Por: Ana Karolina Mendes Moreno, Geiziane Tessarolo, José Alexandre Felizola Diniz Filho, Lisiane Hahn, Lucas Jardim, Fabrício Barreto Teresa, Guilherme Rogie Gonçalves Tavares, Laura Barreto de Paula-Souza, Levi Carina Terribile, Lisiane Hahn – Especial para o Jornal “Opção”

Quem já pescou no rio Araguaia conhece a história: a linha estica de repente, o barco vira levemente contra a correnteza e começa uma disputa que pode durar quase uma hora. Não é raro ouvir relatos de pescadores que dizem ter enfrentado “o peixe da vida”, um animal tão forte que parece não cansar. Conhecida como a “Rainha do Araguaia”, a piraíba (ou “filhote” – Brachyplatystoma filamentosum) não recebe esse título por acaso. Trata-se de um dos maiores bagres da América do Sul, podendo ultrapassar três metros de comprimento e mais de 200 quilos. Predadora de topo de cadeia, sua presença ajuda a manter o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Apesar de ser famosa nas bacias do Araguaia e Amazonas, sua distribuição vai muito além: estende-se desde foz do Amazonas até a cordilheira dos Andes, incluindo Bolívia, Peru, Ecuador, Colômbia, Venezuela, além de rios nas Guianas e Suriname. Por ser uma grande espécie migradora, sua mobilidade exige rios livres e conectados para que possa completar seu ciclo de vida. Para se ter uma ideia de sua impressionante mobilidade, uma piraíba recentemente monitorada pelo Projeto Peixara no rio Araguaia chegou a nadar mais de 800 quilômetros, subindo o rio por 360 km em 32 dias e descendo 477 km em apenas 15 dias.

Sua importância ecológica também se reflete no cotidiano das pessoas. Em partes da Amazônia, a espécie sustenta pescarias de subsistência, contribuindo diretamente para a segurança alimentar e a renda de comunidades ribeirinhas. Já no rio Araguaia, movimenta o turismo da pesca esportiva, sendo considerada o ‘troféu’ máximo pelos pescadores. Ao mesmo tempo, sua captura para consumo é proibida na bacia Araguaia-Tocantins, uma medida que busca equilibrar o uso econômico e a conservação.

Nos últimos anos, a espécie vem enfrentando pressões crescentes. A sobrepesca histórica reduziu populações ao longo de décadas. Mais recentemente, a expansão de hidrelétricas tornou-se uma grande ameaça, já que o barramento dos rios fragmenta seu habitat e compromete sua reprodução e sobrevivência. No rio Tocantins, por exemplo, uma série de barragens construídas em cascata ao longo do rio levou a declínios da espécie. Em contraste, o rio Araguaia ainda permanece livre de grandes barragens, uma condição cada vez mais rara e essencial para a sobrevivência da piraíba.

Onde está a piraíba

Para proteger uma espécie, é preciso antes responder a uma pergunta básica: em quais rios ela vive? Para isso, os pesquisadores fazem um levantamento minucioso em busca de registros de ocorrência da espécie, seja na literatura científica, em bases de dados online, em bibliotecas, ou junto a outros pesquisadores que já estudaram ou coletaram dados sobre ela. Com esses dados em mãos, é possível construir mapas e, assim, temos uma ideia inicial de em quais rios a piraíba ocorre. 

Entretanto, é possível que ainda existam áreas onde a espécie ocorre que ainda são desconhecidas, o que é esperado para uma espécie como a piraíba, que tem uma grande área de distribuição geográfica. E aí, mais uma vez, precisamos que a ciência entre em ação.

Onde a piraíba já foi registrada: os pontos em vermelho indicam ocorrências da espécie, enquanto as linhas azuis mostram os principais rios.

Entre conhecimento e incerteza 

Ao cruzar as coordenadas de onde a piraíba já foi vista com as características da água, os cientistas criam mapas que nos ajudam a prever onde mais a espécie conseguiria viver, mesmo em locais onde ela ainda não foi registrada. Esses modelos são ferramentas importantes para orientar políticas de conservação. Mas há um problema: a qualidade dos dados disponíveis nem sempre é considerada. Muitos desses registros de ocorrência podem ser antigos ou concentrados em poucas regiões, ou podem na verdade ser referentes a outra espécie similar. O problema é que esses mapas podem criar a falsa ilusão de que conhecemos toda a distribuição da piraíba, quando, na verdade, os resultados estão cheios de incertezas. Para lidar com isso, pesquisadores passaram a adotar uma abordagem diferente: avaliar não apenas onde os modelos indicam que a espécie pode ocorrer, mas também o quanto podemos confiar nessas previsões, considerando certas características dos dados disponíveis.

Esse é o princípio dos Mapas de Ignorância Biogeográfica. Em vez de olhar apenas para as áreas apontadas pelos modelos como favoráveis para a ocorrência da espécie, eles esses mapas revelam onde essas previsões são mais incertas, seja pela falta de pesquisas em partes do rio, seja por usarmos registros antigos demais ou quando tentamos adivinhar o que existe em áreas muito distantes das que conhecemos, mas não temos dados disponíveis. Afinal, o registro de uma piraíba com quarenta anos não garante necessariamente que a espécie ainda esteja presente no local hoje, especialmente em rios que passaram por degradação ou a construção de uma barragem.

Há ainda um outro desafio: nem sempre sabemos, com segurança, qual espécie está sendo registrada. Durante muito tempo, a piraíba foi tratada como uma única espécie em toda a bacia Amazônica. Só em 2005 os pesquisadores reconheceram formalmente uma espécie muito semelhante, o filhote-de-capa-preta (ou piraíba preta – Brachyplatystoma capapretum). Curiosamente, o nome já existia antes de pesquisadores a descreverem. Em Belém, ao buscar informações sobre esse peixe, pesquisadores encontraram um pescador que fazia a distinção: ele o chamava de “filhote-de-capa-preta”, em referência à coloração escura no dorso dos adultos, uma das caraterísticas que diferenciam as duas espécies. E é justamente aí que surge o problema: registros antigos e até observações mais recentes podem não diferenciar essas duas piraíbas. Para complicar, a coloração varia muito em um mesmo indivíduo ao longo da vida. Por exemplo: uma piraíba, ao entrar em águas mais claras ou escuras, pode “mudar” de cor temporariamente. Toda essa confusão acaba afetando a qualidade dos dados, já que não temos total confiança se um registro antigo realmente corresponde à espécie correta. 

Para lidar com essas limitações, um estudo recente desenvolvido por pesquisadores do programa “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), gerenciado pela Tropical Water Research Alliance (TWRA), e do PPBio Araguaia (@ppb.araguaia), e associados ao grupo de trabalho em lacunas de conhecimento sobre biodiversidade do Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia (INCT) em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio), ambos financiados pelo CNPq, avaliou três dimensões principais da incerteza quanto à distribuição da piraíba: o tempo (registros antigos), a falta de amostragem em diferentes rios e o risco de erro na identificação da espécie. 

Para avaliar essas dimensões e entender a distribuição da piraíba, os pesquisadores também utilizaram dados de outros bagres da mesma família, os Pimelodidae: como eles estão em diferentes tipos de ambientes e têm características ecológicas semelhantes, a presença desses outros bagres ajuda a avaliar se um rio foi bem investigado ou não. Nas áreas onde há registros da piraíba ou de outros pimelodídeos, o nível de conhecimento é estimado com base nesses próprios dados, considerando quão recentes são e o quanto aquele rio já foi amostrado. Já nas áreas sem registros, a análise se baseia no que sabemos de regiões próximas e com características ambientais semelhantes, permitindo estimar o nível de conhecimento mesmo onde ainda não há dados diretos. Ao combinar todos esses fatores, o mapa revelou duas realidades bem diferentes. Se por um lado temos rios muito bem estudados, apoiados por pesquisas frequentes e dados recentes, por outro, descobrimos extensas áreas com condições perfeitas para a piraíba, mas ainda com pouca informação disponível.

No médio Araguaia e no canal principal do rio Amazonas e em alguns de seus grandes afluentes, como o rio Madeira, o conhecimento sobre a espécie é apoiado por dados de alta qualidade. Isso é um reflexo de décadas de pesquisa e monitoramento, já que ali se concentram institutos de pesquisa, programas de monitoramento, além de uma intensa atividade pesqueira que gera muitos dados. Além disso, são locais ambientalmente adequados à sobrevivência da espécie. No entanto, o estudo revelou que até mesmo na bacia Amazônica existem áreas um pouco incertas, como na porção central do rio, por conta do risco de confusão de registros antigos entre a piraíba e a piraíba preta. Mesmo esses “corredores bem documentados” correm perigo, já que a bacia amazônica vem sofrendo com a intensa construção de usinas hidroelétricas nas últimas décadas, o que afeta as rotas de migração da espécie e de outros grandes bagres.

Por outro lado, os resultados também mostram muitas regiões com condições ambientais perfeitas para a piraíba, mas com pouquíssima informação disponível. Partes da bacia do rio Orinoco, trechos do submédio Araguaia e rios do Suriname e da Guiana Francesa possuem um nível alto de ignorância, pois os poucos registros oficiais de captura da espécie foram feitos ainda na década de 1970 e algumas dessas regiões ainda são regiões pouco estudadas. Nesses locais, é necessário que novas expedições científicas sejam realizadas para confirmar se a piraíba está por lá.

Além disso, o estudo delimitou as fronteiras naturais da espécie, como regiões montanhosas, cabeceiras ou rios muito rasos onde um bagre desse porte não consegue sobreviver. O estudo também faz um alerta preocupante: muitos trechos de rios inexplorados, que sequer sabemos se abrigam piraíbas, localizam-se em zonas de extrema vulnerabilidade e avanço do desmatamento (como o alto Tapajós e Xingu). Nesses locais, a nossa ignorância mascara as perdas reais da biodiversidade antes mesmo de podermos estudá-la.

Mas o que esses dados significam na prática? Significa que decisões sobre conservação e manejo, como regras de pesca ou definição de áreas prioritárias, podem estar sendo tomadas com base em informações incompletas ou desatualizadas. Um dos grandes motivos para essa falta de dados recentes é logístico. Muitas regiões são de difícil acesso ou remotas e fazer expedições científicas para lá é caro. Além disso, é difícil armazenar exemplares de grandes peixes em coleções de museus e universidades. Por isso, grande parte das informações oficiais que temos sobre a piraíba vem de inventários rápidos, muitas vezes feitos durante o licenciamento ambiental de obras décadas atrás, sem um monitoramento contínuo. Em um cenário de mudanças climáticas e intensa atividade pesqueira, traçar planos de conservação apenas com dados antigos pode levar a decisões equivocadas.

Grandes bacias hidrográficas foram divididas em pequenas sub-bacias para avaliar o nível de conhecimento sobre a espécie. No topo, à esquerda, o mapa mostra onde o conhecimento é menor (em vermelho), com base na combinação de registros da piraíba e também de outros bagres da mesma família, usados como indicativo do esforço de amostragem e tempo desde que o dado foi coletado; em áreas sem registros diretos, essa avaliação é estimada a partir de regiões próximas semelhantes. À direita, áreas onde as condições ambientais são mais favoráveis para ocorrência da piraíba (em vermelho). Abaixo, a sobreposição desses dois mapas mostra regiões onde há alta chance de ocorrência, mas com alta incerteza dos dados (em roxo) sendo áreas prioritárias para pesquisa e conservação, bem como áreas com altas chances de ela ocorrer, apoiada por dados de alta qualidade (amarelo). (Imagem do artigo The biogeographic ignorance in the distribution of South American goliath catfish: https://doi.org/10.1007/s11160-025-10034-z).

Quando o pescador vira pesquisador

Para ajudar a mapear a piraíba, também precisamos da experiência de quem vive o rio no dia a dia. É aqui que os pescadores esportivos, os guias de pesca e as comunidades ribeirinhas se tornam “cientistas cidadãos”. Hoje, uma simples foto tirada pelo celular, contendo a data e a localização do GPS no momento da soltura é um registro valioso! Aplicativos como o iNaturalist. permitem que qualquer pessoa poste fotos não só da piraíba, mas de outros animais, que a comunidade científica ajuda a identificar. Assim, todos podem contribuir ativamente e de forma gratuita com o monitoramento e ajuda os pesquisadores a conhecer mais sobre a distribuição da piraíba e de tantas outras espécies!

A ciência na prática: o monitoramento contínuo da Piraíba no Araguaia

No rio Araguaia, a união entre a comunidade e cientistas já vem acontecendo na prática. O Projeto Peixara vem se dedicando ao estudo dos peixes da bacia do rio Araguaia, com foco especial na piraíba, combinando técnicas como marcação, radiotelemetria e análise genética para entender mais sobre essas espécies, como sua migração, crescimento e reprodução. Lembra da piraíba que nadou mais de 800 km citada no início desta matéria? Ela é apenas um dos resultados impressionantes do monitoramento do Projeto Peixara. Informações como essas ajudam a compreender melhor as necessidades ecológicas da espécie e reforçam a importância do monitoramento contínuo.

Pesquisadores do Projeto Peixara realizam a marcação, a coleta de amostras de DNA e a soltura de piraíbas no rio Araguaia. O rastreamento, feito através de bases fixas e por rastreamento móvel pelo curso do rio, investiga as rotas e o comportamento dos peixes marcados, gerando dados essenciais para a conservação da espécie. (Foto: Projeto Peixara)

Foi a partir do esforço combinado dos vários projetos do nosso grupo de pesquisa sobre a bacia do rio Araguaia, tais como o Araguaia Vivo, PPBio Araguaia, Projeto Peixara e o INCT EECBio que conseguimos avançar em estudos sobre a distribuição e o conhecimento biogeográfico da piraíba. No fim, garantir que o “peixe da vida” de tantos pescadores continue a cruzar nossos rios não depende apenas de criar leis de proteção, mas também de melhorar o que sabemos sobre ela. E isso só é possível quando ciência, projetos locais e comunidades trabalham juntos com um mesmo objetivo!

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Atuação integrada: da discussão de ideias entre pesquisadores às expedições em campo, os trabalhos do INCT EECBio e do Programa Araguaia Vivo / PPBio Araguaia se desenvolvem em diferentes frentes, em parceria com a comunidade.

Confira quem são os autores do artigo

Ana Karolina Mendes Moreno – Bióloga, doutora em Biodiversidade Animal pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisadora no Programa Araguaia Vivo 2030 e no INCT EECBio.

Geiziane Tessarolo – Bióloga, doutora em Ecologia e Evolução pela UFG e pesquisadora do INCT EECBio, Coordenadora científica do Instituto Relva.

José Alexandre Felizola Diniz-Filho – Professor na UFG, coordenador do INCT EECBio, coordenador de pesquisa do programa Araguaia Vivo e pesquisador dos projetos PPBio Araguaia, Araguaia Vivo 2030 e PELD Araguaia.

Lisiane Hahn – Bióloga, Doutora em Ciências (Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, da Universidade Estadual de Maringá – UEM), Diretora Técnica Neotropical Pesquisa e Consultoria Ambiental e Coordenadora Técnica do Projeto Peixara.

Lucas Jardim – Biólogo, doutor em Ecologia e Evolução da UFG e pesquisador no Programa Araguaia Vivo 2030 e no INCT EECBio.

Fabrício Barreto Teresa – Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), pesquisador do INCT Peixes e do INCT EECBio, coordenador da atividade de “Turismo e Pesca” do Araguaia Vivo 2030, vice-coordenador do PELD Araguaia, pesquisador associado ao PPBio Araguaia e pesquisador do Centro de Excelência em Segurança Hídrica (CEHIDRA) da UEG.

Guilherme Rogie Gonçalves Tavares – Biólogo e Doutorando no Programa de Pós Graduação em Ecologia e Evolução da UFG.