Realpolitik
O tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil no dia 9 de julho parecia, à primeira vista, mais um capítulo do jogo duro e desonesto de negociações comerciais entre países. Mas, naquele dia, uma aposta contra o Real no mercado de câmbio para que pairasse uma suspeita de crime de uso de informações privilegiadas. Antes mesmo que o presidente norte-americano viesse a público anunciar a sobretaxa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, operações bilionárias em dólar já estavam sendo executadas. As 13h30, cerca de US$ 3 a US$ 4 bilhões de dólares, algo entorno de R$ 6,6 bilhões foram movimentados em contratos cambiais. Quando Trump fez o anúncio oficial às 16h17, a cotação disparou. Minutos depois, os mesmos agentes venderam os dólares comprados horas antes com lucro de até 50%. Não foi sorte, nem faro de mercado. Foi, ao que tudo indica, crime financeiro — e, como de costume, praticado com o requinte de quem tem amigos poderosos e informação privilegiada.
A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a Polícia Federal e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para investigar o caso. O Supremo Tribunal Federal (STF) já autorizou a abertura de inquérito, que se junta à apuração anterior sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro junto a parlamentares republicanos nos EUA. O que se desenha é um esquema de tráfico de influência e de uso de informação privilegiada que fez alguém ou algumas pessoas a lucrarem muito com o tarifaço de Trump.
Trump justificou o tarifaço com o velho discurso da “injustiça comercial”. Reclamou que os Estados Unidos estavam sendo prejudicados por tarifas brasileiras mais altas sobre alguns produtos, como o etanol. Mas o argumento não se sustenta. Os EUA fecharam 2024 com superávit comercial em relação ao Brasil, e a retaliação tarifária veio não por desequilíbrio econômico, mas como instrumento de pressão política. A reação global não tardou. A revista The Economist classificou a medida como “uma das maiores interferências dos Estados Unidos na América Latina desde a Guerra Fria”. No editorial, a publicação afirmou que o tarifaço era um ataque direto à soberania econômica brasileira e alertou para os riscos de um precedente diplomático perigoso, em que interesses eleitorais nos Estados Unidos se sobrepõem a décadas de alianças comerciais.
No próprio país, liderado por Trump, a medida provocou indignação. Um grupo de senadores democratas enviou uma carta oficial ao Comitê de Relações Exteriores do Senado acusando Trump de “claro abuso de poder”. O documento denuncia que o ex-presidente utilizou medidas tarifárias como arma de vingança pessoal contra decisões do STF e como tentativa de influenciar diretamente a política interna de um país soberano. Mais que um problema comercial, o tarifaço virou um problema institucional de grandes proporções, com ecos que já atingem a política externa norte-americana.
No Brasil, o impacto foi imediato e com muitas incertezas. Exportadores de autopeças, aeronaves, metais e produtos agrícolas se viram com contratos ameaçados do dia pra noite. Investimentos congelados, cadeias produtivas ameaçadas e ameaças de demissões em seguimentos do agronegócio. Tudo isso embalado pela constatação de que enquanto o povo brasileiro pagava mais caro por tudo, um punhado de gente — provavelmente com bons contatos em Brasília e em Washington — fez fortuna da noite pro dia.
Não bastasse o caos cambial, o escândalo expõe mais uma vez como o mercado financeiro, em vez de ser um espaço de estabilidade e previsibilidade, virou cassino para poucos. Quando a política serve de pista de corrida para especuladores com informação privilegiada, a democracia entra em xeque. O episódio se assemelha ao famoso “Joesley Day”, quando delações da JBS foram usadas para lucrar com a oscilação do dólar. Mas agora, a escala é internacional e muito mais perversa.
Trump usou o Brasil como peão no seu tabuleiro político. Disfarçou uma medida eleitoral como ajuste comercial, e a transformou numa manobra geopolítica para sabotar instituições brasileiras e agradar aliados internos — inclusive figuras como Eduardo Bolsonaro, que apareciam em reuniões com a extrema-direita dos Estados Unidos em plena crise. É um nível de cinismo que beira o terrorismo econômico.
E o que o Brasil vai fazer? Não dá pra reagir com nota de repúdio. É hora de acionar a OMC, exigir reparações, endurecer os mecanismos de controle da CVM e colocar em pauta uma CPI de verdade, com nome, sobrenome e exposição pública de quem lucrou com a instabilidade. Porque se o país permitir que uma retaliação política de um ex-presidente estrangeiro vire base para especulação bilionária com apoio interno, então já não estamos lidando apenas com crise cambial. Estamos falando de sabotagem institucional combinada com crime financeiro, com requintes de crueldade e maquiagem legal.
Enquanto isso, o cidadão comum — que não comprou dólar às 13h30, que não tem amigo na embaixada, que não janta com lobista — vê os preços subirem, os empregos sumirem e o país afundar em silêncio. A lição é velha, mas precisa ser repetida: o problema nunca é o mercado. O problema é quem acha que pode manipulá-lo com impunidade.
A partir da abertura de inquérito para investigar a movimentação financeira, a CVM vai questionar todas as instituições financeiras para ver qual a origem da movimentação. Existe uma possibilidade que a movimentação desse montante pode ter sido várias transações feitas ao mesmo tempo por robôs, o que é comum para a gestão de grandes investimentos. O grande problema foi o alto valor negociado e tampo o momento em que isso ocorreu.
O que chamou a atenção é que o mesmo movimento aconteceu também com as moedas da África do Sul, México, Canadá e também com o Euro na véspera do anúncio das tarifas. Isso deixa muito claro que tem alguém recebendo ou repassado informações privilegiadas de dentro da Casa Branca para faturar criminosamente no mercado de câmbio.
O tarifaço de Trump, portanto, não é um episódio isolado, mas parte de uma engrenagem mais ampla de autoritarismo econômico travestido de política comercial. É também um reflexo do vácuo que vive a oposição brasileira que se instaura quando figuras públicas brasileiras preferem servir de extensão ideológica de governos estrangeiros a defender os interesses nacionais. Permitir que esse tipo de chantagem vire precedente é abrir as portas para que, no futuro, qualquer país poderoso possa impor sanções como ferramenta de dominação política e manipulação de mercados.
Na virada dos anos 80 para 90, no século passado mesmo, ou seja, ontem, o Brasil vivia uma pujança de identidades onde liberdades se construíam na identidade da juventude. Ao mesmo tempo também se formavam concentos e pré-conceitos de todos os tipos. Na virada da década, com o fim da ditadura militar, a sociedade vivia uma transformação na sua rotina diária e a expectativa de uma renovação nos rumos do país. O brasileiro enquanto sociedade sempre olhou mais para fora do que para dentro. A influência dos Estados Unidos no Brasil sempre foi algo bem presente a partir da Segunda Guerra Mundial (ante disso a França dominava o idealismo da alta sociedade).
Durante a Segunda Guerra, os EUA estavam preocupados com a aproximação de países latino-americanos com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Para evitar isso, o governo Roosevelt lançou a Política da Boa Vizinhança. Hollywood começou a mostrar o Brasil de forma exótica, simpática e então surge personagens como Zé Carioca, criado pela Disney.
No pós-guerra (anos 1950), o Brasil se urbaniza rapidamente e cresce o consumo de bens culturais americanos. Chegam com força o cinema de Hollywood, as músicas jazz e rock, os refrigerantes. O inglês se torna uma referência e uma aspiração principalmente para os jovens da elite.
Durante a ditadura militar (1964–1985), o Brasil se alinha aos EUA no contexto da Guerra Fria. Isso ampliou ainda mais a influência cultural. O EUA deram apoio técnico e econômico aos militares no contexto da Guerra-Fria. No dia 1º de abril de 1964 uma ordem sigilosa dos chefes do Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos deu início ao maior deslocamento de unidades de combate até então realizado no Atlântico Sul. Era a “Operação Brother Sam”, que consistiu no envio de uma força-tarefa naval com destino ao litoral brasileiro em apoio ao levante dos quartéis que derrubou o presidente João Goulart com um golpe de Estado. Com a vitória rápida dos golpistas, a força-tarefa não chegou a entrar em ação em águas territoriais brasileiras. Teve sua rota cancelada no final da tarde de 3 de abril de 1964. A história da Operação Brother Sam permaneceu em segredo durante 13 anos. Só foi contada em 1977.
Nos anos 1990, após a queda da União Soviética, o poder de globalização dos Estados Unidos se consolidou com franquias de TV, moda e a internet quera dominada por empresas estadunidenses.
Durante esse todo esse período, para boa parte dos brasileiro, tudo que era bom era de fora, ou melhor, tudo que era bom, descolado e inovador vinha dos Estados Unidos. Virou o idealismo; o mesmo deslumbre que nos anos 20 havia com Paris e a identidade francesa na sociedade brasileira, que na época tinha a Europa como modelo.
A elite brasileira sempre esteve longe de casa, se encheu e contaminou o meio com o que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-lata, após a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. O esse complexo de inferioridade já chegou até à Presidência da República quando o chefe do Executivo bateu continência para a bandeira dos Estados Unidos.
O ex-presidente Jair Bolsonaro e o bolsonarismo vive de um idealismo utópico apelando para que os Estados Unidos atue, tal qual atuou financiando ditaduras e guerras. O então presidente que era o patriota agora revela sua face antibrasil e antibrasileiro. A conjuntura política dos últimos anos tem exposto, de forma inegável, os riscos relacionados à ambição desenfreada de líderes que não medem esforços para subverter os fundamentos da soberania e da democracia. Em meio a investigações que apontam para a tentativa de golpe e a utilização de manobras obscuras, a figura de Jair Bolsonaro emerge como um retrato das mazelas de um sistema que privilegia o poder a qualquer custo.
O que os pretensos candidatos a presidência farão a partir de agora. Já há empresários que querem distância do ex-presidente, porque a família está rifando o Brasil em nome de interesses pessoais. Isso porque doeu no bolso e quando doi na conta não tem quem que compre uma ideia maluca de articular com o presidente dos Estados Unidos para boicotar a indústria brasileira. Bolsonaro protagoniza uma verdadeira tragédia política – uma rifa organizada pela própria família para escapar das consequências judiciais, que se encaixa no mesmo repertório de estratégias utilizadas pelo magnata republicano norte-americano.
Ao traçar paralelos com a trajetória política de Donald Trump, fica claro que há uma convergência preocupante de estratégias e ideologias. Ambos os líderes utilizaram de artifícios que reforçam o culto à personalidade, a disseminação de informações tendenciosas e, sobretudo, a instrumentalização do poder para fins escusos. Enquanto Trump alimentava uma retórica de "América em primeiro lugar", que culminava em políticas protecionistas e xenófobas, Bolsonaro – em sua vertente autoritária – aposta em discursos que desvalorizam a importância da soberania estatal e da integridade das instituições democráticas. Essa afinidade, que embora aparente, traduz-se na materialização de medidas que efetivamente atacam os pilares do Estado Democrático de Direito
Mas o drama político não se restringe apenas às fronteiras brasileiras. A influência da cultura política norte-americana, promovida e celebrada por figuras como Trump, encontrou terreno fértil em Bolsonaro. Essa simbiose é particularmente perigosa, porque transcende as barreiras de um mero campo eleitoral, se estabelece no âmago de uma ideologia que valoriza o autoritarismo, a rejeição à pluralidade e o desprezo pelas instituições democráticas.
Toda essa postura, ressentimento, ódio, interesses particulares foi o que colocou uma tornozeleira em Bolsonaro e levou bolsonarista, que adotaram políticos de estimação, para a prisão condenados a mais de 15 anos. Hoje a extrema-direita vive de ressentimento. Antes já não havia argumento com embasamento, porque para os militantes é tudo sobre como a vida deles é difícil, como o rico tem que ficar mais rico e sobre como o clã Bolsonaro precisa ser protegido.
Jair Bolsonaro e sua família demonstrou que para sempre ele será adepto a se colocar antes de tudo e todos e também se colocaram no papel de submissão, cujo o qual nenhum vira-lata se colocaria. Farinha pouca meu pirão primeiro. Para ficar mais adequado aos padrões de classe dos Bolsonaro, Brasil acima de tudo, mas meu pato ao vinho primeiro.
A decisão de Trump revela o uso de instrumentos de comércio exterior como mecanismo de chantagem política, com o objetivo de pressionar o governo brasileiro a recuar em seus processos legais contra Bolsonaro
Bolsonaro estaria articulando um plano ambicioso para as eleições de 2026: conquistar a maioria no Congresso Nacional em 2027 capaz de confrontar STF
Lula chega neste terceiro governo com bases muito frágeis e o que acontece ao longo desses anos, principalmente depois do Lula ganhar as eleições de 2002, o PT para de trabalhar as militâncias e substitui paulatinamente o militante pelo eleitor
Por trás de quem causou destruição, ou mesmo quem foi levado pela emoção e pichou a estátua da Justiça com um batom, estão os financiadores de uma - já classificada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - organização criminosa
A vaga de vice para as próximas eleições torna-se mais importante do que a vaga que será ocupada por Vilela. Com a renúncia de Caiado, para possível disputa à Presidência da República, em 2026 Vilela já irá disputar a reeleição e não poderá concorrer ao governo em 2030
Mesmo com uma pauta de imenso apelo popular, o Congresso Nacional vai e vem no tema de forma tímida e muito cautelosa, por causa do forte lobby das grandes forças produtivas do país
As relações políticas entre os poderes Executivo e Legislativo sempre foram o ponto nevrálgico de tensão política, fisiologismo e também de improdutividade
Tarcísio, o pretenso candidato a presidente, não resolve os problemas de São Paulo, o estado mais rico do Brasil, por pressão política e interesses duvidosos. Ele pode até querer, mas para sustentar seu "grupo político" não tem força política para provocar a mudança
Até o final do mandato a Prefeitura precisa criar mecanismos de proteção desses valores e garantir a prestação de serviços, porque gestores vêm e vão e o compromisso do atual prefeito pode não ser o do próximo
Entre os brasileiros religiosos, os evangélicos se destacam como os que mais frequentam cultos e contribuem financeiramente com suas igrejas; pesquisa do Datafolha revela que 89% dos evangélicos pentecostais realizam doações financeiras à igreja de forma regular, superando os espíritas (44%), os católicos (75%) e os umbandistas (58%)
O Congresso Nacional é conservador e já ficou claro de que ele não representa o povo, apenas seus interesses próprios. Fato que comprova isso é o quanto o governo tem tido dificuldade de governar desde que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou, em 2023.
Às custas de muitas concessões o governo, até o momento conseguiu aprovar todos os projetos que enviou para o legislativo, as exceções ficam são algumas medidas provisórias entre elas a mais discutida que é sobre a desoneração das folhas de pagamentos das prefeituras. Todos, com consciência e o mínimo de senso crítico, sabem que o governo anterior deixou um rombo gigantesco, para além dos gastos com a pandemia de COVID-19, que foi gasto contra a vontade do ex-presidente.
Para tentar financiar a eleição, o governo do ex-presidente enviou para o Congresso, e foi aprovado a limitação da cobrança do ICMS dos combustíveis em 17%, gerando um impacto negativo imenso nos cofres dos governos estaduais fazendo com que o governo tivesse que ressarcir as unidades da federação.
O governo anterior foi embora, mas muita gente dele e seus seguidores radicais ficaram dentro do Congresso. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) sabia que a sua sede por poder e controle do orçamento seria mais difícil, mas ele não deu o braço a torcer e não quer ser apenas um ex-presidente da Câmara Federal, esquecido. Ele quer manter a sua influência sobre o que a Casa pauta, vota e como vota.
Existe apenas uma coisa que controla o infeliz presidente com pose de primeiro ministro do país, a opinião pública. Ficou claro depois de dois episódios que colocaram o povo para bater de frente com deputados, senadores e com Lira. Primeiro foi a PEC de privatização das praias a pauta caiu após polêmica que veio a tona com uma briga entre a atriz Luana Piovani e o jogador cai cai, Neymar Jr.
O episódio foi a votação da urgência do projeto de lei que iguala a prática do aborto legal após 22 semana ao homicídio simples com pena prevista para mulher que abortar maior do que a pena para quem a estuprou. O texto ficou conhecido como PL do estuprador. Após uma série de absurdos vomitados durante quase duas semanas, Lira recuou e deixou a apreciação do texto para o final do ano, porque um conflito com a opinião pública em pleno período de eleições municipais dificultaria o trabalho dos parlamentares em suas bases eleitorais.
Tudo isso Lira está fazendo para conseguir emplacar seu sucessor na eleição para a presidência da Câmara em fevereiro do ano que vem. Lira não se preocupa com políticas públicas, com o bem estar da sociedade e da mulher. Enquanto ele deixa a bancada evangélica de molho aguardando a votação da PL do estuprador para o final do ano, ele vai afagar os partidos políticos.
Lira deve colocar em apreciação dos deputados a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que anistia os partidos políticos. O texto prevê que nenhuma punição seja aplicada a partidos políticos que descumpriram regras eleitorais sobre as cotas de gênero e racial, por exemplo. Sobre esse assunto a maioria dos partidos vota junto. Direita se junta à extrema-direita com o centrão e a esquerda e deve ser aprovada com facilidade
O problema é que esse tema não tem a capacidade de mobilizar a opinião pública como foi com o PL do estuprador e a PEC das praias. A anistia aos partidos é grande perda para busca de igualdade da disputa eleitoral entre homens e mulheres e tornar o Congresso mais diverso tal qual a nossa sociedade. É por conta de um parlamento formado pela grande maioria de homens, homens e mulheres brancos que a sociedade deixa de ser representada.
Acima de tudo a sociedade precisa votar melhor, acompanhar e cobrar seus os deputados do seu estado, dos deputados estaduais que representam a sua região e os vereadores.
Ao eleitor, o que importa é a prestação de serviços. Enquanto se discute cargos, e meramente cargos, os vereadores se apequenam na verdadeira política
A democracia tem de ser vista como um valor universal. O que se deve é radicalizá-la, no sentido de criar uma sociedade mais igualitária, mas não questioná-la

