Imprensa
Cozinha do Pop — A “Folha de S. Paulo” vende junto com o jornal, por preços abaixo dos praticados no mercado, livros, CDs e DVDs de qualidade. Há CDs de música erudita, jazz, popular brasileira. Há DVS de filmes clássicos. Há livros sobre literatura, fotografia e guerras. O “Pop” brinda seus leitores com panelas. Não, você não leu errado. O jornal goiano quer mandar você para a cozinha.
Está chegando às livrarias, pela Alameda Editorial, o livro “A Casa da Vovó — Uma Biografia do DOI-Codi (1969-1991): O Centro de Sequestro, Tortura e Morte da Ditadura Militar”, do jornalista Marcelo Godoy, de “O Estado de S. Paulo”. O jornalista pesquisou durante vários anos. “Casa da Vovó” era como policiais chamavam o DOI-Codi.
Os jornalistas Bruno Paes Manso — blogueiro — e Alfredo Ribeiro (foto ao lado), criador do Tutty Vasques, foram demitidos pelo “Estadão”. A empresa alegou contenção de despesas. Tutty Vasques, com seu humor ferino, era quase um José Simão de “O Estado de S. Paulo”. Mas, ao ler suas diatribes, os leitores certamente se perguntavam: “Será um ponto contraditório no sisudo ‘Estadão’?” Era. Não é mais. Paes Manso é um dos repórteres mais qualificados da imprensa patropi.
Alfredo Ribeiro reagiu com relativo bom humor: “Sete anos e três meses de uma relação que parecia improvável e enquanto durou foi marcada por profissionalismo e delicadeza, convenhamos, não é para acabar mal. O Tutty está deixando o Estadão sem broncas! No fundo, no fundo – cá pra nós! – gostaria até de estar saindo censurado para pegar metade das mulheres do Xico Sá. Por outro lado, se eu contar por aí que dancei por questões de “gestão” ou de “orçamento”, francamente, não arrumo um mísero colo pra chorar. Espalhem, por favor, que foi eterno enquanto durou. Amei trabalhar com vocês!”
A jornalista Eliane Cantanhêde foi contratada como colunista para o jornal impresso e como comentarista para a Rádio Estadão.
Assim como não percebeu que o governador Marconi Perillo era o favorito para a disputa eleitoral em 2014, o “Pop” faz questão de explicitar que apoia Helio de Sousa (DEM) para presidente da Assembleia Legislativa e, por isso, planta notas, na coluna “Giro”, sugerindo que o verdadeiro favorito, Chiquinho Oliveira, praticamente desistiu da disputa. Na verdade, ao contrário do que desinforma o “Pop”, não se sabe por quais interesses, Chiquinho Oliveira não parou um minuto de articular. Ele articula muito mais do que Helio “À Espera de um Milagre” de Sousa.
O apresentador e editor-chefe do "Jornal Nacional", William Bonner, voltou ao ar na quinta-feira, 4. O objetivo de antecipar seu retorno talvez tenha a ver com a onda de boatos espalhada nas redes sociais, que dava conta de que havia saído da TV Globo, ou ao menos do "JN". Na verdade, William Bonner estava doente, com faringite e conjuntivite. Tanto que, na volta, estava meio rouco.
Durante anos, Cid Moreira foi a voz do “Jornal Nacional”. Aposentado, foi esquecido pelo público. Depois, William Bonner se tornou (aliás, é) o símbolo do principal telejornal da TV Globo. Tanto que, quando folga ou sai de férias, o “JN” não parece o mesmo. Perde parte de sua agilidade, de sua firmeza e fica mais formal. Agora, com faringite e conjuntivite, teve se de afastar da bancada.
Nas redes sociais, William Bonner, que está em sua casa, comentou: “Faringite: quarto dia. Conjuntivite: primeiro dia”. Ele volta assim que melhorar.
Na terça-feira, 2, Renata Vasconcellos e Heraldo Pereira apresentaram o “JN”. Os dois são muito bons, mas Heraldo Pereira, secão, parece tão formal quanto um diplomata na decisão sobre uma guerra mundial. É tenso. Mas é um jornalista do primeiro time. Renata Vasconcelos aos poucos está se descontraindo. Mas, insistamos, William Bonner faz falta, muita falta. Ele é o Sr. “Jornal Nacional”.
Bons repórteres e colunistas não ficam desempregados por muito tempo. Demitida pela “Folha de S. Paulo”, que alegou contenção de despesa, Eliane Cantanhêde foi contratada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, principal concorrente da “Folha” na mais rica unidade da federação. Não resta dúvida: é uma grande contratação.
Eliane Cantanhêde começa a escrever no “Estadão” a partir de 11 de janeiro de 2015, num domingo. A jornalista, segundo o Portal Imprensa (http://www.portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/69712/apos+ser+demitida+da+folha+eliane+cantanhede+e+a+nova+colunista+do+estadao), vai fazer comentários políticos no jornal e na Rádio Estadão.
Uma das mais categorizadas comentaristas políticas do País, Eliane Cantanhêde permanece na equipe de jornalistas do Globo News. No início, começou tímida, até titubeante, mas rapidamente assenhorou-se do novo meio e é uma das qualificadas comentaristas do canal da Globo, ao lado de Renata lo Prete. As duas, aliás, são muito superiores a Merval Pereira.
Na quarta-feira, 3, os sites da internet disputaram a primazia de revelar que a bela atriz Mariana Ximenes, da TV Globo, depois de um ano e meio sem namorado fixo, encontrou um novo amor ou affair. Alguns sites, apesar de interessadíssimos, revelaram a história, mas não quem é o felizardo. Coube ao UOL revelar o nome do jovem.
Trata-se de Filippo Cattaneo Adorno (foto acima), de 36 anos. Segundo o UOL, ele é formado pela Universidade Columbia, de Nova York, e é “diretor de uma grande empresa imobiliária de São Paulo”.
Mariana Ximenes, de 33 anos, conta que aprecia relacionamentos de longa duração, sólidos. O UOL diz ter apurado que os jovens estão junto “há cerca de dois meses”.
À revista “Nova”, Mariana Ximenes confidenciou: “No momento, estou tendo um ‘bom encontro’ com alguém especial. Fiquei um ano e meio solteira e aproveitei bem a fase — não tão bem a ponto de experimentar o Tinder, por exemplo, mas curti esse período”. Nenhum repórter ousou inquiri-la sobre o que significa a frase “aproveitei bem a fase”. Já “bom encontro” possivelmente é má redação do repórter da “Nova”.
Na entrevista à revista, a atriz conta que é adepta de relacionamentos sérios. “Eu me entrego. Se está rolando gostoso, por que não se comprometer? Sou romântica, à moda antiga, a gentileza me seduz. Acredito no amor, na união”.
Afinal, o mundo mudou pelo fato de o UOL ter descoberto, e outros sites não, o nome do novo namorado de Mariana Ximenes? Não mudou nada, é claro. Mas editores de sites e jornais sabem que este tipo de leitura atrai e rende audiência. É o que explica a caçada febril pelo jovem que conquistou o coração da atriz.
Meu pai, Raul Belém, morreu há três anos, aos 74 anos. Mesmo assim, Wolney Unes, editor da coluna “Outra do Português”, publicou carta de sua autoria na edição de segunda-feira, 1º, do “Pop”. Nada contra, dadas a seriedade e a competência de Unes, mas fica o lembrete.
A revista “People” fez pior do que o “Pop”.
O ator Kirk Douglas está vivíssimo — aos 98 anos. Quase um século. Várias publicações costumam encomendar aos seus repórteres textos biográficos sobre pessoas conhecidas, deixando apenas um espaço para a notícia da morte (data, doença). Isto ocorre porque, quando a pessoa morre, não é preciso escrever um texto — sobretudo alentado — em cima da hora. Basta atualizá-lo ligeiramente, acrescentando informações básicas. A “People” não fica atrás e escreveu seu, digamos, obituário do ator de “Spartacus”, filme de Stanley Kubrick. No domingo, não se sabe por quê, a reportagem saiu no site da revista. O texto tinha o seguinte título “Não publicar Morre Kirk Douglas” e ficou no ar durante alguns minutos. “Kirk Douglas, um dos poucos nomes que genuinamente atraíam bilheteria ao cinema enquanto a TV dominava a América logo após a Segunda Guerra Mundial, morreu em TK TK TK”, “informava” o site, sem informar a “data”.
É a segunda vez que a “People” decreta a “morte” de um ator. Em 1982 a revista “matou” Abe Vigoda”. O ator está vivo.
[Rogério Ceni, de 41 anos: o maior goleiro da história do São Paulo. Foto do site do time]
Léo Dias, colunista do jornal “O Dia”, publica nota com o título de “Goleiro Rogério Ceni se separa depois de assumir filho fora do casamento”. O repórter é especialista em “furos”, mas o texto provoca certa estranheza.
Primeiro, se a separação ocorreu em agosto, o título é justificável? É, no caso de a separação ter sido mantida em segredo. Léo Dias frisa que a “ex-mulher” e as filhas gêmeas Beatriz e Clara continuam morando no Morumbi, mas o goleiro do São Paulo mudou-se para o flat George V, em Pinheiros.
Segundo, Léo Dias afirma: “A coluna descobriu que assumir o menino não estava nos planos do jogador, mas a jornalista do ‘Estadão’ tomou conhecimento do filho fora do casamento e seus assessores no time acharam melhor que ele assumisse a paternidade do menino. Mas a história ficou contada pela metade...”. Se o menino tem 2 anos, como publicou a imprensa, é mesmo estranho se tiver sido registrado agora. Mas a história de Rogério Ceni — jogador diferenciado, com fama de ético na vida pessoal e profissional — justifica que a história seja mais bem explicada. É difícil acreditar que o jogador tenha aceitado assumir a paternidade tão-somente devido a uma reportagem de jornal.
A assessoria de imprensa do São Paulo disse a Léo Dias que “Rogério Ceni não fala sobre sua vida pessoal”. No caso, comete um equívoco, porque o privado e o público se misturaram e os únicos que podem esclarecer a história são Rogério Ceni e a mãe de Henrique. A história pode ficar “contada pela metade?” Léo Dias insinua: “Dizem que, após assumir a criança, que tem apenas 2 aninhos, Ceni teria voltado a se relacionar com a mãe de Henrique”.
Pode ser que eu esteja enganado, mas tenho a impressão de que parte da mídia — e não estou me referindo a Léo Dias — tem certa má vontade com Rogério Ceni e, em menor escala, com Raí.
O mais estranho é verificar o comportamento da imprensa. O moralismo com o qual Rogério Ceni está sendo tratado lembra, e não vagamente, os “valores” da Tradição, Família e Propriedade (TFP).
[Kátia Militello, diretora da "Info": "Audiência no online é muito maior". Foto da revista]
O diretor-superintendente da unidade Notícias e Negócios da Editora Abril, Rogério Gabriel Comprido, anuncia que a versão imprensa da “Info” deixa de circular em fevereiro do próximo ano. A revista será mantida na internet (site, tablets e smartphones). “Estamos apostando em um movimento pioneiro, muito coerente com a proposta da revista. Além disso, abrem-se ótimas oportunidades para nossos anunciantes.”
O diretor de redação da revista “Exame”, André Lahoz, complementa: “Ser uma publicação 100% digital é absolutamente adequado para esse título”. A diretora de redação da “Info” e do portal Exam.com, Kátia Militello, acrescenta: “Fomos a primeira revista da Editora Abril a chegar ao smarthphone e a primeira a atualizar o conteúdo da edição do mês nos tablets. O digital é um caminho cheio de possibilidades”.
O presidente da Abril Mídia, Fábio Barbosa, disse que a empresa pretende “equilibrar receitas e despesas e abrir frentes de inovação nas plataformas digitais, sem negligenciar as fontes de receitas tradicionais”. A equipe da “Info”, a da internet, será menor do que a da versão impressa.
[Fonte das informações: site Comunique-se. http://portal.comunique-se.com.br/index.php/sub-destaque-home/75814-editora-abril-anuncia-fim-da-versao-impressa-da-info)
Francisco Kleber Paes Landim
Inegavelmente, “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tio Maia”, livro do Nelsinho Motta, é uma delícia, repleto de histórias fabulosas desse irrequieto, talentosíssimo e visceral personagem da música popular brasileira. Mas quero registrar que a grande obra sobre o músico, cantor e compositor na verdade foi escrita anteriormente pelo seu grande amigo e cantor Fábio, o “paraguaio”: “Até Parece que Foi Sonho – Meus Trinta Anos de Amizade e Trabalho com Tim Maia". Vale a pena a leitura. (Confira Tim e Fábio na televisão: https://www.youtube.com/watch?v=HBatSgAcE4I)
O Nelsinho Motta abeberou-se de várias das suculentas histórias do Tim do livro do Fábio. No recente e maravilhoso longa “Tim Maia”, Fábio é personificado na tela pelo ator Cauã Raymond, narrador e figura central da história do gordoidão. Fábio conheceu Tim na antiga boate Cave, em 1966, ambos na casa dos 20 anos. O paraguaio acolheu Tim de mala e cuia em seu apartamento no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro. Foi lá, com o violão emprestado em punho, que Tim compôs e mostrou ao amigo a música “Azul da Cor do Mar” (https://www.youtube.com/watch?v=Htv6bEsEdHk). Depois disso, viraram parceiros inseparáveis, de farras, loucuras e muitas composições.
Há uma história do Fábio sobre Tim que é sensacional. Depois de uma festa, em que os mesmos cantaram juntos, foram comemorar no Chico’s Bar, no bairro da Lagoa. Fábio foi acompanhado de sua namorada na época e ela tinha uma amiga chamada Laís, uma menina da "high society" do Rio, que foi junto. E Tim se encantou com Laís. Ela ficou excitada, começou a dar uma bolinha para ele. E, nisso, Tim bebendo uma garrafa de uísque, cada vez mais “alto”. Lá pelas tantas, Fábio foi embora com a namorada, e Tim resolveu ficar lá com a Laís. Daí, às 6h da manhã, o dono do Chico’s Bar, o espanhol, liga pro Fábio: “Vem aqui buscar seu amigo, pô!”. “Mas o que aconteceu?”, perguntou Fábio. “Ele está aqui dormindo com a namorada debaixo da mesa! Pelo amor de Deus, não estamos conseguindo fechar.”
Tim Maia realmente merece todos os registros.
Provando que o “profano” pode ser mais produtivo para um artista, o músico, cantor e compositor reconstruiu a carreira ao abandonar a ideia de que, “imunizado”, seria resgatado por discos voadores e pela turma do Universo em desencanto. Ele era anárquivo e criativo
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Reprodução/ Rede Globo[/caption]
A ditadura civil-militar instalada em 1964 plantou no inconsciente coletivo dos brasileiros o sentimento de que autoridade e autoritarismo são a mesma coisa. O em geral equilibrado “Profissão Repórter”, da TV Globo, ao mostrar como funcionam as escolas militares de Goiás, pode ter reproduzido o equívoco. Paradoxalmente, as escolas foram mais uma vítima da ditadura.
Nas escolas militares, há uma disciplina férrea? É provável que a palavra “férrea” deva ser retirada, pois o que há, e falta em muitos lugares, é disciplina — sem adjetivos. Apresentado por um dos mais categorizados repórteres patropis, Caco Barcellos, o “Profissão Repórter” pode ter incorrido a erro ao informar, baseado em depoimentos suspeitos, que nas escolas militares os professores de história são proibidos de falar em “ditadura militar” e são obrigados a nominar o “golpe de Estado” de 1964 de “revolução”. O depoimento de alunos e ex-alunos, explicitado na reportagem “Profissão Repórter sobre colégios militares de Goiás é criticado nas redes sociais”, de Alexandre Parrode — mais preciso e justo do que o programa global e dando voz às pessoas que sabem das coisas que ocorrem lá —, indica que não há “censura” e “dirigismo” histórico-cultural.
ode ser que, algum dia, um militar comentou que, ao falar do período, seria “mais adequado” chamar o golpe de revolução? É possível, mas não há uma orientação educacional específica — uma espécie de “correção” — e os livros indicados para os colégios não distorcem os fatos. Embora, se apresentassem a nuance de que a esquerda chama o que aconteceu entre março e abril de 1964 de “golpe” e a direita denomina de “revolução”, os livros não estariam errados. Pelo contrário, estariam contemplando a contradição que existe na sociedade.
Outra questão merece registro. Se os colégios militares contribuem para alta aprovação nos vestibulares — se as notas de seus alunos são superiores às de muitos colégios, até particulares, no Enem —, é sinal de que os professores e diretores militares não estão distorcendo os livros e a história “oficial” (que é a cristalizada nos livros didáticos). Como não há nenhuma informação de que os alunos dos colégios militares estão sendo “reprovados” nas provas de história, nos vestibulares e no Enem, isto significa que estão aprendendo aquilo que se ensina nas salas de aula. Os livros de história e as provas dos exames são feitos, em regra, por pesquisadores mais afeitos ao pensamento das esquerdas. Neles, portanto, não há registro de que o golpe de 64 é apontado como revolução e, sublinhamos, não há informação de que alunos dos colégios militares estejam contestando as provas externas (vestibulares e Enem) e repetindo o que “aprenderam” nos supostos livros “dirigidos” ou em salas de aula. A turma de Cacos Barcellos nem mesmo percebeu a contradição do material que expôs.
O que concluir? Que na intenção de fazer jornalismo crítico, praxe no “Profissão Repórter”, a Globo equivocou-se. Mera bola fora de um programa muito bom e de um profissional, Caco Barcellos, que merece o respeito dos colegas e dos telespectadores.
E mais: talvez tenha chegado a hora de admitir que todos os males do Brasil não são resultado da ditadura iniciada em 1964 e extinta em 1985, com a transição para o regime civil. Todos os problemas do País — que tem mais de 500 anos, a se contar a partir da chegada dos portugueses — não foram gerados por 21 anos de ditadura.
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Biografia de Luís Carlos Prestes é excelente, pois se trata de uma grande análise da história do Brasil no século 20, mas pode ter exagerado ao se referir ao senador Totó Caiado[/caption]
Há uma biografia excelente na praça, um grande painel da história do Brasil no século 20. “Luís Carlos Prestes — Um Revolucionário Entre Dois Mundos” (Companhia das Letras, 536 páginas), de Daniel Aarão Reis, de 68 anos, professor da Universidade Federal Fluminense e doutor em História pela Universidade de São Paulo, é um livro excepcional, muito bem escrito e com rara fluência.
Ao fim da leitura, não se percebe que o líder comunista ficou maior, mas também não ficou menor. Sua grandeza, que por certo há, está devidamente assentada. Com virtudes e defeitos apontados, porém nuançados.
Em que pese seu equilíbrio e pesquisa rigorosa, incontestáveis, há uma citação ao senador Totó Caiado, avô do deputado federal e senador eleito por Goiás Ronaldo Caiado (DEM), que merece nuance e contraditório.
Na página 78, ao apresentar a história da Coluna Prestes, Daniel Aarão escreve: “Totó Caiado, grande senhor de terra de Goiás, inauguraria um padrão que mais tarde seria retomado, em larga escala, pelos senhores do Nordeste, e da Bahia em particular, com seus ‘batalhões patrióticos’: roubava e pilhava, vendendo depois o produto do saque em mercados legais e ilegais. O próprio Bertoldo Klinger escreveria relatórios denunciando o latifundiário e solicitando a dissolução de suas ‘tropas’”.
Referenciado como “grande senhor de terra” e “latifundiário”, Totó era senador e tinha influência na política de Goiás e nacional, o que não é mencionado pelo livro. Relatos da época, por amplos e oficiais que sejam, merecem contraste com outras fontes, tanto documentais quanto historiográficas. Tudo indica que a única fonte de Daniel Aarão são os “relatórios” de Bertoldo Klinger.
Historiador rigoroso, Daniel Aarão poderia ter ampliado sua pesquisa com uma consulta ao livro “Poder e Paixão — A saga dos Caiado” (Cânone Editorial, de 2009), de Lena Castello Branco. A doutora pela Universidade de São Paulo escreveu um estudo criterioso e alentado (nasceu clássico), nem pró nem contra, sobre a família Caiado. Assim como a biografia de Prestes, o que se pode dizer é que se trata de uma obra nuançada, que situa, com precisão, os personagens na sua época e mostrando, com mestria, que os conflitos políticos e pessoais do tempo em que viveram podem distorcê-los, para menos ou para mais. Não há registro cabal — não politizado; inclusive a imprensa se prestou ao papel de “combatente”, quer dizer, de agente parcial — de que Totó Caiado “roubava e pilhava”. As referências da pesquisa séria e não comprometida com os conflitos da época — Caiado versus Pedro Ludovico (pós-1930) — dão conta de que se tratava de um homem decente.
Na próxima edição, para recompor o equilíbrio histórico entre as “partes”, para que a história não se torne a hegemonia de uma delas, vale acrescentar a história devidamente ampliada por Lena Castello Branco. Com a distância de 90 anos, vale trocar a paixão pela razão, incorporando a versão de uma parte propositadamente esquecida e, com certa frequência, não respeitada. Um livro tão bom quanto o de Daniel Aarão não pode ficar, por uma falha mínima, “manco”.
Abílio Wolney, de Dianópolis, é citado nas páginas 92 e 99.

