Uma em cada três crianças goianas está acima do peso; sedentarismo e ultraprocessados preocupam especialistas
14 julho 2026 às 18h22

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Uma em cada três crianças e adolescentes acompanhados pela atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) em Goiás está acima do peso. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, mostram que mais de 518 mil jovens apresentam excesso de peso no estado, o equivalente a 31% do público monitorado pela rede pública. Desse total, cerca de 13% já são considerados obesos.
O cenário é ainda mais preocupante entre crianças de 5 a 9 anos. Goiás concentra 59.247 dos 135.286 casos registrados na Região Centro-Oeste, respondendo por aproximadamente 40% das ocorrências nessa faixa etária.
Ao Jornal Opção, o educador físico e fisioterapeuta Felipe Mabel atribui o avanço da obesidade infantil às mudanças no estilo de vida das famílias, marcadas pelo aumento do tempo de tela e pelo consumo de alimentos ultraprocessados.
“Hoje existe um uso excessivo de telas, além de um desconhecimento por parte de muitos pais sobre o valor calórico dos alimentos. As crianças estão cada vez mais sedentárias, praticam menos atividades físicas e consomem mais embutidos, enlatados e salgadinhos”, afirma.
Segundo ele, a rotina infantil mudou profundamente nas últimas décadas.
“Na minha infância, a gente brincava na rua, jogava futebol, pique-esconde e pique-pega. Hoje a realidade é diferente. As crianças passam muito mais tempo em frente à televisão, ao celular e aos serviços de streaming, reduzindo o convívio social e a prática de atividades físicas”, diz.
Proposta prevê “Ruas do Lazer”
Como alternativa para estimular a prática esportiva, Felipe Mabel defende a criação do projeto “Ruas do Lazer”, que prevê o fechamento temporário de vias públicas para atividades recreativas e esportivas.
Segundo ele, a iniciativa dependeria de uma articulação entre Estado, municípios e sociedade civil.
“A ideia é desenvolver um projeto piloto em algumas cidades, com professores de educação física promovendo atividades esportivas e recreativas nos bairros. É uma proposta que ainda precisa ser desenhada, inclusive com previsão orçamentária”, explica.
O fisioterapeuta afirma que a população também deve participar da construção da iniciativa.
“Queremos construir esse projeto ouvindo pais, adolescentes e especialistas. Não pode ser uma proposta feita apenas pelo poder público. A sociedade precisa participar dessa discussão”, pontua.
Alimentação saudável começa em casa
Felipe Mabel também defende a restrição da oferta e da publicidade de alimentos ultraprocessados nas cantinas escolares, mas ressalta que mudanças de hábitos dependem da participação das famílias.
“Os pais precisam fazer parte desse processo. Não adianta tomar decisões de forma unilateral. É necessário orientar as famílias sobre quais alimentos favorecem o desenvolvimento saudável das crianças e quais prejudicam”, afirma.
Ele destaca ainda que políticas públicas precisam considerar a realidade econômica da população.
“Sabemos que alimentos industrializados muitas vezes custam menos. Por isso, precisamos discutir alternativas com nutricionistas para encontrar substituições que sejam saudáveis e, ao mesmo tempo, acessíveis às famílias de baixa renda”, acrescenta.
Esporte como investimento em saúde
Na avaliação do educador físico, ampliar o acesso gratuito ao esporte pode reduzir, no longo prazo, a incidência de doenças crônicas e aliviar a demanda sobre a rede pública de saúde.
“Quando incentivamos a prática de atividades físicas, reduzimos os casos de sedentarismo, diabetes, colesterol elevado e outras doenças. Isso ajuda a desafogar o sistema público de saúde”, afirma.
Para ele, as políticas públicas precisam priorizar a prevenção.
“Precisamos discutir como sociedade quais ações realmente incentivam hábitos saudáveis. É um trabalho de longo prazo, mas capaz de reduzir significativamente o número de comorbidades atendidas nas UPAs, nas UBS e em toda a rede pública”, conclui.
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