O centro de Goiânia vive um novo ciclo de valorização imobiliária. De acordo com os dados do Índice FipeZAP de Venda Residencial referentes a março de 2026 mostram que o Setor Central de Goiânia registrou valorização de 15,5% nos últimos 12 meses, desempenho mais de cinco vezes superior à média da capital, que ficou em 2,87% no período.

O resultado coloca a região como a área com maior alta imobiliária da cidade e reforça o movimento de retomada do Centro, impulsionado por projetos de revitalização urbana, crescimento da procura por imóveis bem localizados e aumento do interesse de investidores.

A valorização do Centro ocorre em meio a uma mudança de percepção sobre a região, marcada pela reocupação de áreas centrais, busca por mobilidade urbana e preferência por imóveis próximos de comércio, serviços e transporte público. O movimento acompanha uma tendência observada em grandes cidades brasileiras e reacende o debate sobre a recuperação econômica e urbana da região central da capital.

Centro volta ao radar do mercado

Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente executivo da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (AdemiGO), Felipe Melazzo, o crescimento de 15,5% reflete o potencial estrutural do Centro e a retomada do interesse da população pela região.

“O centro deve ser tratado como um bairro pujante, com moradia, comércio, bares, restaurantes e atividades culturais. A população precisa voltar a ocupar e se sentir pertencente daquele espaço”, afirmou.

Melazzo destaca que o Centro já possui infraestrutura consolidada, com transporte público, iluminação, redes de água e energia, mas ainda apresenta baixa ocupação residencial. Para ele, ações de revitalização em discussão entre entidades empresariais, prefeitura, universidades e Câmara Municipal podem acelerar o processo de recuperação urbana.

Entre as propostas debatidas estão feiras noturnas na Avenida Goiás, recuperação de becos, incentivo à ocupação de espaços públicos e ampliação de atividades culturais e gastronômicas.

“São propostas factíveis, que ajudam a trazer vivacidade para o centro. O poder público precisa cuidar da manutenção, segurança e limpeza, mas a população também precisa assumir o centro da cidade”, disse.

O projeto também contará com apoio de especialistas em urbanismo, representantes do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPUC) e profissionais envolvidos na revitalização da região art déco de Miami.

Programas habitacionais e retomada urbana

O presidente da AdemiGO ainda avalia que programas habitacionais voltados à região central podem fortalecer o movimento de retomada. Segundo ele, iniciativas como o “Morar Bem no Centro”, da Prefeitura de Goiânia, ajudam a estimular a ocupação residencial e ampliar a circulação de pessoas na região.

“Precisamos de uma dose forte de otimismo e de ações reais para fazer o centro voltar a pulsar. É um bairro espetacular, com diversidade, história e grande potencial econômico e cultural”, concluiu.

Empresários acompanham movimento de revitalização

O avanço imobiliário também começa a refletir no interesse do setor empresarial. O vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia, Florêncio Henrique Rezende, afirma que comerciantes e empresários já demonstram maior atenção à recuperação econômica do Centro.

“Já existe um interesse crescente dos empresários, principalmente diante do discurso e das iniciativas recentes da gestão municipal. Mas é preciso avançar em questões estruturais para consolidar essa retomada”, afirmou.

Segundo Florêncio, a revitalização da região passa pelo fortalecimento da segurança pública, melhoria da mobilidade urbana e recuperação da atratividade comercial do Centro, fatores considerados fundamentais para ampliar investimentos e aumentar a circulação de consumidores.

Mercado imobiliário em Goiânia

O levantamento da Fipe aponta ainda que Goiânia registrou alta de 0,50% nos preços de venda de imóveis residenciais apenas em março de 2026, índice acima da prévia da inflação oficial do país no período, medida pelo IPCA-15, de 0,44%. No acumulado do ano, a valorização da capital chega a 0,88%.

De acordo com o relatório, o preço médio do metro quadrado em Goiânia alcançou R$ 8.166 em março de 2026, colocando a capital entre os mercados imobiliários mais valorizados do Centro-Oeste. Apesar disso, a valorização anual da cidade ficou abaixo da média nacional do Índice FipeZAP, que registrou alta de 5,62% nos últimos 12 meses.

Valorização imobiliária

Os empreendimentos lançados durante a pandemia, em 2020, com preço médio de R$ 5 mil por metro quadrado, hoje são comercializados na faixa de R$ 8.500. Em unidades decoradas, o valor chega a R$ 10.500, representando uma valorização próxima de 70% no período.

Segundo os diretores da Somos Incorporadora, Paulo Silas Ferreira e Ricardo Maciel, parte desse crescimento se deve à correção monetária pelo INCC, mas a valorização real gira em torno de 20%.

A procura por apartamentos na região central tem sido intensa, especialmente por famílias da chamada “classe média pronta”, professores universitários e investidores voltados ao Airbnb. A localização estratégica, próxima às faculdades e ao comércio, tem impulsionado a demanda. “Na última semana vendemos três apartamentos decorados, todos na faixa de R$ 10 mil a R$ 10.500 por metro quadrado”, destacou Paulo Silas.

Entre os fatores que explicam essa valorização está o pacote de incentivos fiscais implementado pelo ex-prefeito Rogério Cruz. O decreto isenta os novos empreendimentos de IPTU por cinco anos e garante redução de 40% por mais cinco anos. Além disso, compradores de primeira escritura ficam isentos do ITBI, imposto que normalmente representa 2% do valor do imóvel. “Esses benefícios foram fundamentais para atrair moradores e investidores de volta ao centro”, afirmou Ricardo Maciel.

O perfil dos compradores é diversificado, famílias de 60+, professores que lecionam no setor universitário e empresários interessados em locação por temporada. Os apartamentos de dois quartos, por exemplo, são alugados por cerca de R$ 500 a diária, acomodando até quatro pessoas, o que os torna competitivos frente às tarifas de hotéis.

Um outro ponto destacado pelos diretores é a revitalização urbana em andamento. O centro de Goiânia, que concentra patrimônio arquitetônico Art Déco, tem recebido atenção especial da prefeitura e de incorporadoras. Além da Somos, empresas como a Topajós e a Somos Incorporadora já lançaram projetos na região, e outras companhias estudam novas áreas próximas à Justiça Federal. A prefeitura também adquiriu prédios para instalar órgãos públicos, o que deve levar mais de 1.500 servidores ao centro, fortalecendo o comércio e a demanda por moradia.

Alternativa

Além dos novos empreendimentos, há também a possibilidade de realizar retrofit em prédios antigos, adaptando unidades espaçosas, muitas com mais de 100 metros quadrados, para padrões modernos de moradia. Essa alternativa tem se mostrado viável para quem não depende de garagem, já que a mobilidade urbana no centro permite fácil acesso a serviços, transporte público e aplicativos de mobilidade como Uber.

“Hoje é hora de investir no centro. Você pode comprar um apartamento antigo, fazer retrofit e ter um imóvel amplo e moderno, sem precisar de garagem”, destacou Paulo Silas.

A segurança também tem sido um fator positivo. Segundo os diretores, a região próxima à Catedral e ao Liceu ganhou vida noturna com pizzarias e bares, além da revitalização de praças antes degradadas. “Acabou aquela cracolândia que existia na Rua 91. O prefeito reformou toda a praça e hoje é possível andar a pé tranquilamente”, ressaltou.

Coração da cidade

Para os diretores da Somos Incorporadora, o centro é o “xodó de Goiânia”, com infraestrutura completa, contrafluxo de trânsito e proximidade de setores estratégicos como o universitário e o oeste. “Toda cidade bonita preserva seu centro histórico. Goiânia tem um patrimônio arquitetônico fantástico que precisa ser valorizado”, concluiu Paulo Silas.

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