Professor da UFG alerta para risco de ciência produzida e julgada por inteligência artificial
02 junho 2026 às 11h17

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Um novo levantamento publicado pela revista científica Organization Science em 2026 acendeu um alerta sobre o aumento do uso excessivo de inteligência artificial (IA) na produção acadêmica. Segundo o estudo, o número de artigos submetidos cresceu 42% desde 2022, ano de lançamento do ChatGPT. Entre essas produções, os trabalhos com forte influência de ferramentas de IA avançaram significativamente e já representam cerca de 10% do total analisado, de 473 dos 4.715 estudos.
Um dos principais efeitos observados pelos pesquisadores foi a queda na qualidade da escrita acadêmica. A pesquisa aponta um declínio nos índices de legibilidade medidos pelo Flesch Reading Ease, uma das métricas mais utilizadas para avaliar a clareza de textos.
Professor do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sávio Teles afirma que a expansão desse fenômeno já preocupa a comunidade científica. Ele cita o surgimento das chamadas paper factories — estruturas que utilizam sistemas automatizados para executar praticamente todas as etapas de uma pesquisa, desde a análise de dados e geração de códigos até a redação final dos artigos.
Segundo o pesquisador, a dependência excessiva dessas ferramentas pode comprometer a formação acadêmica dos estudantes e pesquisadores. “Se o pesquisador não passar pela geração desse conteúdo, ele não consegue avaliar e julgar se o resultado está bom ou não, porque nunca viveu aquele processo”, diz em entrevista ao Jornal Opção.
Para Teles, embora a IA seja capaz de sintetizar informações e descrever resultados apresentados em tabelas e gráficos, ela ainda encontra dificuldades para aprofundar análises, formular hipóteses consistentes e explicar as razões por trás dos fenômenos observados.
Apesar das preocupações, o professor avalia que o problema não se limita à tecnologia. Na sua visão, a crescente utilização da IA é também um reflexo de um sistema acadêmico que frequentemente privilegia a quantidade de publicações em detrimento da qualidade.
Nesse contexto, ele cita a cultura do publish or perish (“publique ou pereça”), que pressiona pesquisadores a manter uma produção constante de artigos para garantir reconhecimento acadêmico, financiamento e progressão na carreira.
Outro ponto destacado pelo estudo é o uso crescente da inteligência artificial no próprio processo de revisão científica. De acordo com os pesquisadores, mais de 30% das avaliações realizadas por periódicos já utilizam algum grau de apoio dessas ferramentas. Para Teles, a supervisão humana continua sendo indispensável. “A ferramenta é uma péssima juíza de si mesma”, afirma.
Segundo ele, a substituição gradual dos revisores humanos por sistemas automatizados pode criar um ciclo em que a ciência passa a ser produzida, revisada e validada pelas próprias inteligências artificiais. “Se escrevemos e julgamos os textos com IA, então, no final, tudo o que vamos consumir de ciência será produzido e mantido pelas IAs”, alerta.
Apesar dos riscos, o pesquisador defende um uso consciente e criterioso da tecnologia. Para ele, a inteligência artificial deve funcionar como uma ferramenta de apoio ao trabalho científico, e não como substituta do protagonismo humano. “A IA pode gerar novas ideias, sugerir conexões entre conceitos e acelerar determinadas etapas da pesquisa. O importante é que o pesquisador continue exercendo seu papel crítico e criativo em todo o processo”, conclui.
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