De Hollywood para Goiânia: roteirista que trabalhou com astros do cinema aposta em Goiás para criar uma ponte global para o audiovisual
10 junho 2026 às 14h44

COMPARTILHAR
Quando desembarcou em Goiânia, o roteirista, produtor e diretor norte-americano Adam G. Simon ouviu repetidas vezes a mesma pergunta: “O que você está fazendo aqui?”. A indagação, segundo ele, vinha acompanhada de um certo espanto. Acostumadas a enxergar os grandes centros internacionais como destino natural para quem trabalha com entretenimento, muitas pessoas não compreendiam por que alguém com carreira consolidada em Hollywood escolheria viver na capital goiana.
A resposta, porém, passa menos pelo mercado e mais pela vida.
Responsável por roteiros como ‘Man Down’, estrelado por Gary Oldman, Shia LaBeouf e Kate Mara, e ‘Point Blank’ (Queima de Arquivo, no Brasil), produção da Netflix com Anthony Mackie e Frank Grillo, Simon chegou a Goiânia após uma trajetória que o levou por estúdios de Los Angeles, produções internacionais e experiências em diferentes países.

Foi em Los Angeles que conheceu a atriz e modelo goiana Larissa Andrade. O relacionamento evoluiu rapidamente. Vieram o casamento, o nascimento do filho e uma pergunta que mudaria o rumo da família: onde criar uma criança? “Queríamos um lugar seguro, com qualidade de vida e senso de comunidade”, relata.
A resposta não foi Los Angeles. Nem mesmo a Tailândia, onde a família viveu por um período após a pandemia. A resposta acabou sendo Goiânia.
A mudança para Goiás coincidiu com uma fase de observação intensa. Simon conta que encontrou uma cidade em transformação, com crescimento econômico acelerado, forte setor gastronômico e um ambiente social que o surpreendeu.
Ele mencionou, ao Jornal Opção, a convivência entre as pessoas nas ruas, a sensação de segurança e a hospitalidade dos goianos como fatores decisivos para sua adaptação. as foi outro aspecto que despertou seu interesse profissional.
“Goiânia já é reconhecida pelo agronegócio e pela gastronomia. O próximo passo natural é a arte”, afirma.
Ao longo dos últimos meses, o produtor passou a frequentar ambientes ligados à fotografia, cinema, moda, música e artes visuais. O que encontrou, segundo ele, foi uma quantidade expressiva de profissionais talentosos que frequentemente deixam Goiás para buscar oportunidades em outros estados.
A percepção o levou a uma conclusão simples: talvez o problema não seja a falta de talentos, mas a ausência de conexões internacionais. Foi a partir disso que surgiu a decisão de abrir uma produtora na capital e iniciar uma estratégia de aproximação entre o audiovisual brasileiro e o mercado global.
A aposta em uma ponte entre Brasil e Hollywood
Para Simon, um dos grandes desafios da indústria audiovisual brasileira é o isolamento em relação aos mercados internacionais. le observa que grandes empresas atuam em ecossistemas próprios e que apenas ocasionalmente uma produção nacional rompe essa barreira e alcança repercussão global.
Sua proposta é atuar justamente nesse ponto.
Por meio da produtora S2L, o cineasta pretende estabelecer acordos de coprodução envolvendo investimentos dos Estados Unidos, da China e de outros países, mas com uma condição: as histórias devem continuar sendo brasileiras. Não queremos trazer histórias americanas para serem filmadas aqui. Queremos contar histórias brasileiras com talentos brasileiros e apresentá-las ao mundo”, afirmou.
Segundo ele, o Brasil já possui os elementos fundamentais para competir internacionalmente: criatividade, diversidade cultural, paisagens naturais e profissionais qualificados.
O que falta, na sua avaliação, é ampliar os canais de circulação dessas produções.
O Brasil além de “Cidade de Deus”
Simon acredita que o desconhecimento internacional sobre o cinema brasileiro ainda é um obstáculo. Segundo ele, quando questionados sobre produções nacionais, muitos norte-americanos conseguem citar apenas Cidade de Deus. A visão, afirma, não corresponde à realidade.
O produtor cita obras como Tropa de Elite, além de produções recentes que vêm ampliando a visibilidade do audiovisual brasileiro no exterior. Também demonstra admiração por iniciativas realizadas em Goiás, como a série inspirada no acidente radiológico com o césio-137.
Para ele, existe uma riqueza artística pouco explorada internacionalmente. “O Brasil possui recursos naturais, talento, criatividade e potencial econômico gigantescos. Muitas vezes as pessoas simplesmente não percebem o valor que já possuem”, afirma.
UNDER: um filme entre a dor e a transformação
O principal projeto de Simon no momento é UNDER, longa-metragem que marcará sua estreia como diretor. O filme acompanha a trajetória de um expatriado que tenta reconstruir a própria vida ao lado da esposa brasileira após perder tudo.
A narrativa, segundo o cineasta, possui fortes elementos autobiográficos.
Após anos trabalhando como roteirista para outros diretores, Simon decidiu assumir o comando criativo da obra por sentir que muitas de suas histórias acabavam transformadas por decisões comerciais dos estúdios. “Queria contar algo mais humano e mais verdadeiro”, resume.
O filme será rodado entre Rio de Janeiro, Goiânia e Chapada dos Veadeiros. As gravações devem começar nos próximos meses.
Entre os nomes discutidos para o elenco estão os atores norte-americanos James Badge Dale e LaKeith Stanfield, além de diversos artistas brasileiros.
A Chapada como personagem
Se o Rio oferece estrutura de produção consolidada, a Chapada dos Veadeiros representa algo diferente. Simon descreve a região como um dos lugares mais impactantes que já conheceu em suas viagens pelo mundo.
A experiência diante das cachoeiras e paisagens do cerrado, afirma, influenciou diretamente a construção estética de UNDER. “Existe algo maior ali. Algo quase divino”, diz.
O cineasta acredita que Goiás possui cenários capazes de competir visualmente com qualquer destino internacional e que ainda permanecem pouco explorados pelo mercado audiovisual.
Um projeto para além do cinema
Os planos de Simon não se limitam à produção de filmes. A proposta inclui trazer para Goiânia diretores, fotógrafos, artistas visuais, produtores e profissionais reconhecidos internacionalmente para eventos, encontros e atividades de formação.
Entre os convidados previstos estão nomes ligados ao cinema, à fotografia e às artes visuais norte-americanas. Mas existe uma regra: todo profissional internacional deverá dividir espaço com talentos locais.
A intenção, segundo ele, é criar oportunidades de intercâmbio e visibilidade para artistas goianos. “Não queremos substituir ninguém. Queremos criar oportunidades”, afirma.
“Vou morrer em Goiânia”
Apesar de ter construído carreira em Hollywood e trabalhado ao lado de alguns dos maiores nomes do cinema mundial, Simon fala sobre Goiânia com um tom incomum para alguém que chegou há pouco tempo.
Ao longo da conversa, a cidade aparece menos como escolha estratégica e mais como pertencimento. Ele atribui esse sentimento à família construída ao lado de Larissa, às relações que desenvolveu na capital e à recepção que recebeu dos goianos. “O Brasil é minha casa. As pessoas daqui me acolheram”, diz.
No fim da entrevista, a declaração surge sem hesitação: “Vou morrer em Goiânia, cem por cento. Eu amo este lugar. Quero ajudar a desenvolvê-lo. Quero mostrar ao mundo o quão extraordinárias são as pessoas daqui.”



