Goiás registra mais de 71 mil casos de trabalho infantil; juíza explica o fenômeno e alerta para novas formas de exploração
11 junho 2026 às 19h24

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O estado de Goiás contabiliza 71.337 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC). A realidade coloca o estado como o oitavo com maior número de casos no Brasil em 2024. Somente a região metropolitana concentra mais de 15 mil ocorrências.
Ao Jornal Opção, a juíza Antônia Helena Taveira, gestora regional do Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil e de Estímulo à Aprendizagem, detalhou os fatores que explicam esse cenário, os desafios da fiscalização e os impactos da exploração no desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Segundo a magistrada, em regra geral, o que determina o trabalho infantil no Brasil são as condições socioeconômicas, a pobreza, principalmente. Em Goiás, há especificidades ligadas à economia baseada no agronegócio. “A participação de menores é muito grande nessa área. Principalmente na pecuária e também nas economias familiares”, disse.
Ela destacou ainda a informalidade como fator agravante. “Essa informalidade reflete na contratação de menores sem as garantias de aplicação da legislação trabalhista e proteção ao trabalho do menor”, afirmou.
Na região metropolitana de Goiânia, a juíza apontou que a informalidade é determinante para a ocorrência do trabalho infantil. “Nós temos nas feiras livres um grande número de menores em atividade. Nas oficinas mecânicas também é significativo. Nós temos no comércio em geral, principalmente nesse comércio informal”, pontuou.
A magistrada ressaltou que os casos ainda são subnotificados. “Esses números que a gente vê e que foram apurados nessa pesquisa da Pnad 23/24 não refletem em números de processos na Justiça do Trabalho e nem em números de atuação da fiscalização trabalhista”, disse.
Ela acrescentou que a quantidade de profissionais para atuar na fiscalização é insuficiente e que as denúncias são poucas. “O trabalho infantil ainda é banalizado e, até certo ponto, naturalizado na sociedade”, alertou.
Ao ser questionada sobre a influência cultural, a juíza afirmou o aspecto cultural ainda é muito importante. “Em estados mais desenvolvidos, como São Paulo, é certo que o número de trabalho infantil é mais exacerbado, até em razão do desenvolvimento da região. Mas, por outro lado, a questão cultural é menos importante. Aqui para nós, a tradição de que é melhor estar trabalhando do que estar nas ruas ainda é muito importante”, disse.
Ela reforçou que, no Brasil como um todo, essa percepção persiste, mas é mais forte em regiões de menor desenvolvimento socioeconômico e cultural.
Rede de proteção
Sobre a rede de proteção, a juíza explicou que ela é formada pelos conselhos tutelares, pelo Ministério Público de Goiás e do Trabalho, pelo Ministério do Trabalho e Emprego, pela Justiça do Trabalho, por diversas entidades, como as entidades do Sistema S.
O maior desafio, segundo ela, é a integração das políticas públicas. “Nós precisamos de políticas públicas na área de assistência social, que garantam o acesso e a permanência desses menores na escola, acompanhamento familiar, melhorar a renda das famílias. Precisamos da participação de todos os segmentos da sociedade”, apontou.
Naturalização e banalização
A juíza destacou que o trabalho infantil nas ruas é visível. “Está nas áreas públicas: nas ruas, nas feiras, nas praças, no engraxate, na criança que faz mendicância. Não existe essa postura de ocultação. Mas em compensação, eu não digo que seja naturalizada, mas é banalizada. Cabe a cada um de nós fazer as denúncias e ocupar o espaço que lhe cabe para mudar essa realidade”, disse.
Novos desafios: ambiente digital
A exploração também se modernizou. “Elas agora estão mudando de endereço, saíram das ruas e foram para o ambiente digital. Existe uma glamourização muito grande em relação a esse trabalho. Qualquer criança, qualquer adolescente se empolga com a ideia de tornar-se um influencer hoje. Mas é um tipo de trabalho, desde que envolva monetização, extremamente prejudicial”, explicou.
Ela alertou para riscos como cyberbullying, assédio virtual, comprometimento da intimidade e da frequência escolar. “A partir do momento em que você tem que produzir conteúdo, cumprir uma agenda, isso ocorre em detrimento da educação e do lazer”, apontou.
A juíza explicou que a Justiça busca exigir autorização judicial para atividades remuneradas, como já ocorre em trabalhos artísticos. “O maior desafio é a conscientização. É fazer entender que aquele mundo da rede social pode render muito dinheiro, mas também prejudica. A infância não é para ser explorada, mas é sujeito de direitos”, disse.
Exploração sexual
Ela lembrou que uma das piores formas de trabalho infantil é voltada para a exploração sexual. “Principalmente. E até agora no mês de maio tivemos o Dia Nacional de Combate à Exploração Sexual Infantil. Agora, dia 12 de junho é o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil. A preocupação é abrir os olhos da sociedade e trazer a sociedade para participar ativamente da construção de uma nova realidade”, comentou.
A juíza também observou que práticas aparentemente inofensivas podem esconder exploração. “Muitas vezes tem uma exploração da imagem sexual da adolescente. Não muito especificamente na relação direta, mas naquele uso das dancinhas, aquelas coisas que também podem ser consideradas”, disse.
Ao encerrar, a juíza disse que o Brasil e o estado de Goiás têm conseguido bons resultados nesse trabalho de prevenção do trabalho infantil e de estímulo à aprendizagem, que é uma das principais portas de saída para o trabalho infantil proibido ou ilegal.
“Já houve ganhos significativos, mas a situação ainda é grave e preocupante. A participação integrada do poder público, das empresas, da imprensa e da sociedade em geral é fundamental para mudar essa realidade. O trabalho infantil, quando ocorre, prejudica a todos”, explicou.
“Mas quando a gente foca na educação, na conscientização e na aplicação das garantias constitucionais e legais, estamos fortalecendo o desenvolvimento pessoal da criança e do adolescente, dando maiores possibilidades de quebrar o ciclo de pobreza e de perpetuação do trabalho infantil”, finalizou.
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