*Em colaboração Raunner Vinícius

A Prefeitura de Goiânia apresentou nesta terça-feira, 9, a versão final do Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU), estudo desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) que traça um diagnóstico detalhado da drenagem da capital e define estratégias para enfrentar alagamentos, inundações, enxurradas e erosões nas próximas três décadas. O documento aponta as bacias hidrográficas dos córregos Botafogo, Cascavel, Taquaral, Macambira, Caveiras e Barreiro como prioritárias para intervenções estruturais e ações de gestão de risco.

Considerado um dos levantamentos mais abrangentes já realizados sobre o tema em Goiânia, o plano analisou indicadores relacionados ao crescimento urbano, impermeabilização do solo, ocupação de áreas vulneráveis, capacidade da infraestrutura de drenagem e exposição da população a eventos hidrológicos extremos. O objetivo é orientar investimentos públicos e subsidiar políticas urbanas voltadas à adaptação da cidade diante do aumento da pressão sobre o sistema de drenagem.

Durante a audiência pública realizada na Câmara Municipal, o coordenador-geral do PDDU, professor Klebber Formiga, destacou que o principal avanço do estudo é permitir que a drenagem urbana deixe de ser tratada apenas sob a lógica da emergência e passe a integrar o planejamento permanente da cidade.

“O plano permite que a drenagem deixe de ser tratada apenas na emergência e passe a ser planejada. Primeiro precisamos evitar que a situação piore. Depois, avançar para melhorar os indicadores da cidade”, afirmou.

Botafogo lidera ranking de criticidade

O levantamento confirma que a bacia do Córrego Botafogo continua sendo a região mais crítica de Goiânia quando o assunto é alagamento. Na sequência aparecem as bacias dos córregos Cascavel, Taquaral e Caveiras, que também apresentam elevado grau de vulnerabilidade.

“Do ponto de vista da criticidade dos alagamentos, a bacia mais crítica é o Botafogo. Depois aparecem Cascavel, Taquaral e Caveiras”, explicou Klebber Formiga.

O estudo também identificou que a região do Córrego Anicuns concentra a maior quantidade de moradias localizadas em áreas suscetíveis a inundações.

“Quando analisamos a quantidade de residências afetadas, o Anicuns concentra boa parte dos problemas da cidade. Boa parte das áreas de inundação de Goiânia estão naquela região”, afirmou o pesquisador.

Segundo os especialistas, embora Goiânia enfrente problemas recorrentes durante o período chuvoso, a situação da capital ainda é considerada menos grave do que a observada em grandes centros urbanos brasileiros como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Isso ocorre, principalmente, devido às características topográficas da cidade e à preservação de parte das áreas de inundação ao longo de seus cursos d’água.

Enxurradas representam maior risco à população

Um dos principais alertas apresentados durante a audiência foi a necessidade de diferenciar alagamentos de enxurradas. Enquanto os alagamentos estão relacionados ao acúmulo de água em vias urbanas, as enxurradas são caracterizadas pelo escoamento rápido e com grande energia, representando risco direto à vida.

De acordo com Formiga, muitas pessoas subestimam o perigo representado por pequenas lâminas d’água.

“Uma enxurrada não precisa ser grande para provocar acidentes graves. Com uma lâmina de aproximadamente 15 centímetros e velocidades elevadas, uma pessoa pode ser arrastada. Esse é o maior perigo que nós temos em termos de drenagem urbana”, alertou.

O pesquisador destacou ainda que veículos também podem ser afetados em situações aparentemente simples.

“Com cerca de 30 centímetros de água, um veículo já pode apresentar problemas e até ser arrastado dependendo da velocidade da enxurrada”, afirmou.

Segundo ele, a orientação para a população é evitar qualquer tentativa de atravessar áreas alagadas durante eventos de chuva intensa.

Crescimento urbano preocupa especialistas

Outro ponto de atenção identificado pelo plano é o avanço da impermeabilização do solo provocado pela expansão urbana e pela verticalização de diversas regiões da capital.

O estudo projeta que a área urbanizada de Goiânia poderá crescer cerca de 50% nas próximas décadas, aumentando a pressão sobre o sistema de drenagem e elevando o volume de água escoado para galerias, córregos e fundos de vale.

“A perspectiva é que a área urbanizada de Goiânia aumente quase 50% nas próximas décadas. O crescimento vai acontecer. O desafio é fazer com que ele ocorra de forma mais sustentável, sem ampliar os problemas que já existem hoje”, destacou Formiga.

Segundo os pesquisadores, a atualização da legislação municipal de drenagem será fundamental para exigir que novos empreendimentos adotem mecanismos de retenção de águas pluviais e reduzam o impacto da impermeabilização sobre a infraestrutura urbana.

Erosões avançam em áreas em desenvolvimento

Além dos problemas relacionados às enchentes, o plano identificou a erosão como uma das principais ameaças à infraestrutura urbana de Goiânia.

As bacias dos córregos Macambira, Barreiro, Taquaral e Caveiras apresentaram os maiores índices de criticidade erosiva. Nessas regiões, o crescimento urbano e a insuficiência de estruturas para dissipação da energia da água favorecem a formação e o avanço de processos erosivos que podem comprometer ruas, redes de drenagem e áreas ocupadas.

Segundo Formiga, diferentemente do Botafogo, que já passou por ampla canalização, essas bacias ainda apresentam fragilidades que exigem intervenções prioritárias.

Indicadores vão orientar investimentos

O coordenador de modelagem hidrológica e hidráulica do plano, professor Raviel Eurico Basso, explicou que o PDDU incorporou um sistema de indicadores para auxiliar a Prefeitura na definição das prioridades de investimento.

Foram considerados critérios como impacto na mobilidade urbana, quantidade de pessoas afetadas, percentual de impermeabilização, incidência de erosões e cobertura da rede de drenagem.

“O uso de indicadores torna a tomada de decisão mais assertiva. O indicador deixa de ser apenas um número e passa a mostrar onde estão os principais problemas e quais áreas exigem prioridade de investimento”, explicou.

A aplicação dos indicadores apontou a bacia do Taquaral como a mais crítica quando considerados os diferentes fatores de forma integrada. Já o Botafogo se destacou pelo impacto na mobilidade urbana, pelo elevado número de pessoas potencialmente afetadas e pelo alto grau de impermeabilização do solo.

“Quando analisamos o conjunto dos indicadores, o Botafogo aparece entre as bacias mais preocupantes porque reúne elevado impacto na mobilidade urbana, grande número de pessoas potencialmente afetadas e alta impermeabilização do solo”, afirmou Basso.

Plano prevê ações até 2056

O Plano Diretor de Drenagem Urbana estabelece medidas de curto, médio e longo prazo, distribuídas em horizontes de cinco, 15 e 30 anos. Entre as ações previstas estão obras de ampliação e adequação da infraestrutura de drenagem, implantação de reservatórios para retenção de águas pluviais, modernização dos sistemas de monitoramento meteorológico, aperfeiçoamento dos alertas à população e fortalecimento dos protocolos de resposta a eventos extremos.

O documento também propõe revisões periódicas a cada dez anos para atualização das metas e adaptação às transformações urbanas e climáticas.

Para os coordenadores do estudo, o principal desafio agora é transformar o diagnóstico em ações permanentes.

“O risco nunca será eliminado completamente, mas pode ser reduzido significativamente. Quanto mais a população conhecer esses riscos e quanto mais planejamento houver, menores serão os impactos para a cidade”, concluiu Klebber Formiga.

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