O “Estadão” publicou na quinta-feira, 4, uma reportagem a respeito de duas pesquisas qualitatias, sob o título de “Genial/Quaest: Caso Vorcaro leva Flávio a crise de credibilidade e afugenta eleitor independente”. É de autoria da repórter Bianca Gomes. O levantamento é de maio.

A Quaest acompanha, “desde agosto” de 2025, um grupo de 20 eleitores independentes e registra a estabilidade ou mudança de opinião deles. Isto numa pesquisa. Na outra, “reúne cinco grupos focais das diferentes regiões” do país, “com o mesmo perfil”.

De acordo com os dois estudos, no registro de “O Estado de S. Paulo”, “as revelações sobre o financiamento do filme ‘Dark Horse’ por Daniel Vorcaro afastaram eleitores independentes que vinham se aproximando de Flávio Bolsonaro e os levaram novamente para mais perto de Lula. O movimento foi reforçado pela boa repercussão de iniciativas recentes do governo federal”.

Flávio Bolsonaro perde credibilidade

Alguns eleitores planejavam votar em Flávio Bolsonaro com o objetivo de “tirar o PT do poder”, mas não estavam inteiramente decididos. Agora, com a história da conexão entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, “passaram a se declarar indecisos no primeiro turno”.

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Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: conexão afugentou eleitores independentes | Fotos: Reproduções

Outros eleitores passaram a mencionar Lula da Silva “como uma opção mais segura na disputa polarizada”. Frise-se que se mantêm críticos tanto ao governo quanto ao presidente.

O diálogo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, do Banco Master, decepcionou eleitores que não se identificam com o lulismo e com o bolsonarismo. Uma “pouca vergonha”, frisaram.

“(O áudio) foi uma bomba para mim. Só comprova que a gente precisa pensar muito antes de votar”, relatou um eleitor independente do Sudeste.

Um eleitor de Santa Catarina relatou que estava se decidindo a votar em Flávio Bolsonaro. “A princípio eu ia votar no Flávio, mas, depois desse áudio vazado, a gente não tem mais em quem acreditar. Não tem como defender (o Flávio)”, disse à pesquisa.

Os eleitores independentes dizem que perdeu força a imagem de que Flávio Bolsonaro seria “moderado”, “renovador” e “antissistema”. Cristalizou-se a ideia de que é “o velho” com cara de “novo”.

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Lula da Silva: negociação de dívidas beneficia o gestor petista | Foto: Divulgação

O áudio da conversa com Daniel Vorcaro é ruim, porque mostra o pré-candidato do PL negociando o que diz não negociar. Mas, para os pesquisados, há outra coisa danosa. “Os participantes [da pesquisa] demonstraram incômodo com a forma como o senador lidou com o episódio, inicialmente negando sua relação com Vorcaro”.

Os grupos focais concluíram que Flávio Bolsonaro “é desonesto”. Eles lembraram também a história da rachadinha e ligações com milícias. O material do Banco Master reforçou uma história negativa.

Um eleitor independente disse à pesquisa: “Por que não falou logo sobre a relação com o Vorcaro? Então estava mentindo”.

Eleitora do Paraná, não alinhada nem com o Flávio Bolsonaro nem com Lula da Silva, disse que a relação com Daniel Vorcaro, o pedido de dinheiro, “queimou o filme” do postulante do PL a presidente.

A visita de Flávio Bolsonaro à casa de Daniel Vorcaro mereceu comentário de uma eleitora do Porto Alegre: “Você não vai visitar alguém preso se não for uma pessoa próxima ou se não tiver algum negócio sólido com ela. Impacta no meu voto, sim. É mais um motivo para eu não votar nele”.

Entregas melhoram imagem de Lula

Coordenadora das pesquisas qualitativas da Quaest, Luciana Andrade conclui: “Parte desse eleitor que depositou em Flávio uma esperança de renovação na política, de rompimento com práticas de que eles denominam como a velha política, ficou muito frustrada ao ouvir o áudio”.

Urnas eletrônicas: eleitores independentes acompanham candidatos com atenção | Foto: Reprodução

“O episódio fez com que, para esse eleitor independente, Flávio Bolsonaro perdesse o discurso de combate à corrupção e se igualasse a Lula nesse quesito. Com isso, o eleitor independente passou, em vez de olhar para a corrupção como algo que diferencia, a comparar as entregas e as propostas de cada candidato”, sublinha Luciana Andrade. Nas entregas, por certo, não comparar Flávio Bolsonaro, sem nenhuma experiência em termos de gestão, com Lula da Silva, que está no governo há três anos e cinco meses.

A eleição vai ser disputada daqui a exatos quatro meses — um longo tempo. Por isso Luciana Andrade postula que o quadro não está definido. As avaliações peremptórias — tipo: “Lula já ganhou” — são, no momento, inadequadas. “O eleitor independente se movimenta de acordo com os acontecimentos da campanha e não tem fidelidade a nenhum candidato nem uma avalição definitiva sobre eles”, aponta o “Estadão”.

A pesquisa indica que os índices de Lula da Silva não melhoraram apenas por causa das relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Medidas recentes do governo Lula da Silva atraíram a atenção, positivamente, dos eleitores. Os eleitores independentes avaliaram que o governo federal foi bem nas negociações das dívidas.

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Luciana Andrade: gerente de Inteligência em Opinião e Política do instituto Quaest | Foto: Divulgação

Participantes dos grupos focais “elogiaram a possibilidade de limpar o nome e fugir do que consideram ‘juros abusivos’ com o Desenrola 2.0”. Também apoiaram, de maneira massiva, “a proposta que acaba com a escala 6×1”. Flávio Bolsonaro foi criticado por, inicialmente, se opor à ideia.

Um eleitor do Amazonas disse: “A briga está feia sobre a redução da escola 6×1. Eu estava vendo uma entrevista do Flávio Bolsonaro, que eu acho que ele é contra isso, falando que vai ter desemprego. Eu acho que vai dar é mais emprego porque vai abrir mais vagas”.

Um eleitor do Rio Grande do Sul corrobora: “Ele [Flávio Bolsonaro] se queimou com o negócio da pauta da redução da escola 6×1 e com o financiamento do filme”.

Eleitor e qualidade de vida

Luciana Andrade analisa o que disseram os pesquisados: “O que a gente vê é uma avaliação mais pragmática desse eleitor, que busca soluções não apenas para o bolso, mas para a qualidade de vida. Uma participante que pretendia votar em Flávio no segundo turno por uma questão de renovação e mudança passou a apoiar Lula por acreditar que ele será capaz de levar adiante a redução da jornada”.

Mas, de acordo com as pesquisas, nem tudo são flores para Lula da Silva. Os eleitores independentes frisam que “o presidente não foi capaz, neste terceiro mandato, de melhorar a vida do trabalhador”.

Um leitor independente do Norte postula: “Em comparação aos dois governos anteriores, esse deixou a desejar bastante. Ele (Lula) culpa o Bolsonaro e não faz as coisas. Ele tinha que fazer, mostrar serviço. Me desapontei. Deixou a desejar”.

Luciana Andrade afirma que “a queixa é ampla — o eleitor independente relata nas pesquisas que não viu sua condição de vida melhorar na atual gestão”.

A pesquisadora do instituto Quaest expõe: “Especialmente os eleitores com mais de 35 anos lembram que, nos governos Lula 1 e 2, tiveram ganho de poder de compra e ascensão social. Hoje, o custo do básico consome uma parcela tão grande da renda que, mesmo quando ela aumenta, o status social não muda. A expectativa de que o Lula 3 trouxesse uma melhora de vida não se confirmou. Em todos os grupos sociais a promessa da picanha na mesa é citada. A picanha virou o símbolo dessa decepção”.

Então, apesar da melhoria no combate ao desemprego, há a sensação de que, no dia a dia, a vida não melhorou.

Para Flávio Bolsonaro, há o recado do eleitor: aceitar dinheiro de Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre seu pai, Jair Bolsonaro, foi mal visto. Mas “mentir” a respeito levou eleitores a duvidarem ainda mais do pré-candidato a presidente. O senador deixou de ser uma alternativa “limpa”. Ele se tornou “mais do mesmo”. (E.F.B.)