Geraldo Dias da Cruz é um poeta que bebe em vários poços mas sem perder sua identidade

O bardo mineiro põe a emoção no centro de sua poesia, mas é capaz de torná-la contida, sem sentimentalismo

Juscelino Goulart de Oliveira

Especial para o Jornal Opção

Geraldo Dias da Cruz, mineiro de Belo Horizonte, tem 91 anos e é um poeta com vários méritos. Adepto dos versos livres, não faz uma poesia derramada, sentimental (sim, por vezes é sentimental) — ao menos no conjunto da obra.

O bardo do Estado de Carlos Drummond de Andrade tem voz própria, com uma dicção e ritmos precisos. Merece estudos mais amplos, não apenas de aficionados, e sim de estudiosos qualificados de poesia. Os cânones nacionais precisam incorporar novos poetas, como Gabriel Nascente, Brasigóis Felício, Salomão Sousa, Delermando Vieira, Carlos Willian Leite, Yêda Schmaltz e Geraldo Dias da Cruz.

Geraldo Dias da Cruz: poeta | Foto: Reprodução

Num de seus mais belos poemas, Geraldo Dias da Cruz assinala: “Assim falo, assim fico/ tão alegre que meu olhar brilha/ cresce em mim/ como eu cresço nele,/ cheio de ternura e de vida./Minha queima com sua língua/ os sinos de amanhecer.// Em plena noite, sozinho/ com as flores da fantasia,/ entro no meu jardim./Minhas lágrimas despertam/ os meus olhos fechados/ que se quebram no vento/ com a lua que chega/ e ninguém a recebe”.

Sob a pandemia do novo coronavírus, viajar se tornou praticamente impossível, ao menos em termos físicos. Mas quem segura uma alma viajante? Quem põe uma pedra no caminho dos que imaginam?

Geraldo Dias da Cruz, como o guerreiro-aventureiro Ulisses do longo poema “Odisseia”, nos ensina caminhar, sugerindo que o sonho é uma maneira de descobrir novas paragens — reais ou imaginária. Confira: “Desejo viajar, só não sei para onde./ Procuro um viajante para seguir./ Estou perdido entre o vento e a chuva,/ buscado um oceano para singrar/e um cais para aportar. Perseguindo/ o horizonte, veja que não há nenhum mar.// O jeito é deitar na relva e sonhar/com o canto que se afina com o céu./ Nele tudo se aflora e combina,/ minha alma se aninha e sonha/com uma estrela que explode/ e faz nascer uma orla e um mar.”

“Fontes do Vento” (Scortecci Editora, 158 páginas), de Geraldo Dias da Cruz, é um belo livro de poesia. Como situar sua criação artística no contexto da literatura brasileira? Basta sugerir que está mais para Drummond de Andrade do que para o estilo seco — “uma faca só lâmina” — de João Cabral de Melo Neto.

Mas sua poesia, com a emoção à flor da pele, mas contida pela perícia poética — um verso “abre” a emoção, mas outro verso “contém” o sentimentalismo —, tem identidade.

Noutras palavras, apesar de ter bebido em vários poços poética (há laivos até meio surrealistas), a poesia de Geraldo Dias da Cruz é dele mesmo.

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