca realizado na região de Aruanã-GO, o filme acompanha pescadoras que mantêm viva uma tradição atravessada por memória, resistência, conhecimento e pertencimento ao território (veja aqui no “Araguaia em Foco” um relato sobre esses torneios femininos).

Por muitos anos, a pesca foi representada como um universo predominantemente masculino. O documentário busca justamente revelar outra perspectiva sobre esse cenário, mostrando mulheres que conhecem profundamente o rio, os ciclos da natureza, os modos de pesca e a vida nas comunidades ribeirinhas contado sob o olhar das mulheres. Mais do que registrar uma competição, o filme evidencia trajetórias de afeto e relação cuidadosa com o Araguaia. A experiência de realizar este documentário envolveu convivência, escuta e troca. Estar ao lado dessas mulheres durante os dias de gravação permitiu compreender como a pesca também é um espaço de transmissão de saberes, autonomia feminina e vínculo cultural com o território. O filme foi construído respeitando o tempo das personagens, suas falas e suas experiências reais com o rio, e lançado no centro cultural Oscar Niemeyer em maio de 2026.

As mulheres da pesca no Araguaia representam não apenas as pescadoras que participam dos campeonatos ou vivem diretamente da pesca, mas também toda uma relação cultural e afetiva que o povo goiano mantém com o Rio Araguaia. Em Goiás, é muito difícil encontrar alguém que não tenha alguma memória ligada ao rio, seja uma viagem em família, temporadas nas praias do Araguaia, histórias de pescaria ou lembranças construídas às margens das águas. O Araguaia faz parte da memória de muitas famílias goianas.
Dentro dessa relação tão próxima com o rio, as mulheres sempre estiveram presentes, embora muitas vezes invisibilizadas. São pescadoras, piloteiras, trabalhadoras do turismo, mães, avós que de forma direta ou indireta sempre acompanharam histórias de pesca no rio. O documentário busca justamente dar visibilidade a essas trajetórias e mostrar que elas também são protagonistas da cultura do Araguaia. Mais do que registrar uma competição, o filme evidencia trajetórias de afeto e relação cuidadosa com o Araguaia.
Outra linha de trabalho audiovisual desenvolvida é a produção de animações, voltadas para a comunicação de conteúdos científicos, culturais e educativos. A animação “Florinha do Cerrado” (7 minutos), com direção de Charles Lima Ribeiro e das professoras da UEG Andreia Juliana Rodrigues Caldeira e Josana de Castro Peixoto, é baseada na coletânea infanto-juvenil de mesmo nome. A pesquisa que originou o projeto integra as atividades do Programa Araguaia Vivo, PPBio Araguaia e Coletivo de Mulheres Cientista em Rede e resulta de um trabalho que tem o Cerrado como foco principal, servindo de plataforma de discussão sobre a flora, ecologia, preservação e conservação do bioma. A animação foi lançada na Sessão Araguaia Vivo no Festival Internacional de Cinema e vídeo ambiental (FICA 2025).

A história acompanha a flor de ipê-amarelo Sara e as abelhas Déia e Jô em uma jornada pelo Cerrado. O conteúdo contribui para o fortalecimento do conhecimento botânico e valorização do bioma. Para isso, busca promover a sensibilização socioambiental e científica, e incentivar ações de proteção e conservação do território. O material tem sido utilizado na capacitação de professores para trabalhar temas socioambientais com alunos da rede básica de ensino na região do Araguaia. “A invisibilidade botânica e do Cerrado faz com que a riqueza e a abundância de espécies biológicas presentes neste bioma, assim como sua importância para a manutenção do equilíbrio ecológico, ainda sejam negligenciadas. Desse modo, a animação é uma oportunidade de contribuir para o conhecimento botânico, trabalhado de forma lúdica e interativa, proporcionando a sensibilização socioambiental e científica, assim como movimentos de defesa, proteção e conservação do Cerrado”, reforça a professora Andreia Juliana.
Outra animação que também foi lançada na Sessão “Araguaia Vivo” no Festival Internacional de Cinema e vídeo ambiental (FICA 2025), foi “A Lenda da Serra das Areias”, dirigida por Larissa Melo e Thaís Oliveira. A animação, que tem oito minutos de duração e conta a história de Vétera, uma menina que adora ouvir as histórias que sua avó conta, sobre os seres mágicos do folclore. Um dia, durante um passeio de bicicleta nas trilhas da Serra das Areias,em Aparecida de Goiânia-GO, se encontra com esses seres como o Saci, Curupira e Cuca, e aprende como pode ajudar a preservar o Cerrado e o meio ambiente. O filme aborda temas relacionados à educação ambiental, à valorização do Cerrado e à preservação das narrativas culturais locais, utilizando a animação como linguagem de aproximação com o público infantojuvenil. A valorização do folclore é importante para a preservação da memória, das tradições e da identidade cultural. Além de preservar tradições, o folclore também fortalece o sentimento de pertencimento e a relação das comunidades com seus territórios. Essas narrativas populares estão diretamente ligadas à natureza, aos rios, funcionando também como formas de respeito e cuidado com o meio ambiente. O filme também já alcançou alguns festivais como 2ºCine Fest Rosal (Rio de Janeiro), 2º Curta Aparecida (Goiás), 8º FestCine Pedra Azul (Espírito Santo, Brasil), e foi indicado para concorrer a melhora animação no 8º Cine Tamoio Festival (Rio de Janeiro).

O filme “A lenda da Serra das Areias” nasce após outra iniciativa desenvolvida nos projetos que é a produção de jogos, ampliando as possibilidades de diálogo entre cinema, animação, games e divulgação científica. Vétera, que tem inspiração no Jogo Super Mario Bros, é um jogo que mergulha no rico universo do folclore brasileiro, com foco em suas lendas e nos animais do cerrado. Através de sua narrativa propõe uma jornada de descoberta e valorização da cultura nacional, utilizando cenários e personagens inspirados no imaginário popular brasileiro e na fauna e flora do cerrado. Desenvolvemos três jogos neste contexto com apoio da Lei Paulo Gustavo, que podem ser acessados em https://www.ueg.br/naufo/conteudo/23675_games

O desenvolvimento de jogos digitais também representa uma importante ferramenta de ensino e aprendizagem, especialmente em projetos voltados para educação, ciência e meio ambiente. Diferente de formatos tradicionais de transmissão de conteúdo, os jogos permitem que o público participe ativamente da experiência, tomando decisões, explorando ambientes e interagindo com narrativas e desafios relacionados aos temas abordados. Esse processo favorece o aprendizado de maneira mais dinâmica e participativa.

No contexto das águas, dois jogos foram desenvolvidos em conjunto com a professora Fernanda Carneiro (UEG), “O mundo aquático de Micra” e o “Micramundo”. Os dois jogos reforçam a importância das microalgas. Ambos são jogos do tipo speedrun, voltados para ensinar, de forma lúdica, conceitos de biologia sobre tipos de microalgas e sua importância para a diversidade dos ecossistemas aquáticos. Os jogos apresentam a personagem Micra (micrasteria), que guia o jogador por labirintos, evitando a poluição e a perda de biodiversidade. Entre os destaques positivos de produção de jogos, merece menção a indicação do jogo “O Mundo Aquático de Micra” ao Prêmio Goiás Sustentável, no qual conquistou o terceiro lugar na Categoria Cinema e educação, evidenciando a relevância da produção desenvolvida na universidade em um reconhecimento de grande importância no estado de Goiás. O prêmio é uma iniciativa da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Governo de Goiás (SEMAD-GO).

Como aconteceu no contexto do jogo Vétera, “O mundo aquático de Micra” também será transformado em animação e será lançado no FICA em junho de 2026. Esse reconhecimento dos projetos desenvolvidos em festivais e premiações aumenta a visibilidade da região e pode ajudar a ampliar o estabelecimento de parcerias com instituições científicas e entidades financiadoras, reforçando a confiança nos produtos audiovisuais enquanto ferramenta de comunicação e reflexão. Além disso, os produtos podem ser utilizados como recurso pedagógico em escolas, universidades e programas de educação ambiental, ampliando o seu impacto para além do circuito cinematográfico.
Assim como ninguém faz ciência sozinho, o audiovisual também é resultado de um trabalho coletivo. Todos esses projetos audiovisuais foram realizados por meio da integração entre pesquisadores, artistas, técnicos e empresas do setor audiovisual, cuja colaboração foi fundamental para o desenvolvimento das produções. Agradecemos especialmente às empresas Tessa Comunicação, LMT Projetos e Produções, Bold Studio, Maestria Studio e Bem Te Vi Produções, que contribuíram de forma competente e comprometida para a realização dos projetos, fortalecendo as ações de audiovisual, divulgação científica e valorização cultural desenvolvidas pelas iniciativas. Acreditamos, como cineastas, comunicadoras e pesquisadoras, que mais do que um registro científico, esses filmes se apresentam como um convite, um convite para conhecer o Rio Araguaia!
Confira quem são as autoras do artigo
Thais Rodrigues Oliveira- Professora do curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Estadual de Goiás e pesquisadora no Programa Araguaia Vivo 2030 da TWRA/FAPEG
Andreia Juliana Rodrigues Caldeira – Professora da UEG, coordenadora da atividade “Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA/FAPEG e pesquisadora responsável pela educação ambiental no PPBio Araguaia.
Ana Clara Diniz – Publicitária, MBA em “Marketing, Branding e Growth” e bolsista na atividade “de Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA/FAPEG.
Mariana Pires de Campos Telles – Professora da PUC Goiás e da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenadora geral do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA/FAPEG e do PPBio Araguaia (PUC Goiás / CNPq).



