Opção cultural
por Sandra Araujo Hott*

O famoso “Poema em Linha Reta” nos diz que todos os conhecidos do poeta eram verdadeiros campeões em tudo, sem derrotas ou fracassos. O poeta, ao contrário dos demais, experimenta todos os erros, inseguranças e medos humanos. Caso ainda não conheça esse poema de Fernando Pessoa com pseudônimo de Álvaro de Campos, vale a pena ler.
O empreendedorismo é uma ilusão que cabe certinho nas nossas fantasias de sucesso: se eu trabalhar bem e muito, serei vencedor em tudo! Há aqui uma certeza embutida de que somos os mestres de nosso próprio destino e, embora isso não esteja de todo errado, esse futuro sonhado é sempre brilhante e glorioso.
Nosso futuro é resultante de variáveis complexas atuais e de eventos passados que certamente desenharam nosso presente. Além disso, algumas dessas decisões são tomadas e ainda modificadas por cada um. O equívoco está em acreditarmos na liberdade plena da decisão consciente sobre nossos atos, já que há em nós uma faceta inconsciente que direciona nossos desejos em cada ato. A parte mais equivocada e triste: não há nenhuma garantia de eficácia e do futuro tão sonhado se concretizar do jeito que idealizamos.
O poder ilusório de ter o futuro nas mãos traz amarrada a certeza de amarga responsabilidade, pois se o ouro não vier, será por falta de esforço da parte do sujeito. Sabemos que as condições sociais e culturais são desiguais e que a boa vontade não é suficiente e, ainda assim, a culpa sobreviverá! E remoeremos, horas a fio, onde e como poderia ter sido feito diferente, e ensaiaremos o que deveria, o que poderia, como, e o constante ‘e se’ martelando as lembranças.
A psicanálise aposta numa determinação inconsciente e que esse é transmitido através da linguagem para além da língua trazendo consigo a cultura. Esse nos precede e nele nos enlaçamos desde o início, através do olhar e voz maternos, dos toques e cuidados que precisamos para sobreviver dada a nossa inexorável vulnerabilidade. O laço nos garantirá a vida.
Os fatos passados que hoje nos afetam podem ser interpretados e ditos de alguma outra forma e a análise se presta à escuta que tornará possível esse percurso. Ressignificar o passado é de certo modo modificá-lo na realidade subjetiva que representará uma mudança atual abrindo novas possibilidades de escolha do futuro que podemos vir a ter.
“Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”, continua o poeta mencionado no início. Na vida nós encontramos alegrias, mas também sofrimentos e sempre fazemos o que nos é possível. É preciso lembrar que sempre será o nosso melhor, dadas as circunstâncias, dadas as possibilidades, dada a nossa história que a tudo, em cada um desses atos, foi determinante. Alguma generosidade no cuidado de saúde mental pode representar uma qualidade de vida ímpar e valiosa.
Longe dessa exigência de êxito, talvez possamos considerar apenas o que nos seja melhor possível sempre. Talvez, lacrar e brilhar acima de todos não seja uma escolha tão feliz assim. Talvez, aceitar uma errância onde eventualmente se acerta possa trazer novamente gente para habitar nosso mundo atualmente pleno de pretensos semideuses. Portanto, deixemo-nos fracassar um pouco!
*Psicanalista com formação e mestrado em psicologia pela UFRJ, Sandra Araujo Hott é psicanalista, professora e supervisora clínica. Sandra tem 25 anos de experiência clínica e mais de 20 anos como professora e supervisora.
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Por Jacir Venturi*

Em 1832, Évariste Galois, atualmente reconhecido como um dos mais criativos matemáticos, envolveu-se perdidamente com a noiva de um atirador de pistola, bom de gatilho, que o desafiou a um duelo no raiar do dia seguinte, nas cercanias de Paris. Sabedor de que suas chances de sobrevida seriam diminutas, Galois passou a noite escrevendo cerca de 60 páginas de novas teorias matemáticas. Antes do amanhecer, o nosso incauto matemático escolheu uma de suas pistolas, dirigiu-se ao local adrede combinado. Seguindo o ritual da época, os dois oponentes distanciaram-se 25m e, ao se virarem, Galois recebeu o balaço fatal. Em nome da honra, uma grande perda para a ciência, pois Galois tinha apenas 20 anos de idade.
Semelhantemente, outro relato histórico é de um ateniense que foi até o chefe persa oferecendo a própria vida para pedir clemência a seus compatriotas presos. Quando quiseram forçá-lo a ajoelhar-se diante do chefe sátrapa, repeliu com altivez: "vim dar minha vida, não minha honra".
Se no passado já fora relativamente comum, aceito e a até valorizado o sacrifício extremo pela honra, homens e mulheres – palestrou Luc Ferry, filósofo francês e autor de obras bem vendidas – também deixaram muitas vezes a família em segundo plano, para arriscarem suas vidas por uma das três grandes causas: Deus, pátria ou ideologia.
Todavia, gigantescas transformações aconteceram, especialmente nos últimos 50 anos, e não apenas em relação às tecnologias, mas também aos costumes. Se de um lado o modelo tradicional e hierárquico – pai, mãe e filhos, correspondendo a 61% dos lares segundo o último Censo do IBGE em 2010 – é apenas uma das alternativas de construção familiar, mais do que nunca se valorizam os vínculos afetivos entre as pessoas que coabitam. Em uma palestra em Curitiba, Ferry foi enfático: "A família é a única entidade realmente sagrada na sociedade moderna, aquela pela qual todos nós aceitaríamos morrer, se preciso".
A família, em sua concepção contemporânea, continua sendo a base da ordem social e, segundo pesquisas internacionais, é o principal ingrediente de felicidade quando se confronta com poder, dinheiro, fama, política, ideologias, religião e honra. E vale o oposto, pois nada mais infelicita o ser humano do que pertencer a uma família desestruturada e uma convivência desarmoniosa ou conflituosa. Na vida, algumas negligências são até admissíveis, menos em relação à família, cujas consequências são, por vezes, irreparáveis. A vida profissional, apesar de suas elevadas exigências, pode muito bem ser ajustada a uma vida familiar equilibrada.
Em qualquer uma de suas configurações, à família é indispensável a presença do vínculo afetivo, da cooperação, do respeito, da solidariedade e de uma escala de valores compartilhada. Coabitar, morar juntos, é viver de fases de êxtases, alegrias, mas também de frustrações. Discordâncias são até salutares, mas uma relação familiar só será vitoriosa na medida do diálogo, da tolerância, das concessões mútuas. As maiores destruidoras de afetos em uma família são a indiferença e a falta de diálogo.Em uma de suas homilias de Páscoa, o Papa Francisco bem se manifesta ao discorrer que não existe família perfeita, mas sim um grupo de pessoas cheias de defeitos, e complementa: "sem o perdão, a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. O perdão é vital para a nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Nós não nascemos onde merecemos, mas onde necessitamos evoluir". Para Platão, a grandeza do ser humano está na virtude – aretê, em grego – e, como recompensa, é a prática das virtudes que propicia a felicidade genuína.
*Jacir J. Venturi é professor e diretor de escolas públicas e privadas por 50 anos, é pai de 3 filhos e avô de 3 netos, membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná e Cidadão Honorário de Curitiba.
O filme, gravado na casa da família do diretor, no Setor Sudoeste, em Goiânia, tem narrativa não-linear, com brigas, fantasmas e uma raiz que é desenterrada e enterrada novamente

