Romance de H. Martins é poético, lírico e não linear

Livro “Mais que Perfeito — Simples”, do escritor H. Martins, seduz pela prosa lírica e envolve o leitor em uma autobiografia narrada de forma não usual

Mariza Santana*
Especial para o Jornal Opção

Quem nunca ouviu falar das pin-ups? Trata-se de uma designação, em inglês, referente a uma mulher de medidas voluptuosas, geralmente modelo ou atriz, cujas imagens sensuais eram produzidas em grande escala, por meio de desenhos, pinturas e outras ilustrações. Essas imagens exerceram forte atrativo na cultura pop na primeira metade do século passado. E povoaram a imaginação de adolescentes e homens já maduros, por conter um certo grau de erotismo.

São justamente as pin-ups uma das principais referências do escritor H. Martins em seu livro, classificado de romance poético, denominado “Mais que Perfeito — Simples”. À primeira vista, o título da obra não é dos mais atrativos. Chama a atenção, contudo, o fato de o livro não ter nada escrito na sua orelha (uma inovação?) e também dispensar o tradicional prefácio, detalhes nada convencionais.

Sobre o escritor também pouco é informado. Somente que nasceu em 1963 (onde?), é poeta, romancista, advogado, ambientalista e consultor nas áreas de Direito Ambiental, Sustentabilidade e MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) para os setores público e privado. Parece uma boa apresentação, mas falta o local de nascimento de H. Martins para que se possa traçar um perfil sobre que tipo de brasileiro ele é, a partir de suas origens.

Esse fino véu de mistério, no entanto, não tira o brilhantismo da obra literária, pelo contrário. H. Martins sabe conquistar a atenção do leitor desde o início, ao contar sua trajetória sem revelar os nomes das cidades do interior brasileiro onde viveu, seja na casa dos pais ou nas passagens pela morada dos avós (com exceção de São Paulo e Paris).

A narrativa é lírica, nem sempre linear, por meio da qual vão sendo apresentadas figuras importantes da vida do então garoto, como os poemas e a literatura, suas pin-ups, um fusca e, futuramente, o curso de Direito e a carreira de advogado.

“Eu tinha um padrão secreto. Uma pin-up, uma Giselle ou uma Gilda. Conheci várias mulheres na busca de uma pin-up dali em diante”, conta o autor (ou o narrador) sobre a procura da parceira perfeita. Passam pelo livro (e pela vida do narrador) outras figuras femininas, mas a presença de Lígia impera em boa parte dos capítulos. Porém, somente no final o leitor saberá se o protagonista consegue ou não conquistar sua musa inspiradora, a mulher que, na primeira vez que a viu, logo a comparou como uma das pin-ups de seus sonhos mais secretos.

Outro trecho interessante do romance poético nos revela que, quando adolescente, o autor viveu em um Brasil dominado pela ditadura civil-militar (embora isso seja fácil de concluir, já que o escritor nasceu em 1963; quando a ditadura acabou, em 1985, ele tinha 22 anos). Na sua meninice a palavra “comunista” era proibida, e de certa forma demonizada, assim como seus símbolos — a foice e o martelo.

O mistério a respeito de uma palavra (comunista) faz o jovem procurar secretamente por livros proibidos naqueles anos de chumbo que se abateram sobre o País. Mais adiante, já cursando a Faculdade de Direito, ele será chamado de “comuna” pelo Seuwilson, devido a seu ativismo no movimento estudantil. Seuwilson (escrito desta forma mesmo) é um amigo que desempenha importante papel no desenrolar de sua vida e carreira profissional.

O descobrimento da sexualidade por parte de nosso personagem principal também apresenta momentos de puro lirismo, lembrando que se trata de garoto que estudou em colégio protestante, portanto sob rígidos conceitos morais. “Mais que Perfeito — Simples” é uma agradável surpresa, daqueles livros que você começa a ler sem muito compromisso e vai, aos poucos, sendo envolvido pela narrativa. Certamente, uma boa companhia em época de pandemia.

Mariza Santana*, crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

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