A loucura do autoengano

“Ninguém a outro ama, senão que ama o que de si há nele, ou é suposto. Nada fica de nada. Nada somos, senão cadáveres adiados que procriam”

Brasigóis Felício

Especial para o Jornal Opção

“Os erros do ser humano tornam-no digno de amor.” O problema é que os humanos erram demais, e ninguém é capaz de amar tanto, a quem nos engana, sufoca, ameaça, humilha e constrange. Pois só são capazes de tamanho e desesperado amor os cães e os anjos, e eu não sou um cão nem um anjo. E mesmo assim ao “Outro”, que nos fere, irrita, aporrinha e sacaneia, nos entregamos. Até porque também ferimos, enganamos, aporrinhamos e sacaneamos. E, no frigir da velha loucura humana, “o maior erro de todos seria jamais errar”. Enganadores enganados, sempre aos outros e a nós mesmos enganando, somos a habilidosa aranha a tecer, na teia de nossas relações, ardis e armadilhas com que possamos devorar o incauto que irá compor a dieta de nosso almoço ou jantar.

Falando sobre a miséria e a glória do autoengano, o economista-filósofo Eduardo Giannetti considera o labirinto de enganos “daquela que foi talvez a mais tenebrosa experiência de loucura coletiva até hoje vivida por uma comunidade humana — o nazismo alemão. Enquanto Hitler confidenciava a um colaborador íntimo o seu “especial prazer secreto de ver como as pessoas ao nosso redor não conseguem perceber o que está realmente acontecendo a elas”, o mefistofélico Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich, jactava-se de dedilhar a psique do povo alemão “como num piano”. Na selva selvagem da sobrevivência adotamos disfarces e colocamos máscaras — sociais, familiares, sexuais, amorosas.

Para Eduardo Giannetti, “a miséria do autoengano não se reduz ao que ele pode causar aos outros. Se o risco do enganador calculista é sua detecção de punição e o próprio, no caso do autoengano a vítima principal é com frequencia o próprio ator. Imagine um homem de certa idade, poeta, que olha pra trás, contempla sua vida como um todo e não se reconhece no que fez e no que foi: “Vivi, estudei, amei, e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje  por não ser eu. Fiz de mim o que não soube, e o que pude fazer não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi no espelho, já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado, deitei fora a máscara e dormi no vestiário, como um cão tolerado pela gerência, por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime”.

O caminho até aqui é nada, e deu em nada. Já não sou quem fui, não sei ser mais nada. “O poeta, é claro, pode estar enganado. Fingindo que é dor a dor que deveras sente. O passado amanhã é outro dia, dissipa-se na aurora a abissal melancolia, e da fonte caudalosa de outro engano pode jorrar uma nova elegia”, enfatiza Eduardo Giannetti. Se o poeta viveu de fato o que retrata, pouco importa: o importante é que o nervo tocado, este sim, inevitavelmente nos toca.

Eduardo Giannetti: economista-filósofo | Foto: Reprodução

Como profissional do sonhar acordado, a missão do poeta não é acreditar no que sente, mas fazer-nos acreditar que sentimos o que não sentimos. Ou sentimos? A literatura mostra e a vida confirma que experiências críticas em nossos percursos — uma doença grave, uma perda sentida, um grande desafio profissional, uma terapia profunda — podem nos levar a rever profundamente o valor e o sentido de nosso passado e as crenças que alimentamos sobre nós mesmos.

Nenhum ser humano pode descartar o risco de, na manhã cansada de um dia anêmico, descobrir-se repetindo para si mesmo o lamento do poeta: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz”. E no altar ateu do engano nosso de cada dia rezamos missas ímpias em genuflexo louvor ao holocausto de Deus, quando deveríamos tirar nossas máscaras sociais, e encarar, com medo, e maravilhados, a vertigem e a aventura de Viver.

No grande baile de máscaras da “vida em sociedade” somos palhaços trágicos, e não passamos de camaleões: e nossos risos sociais estão mais para arreganhos. De um modo ou de outro não fazemos mais do que enganar aos outros, enquanto a nos mesmos nos enganamos. Sem que pudéssemos exercer no dia a dia a antiga arte de sobrevivência do autoengano o animal humano seria “apenas uma besta sadia, cadáver adiado que procria”.

“Imagine um homem de certa idade que ganha a vida como funcionário subalterno de um pequeno escritório contábil. Observado de fora, na medíocre rotina de seu dia, ele é igual a todos e a ninguém: pó a caminho do pó, um animal de rebanho destinado a cumprir sem brilho o mínimo denominador comum de sua subsistência biológica, mas sob a membrana plácida de uma existência monótona e cinzenta esconde-se, porém, um homem subterrâneo — o viver secreto de alguém que desde pequeno, e sem razão aparente, alimenta com espantosa assiduidade fantasias selvagens de grandeza e criação literária.

O brilho dessa paixão consome a sua alma; o desejo de consumá-la torna-o cego para tudo o mais. Fiel a si mesmo e ao chamado avassalador que o impele rumo ao infinito da criação poética, ele se descuida do seu futuro prosaico. Não completa os estudos, não aprende um ofício, não faz carreira. Os anos se passam, alguns versos se imprimem, mas a fama e reconhecimento, em tempos de penúria cultural, quiçá na posteridade. Afinal chega um tempo em sua vida, como em qualquer trajetória humana, em que as certezas dessa longa intoxicação chamada juventude esmorecem.

O enxame da dúvida assalta o poeta: “Aproveitar o tempo! Mas o que é o tempo, que eu aproveite? Nenhum dia sem linhas…o trabalho honesto e superior. O trabalho à Virgílio, à Milton… mas é tão difícil ser honesto e superior! Meu coração está cansado como um mendigo verdadeiro. Meu cérebro está pronto como um fardo posto no canto. Meu canto (verbalismo) está como está e é triste. Aproveitar o tempo! Desde que comecei a escrever passaram-se cinco minutos. Aproveite-os ou não? Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?”. Este é o lamento — e o deslumbramento — do poeta Fernando Pessoa, quando tinha seu Eu verdadeiro revelado por Álvaro Campos.

“O que move um criador? O que sustenta e impele à frente alguém que se isola do mundo e dos prazeres mundanos para compor versos que ninguém lê e apostar no nulla dis sine linea virgilianos? A razão é fria e cruel: a probabilidade de aquele homem confuso de meia-idade, obscuro funcionário administrativo, revelar-se um novo Milton ou Virgílio é infinitesimalmente pequena. Tudo conspira para que o poetas entregue os pontos, para que reveja sóbria e friamente sua existência como um desperdício imperdoável – algo para ser renegado e jogado fora como um punhado de versos imprestáveis. E, no entanto, ele não cede. Ele dobra a aposta e se agarra no infinitesimal de uma possibilidade remota, como a um galho no precipício da sua vida.

Ele faz do absurdo de sua própria ambição inexplicável a matéria-prima de sua criação poética. Ele se mantém fiel à sua paixão juvenil com a tenacidade de uma ranha e o fervor de um recém-convertido. Com o passar dos anos, ele constrói anônimo a sua obra, pedra sobre pedra, duvidando e recomeçando sempre, sem aplausos, sem prêmios, sem assento em academia. Autoengano? Boa parte do tempo se perdeu e ele não foi Milton ou Virgílio. Mas se ele se abrisse para aquela verdade, se acreditasse nela em vez de derrotá-la num milhão de embates renovados, o que teria sido dele? Álvaro de Campos, é claro, o sonho heterônimo de um funcionário obscuro, teria cometido um suicídio irreal, anônimo e fortuito ainda moço. E o poeta que não era Milton nem Virgílio jamais teria sido Fernando Pessoa”.

Assim falou o poeta Fernando Pessoa, ele mesmo: “Somos estrangeiros, onde quer que estejamos. Somos estrangeiros onde quer que moremos. Façamos de nós mesmos o retiro onde esconder-nos tímidos do insulto do tumulto do mundo”. Em nosso quarto, em nosso país, no vasto mundo — seremos sempre estrangeiros na paisagem: ninguém nos retira do mutismo de ser-não sendo. E só quando sangramos conhecemos a piedade, e mergulhamos. Por que só quando bêbados conhecemos os mistérios da ternura? “Ninguém a outro ama, senão que ama o que de si há nele, ou é suposto. Nada fica de nada. Nada somos, senão cadáveres adiados que procriam”.

“Nascemos para o encontro com o Outro, e não para o seu domínio”, emendou Helio Pellegrino, marcando encontro com o destino: “O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mais vazias, na medida em que pretendamos ganhar o mundo. Feliz daquele que, ao meio dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do possível encontro com o Outro”. “Se tiver que ir, vai. O que fica para trás, não sendo mentira, não racha, não rompe, não cai. Ninguém tira. Já que vai, segue se depurando pelo trajeto, para desembarcar, passado a limpo, sem máscara, sem nada, sem nenhum desafeto.”

Brasigóis Felício, escritor e jornalista, é integrante da Academia Goiana de Letras e colaborador do Jornal Opção.

Uma resposta para “A loucura do autoengano”

  1. Grande Brasigóis. Seu texto vai contra “o tumulto do mundo”. Bravo!

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