Na porta da clínica, o ritual se repete com a precisão de quem aprendeu a encontrar segurança na rotina. Há crianças que chegam correndo para abraçar terapeutas, outras que entram em silêncio, algumas ainda precisam de alguns minutos até reconhecer o ambiente onde passam boa parte da infância. Para muitas delas, cada detalhe importa: o corredor conhecido, a sala de sempre, o brinquedo favorito, a voz da fonoaudióloga, o sorriso da terapeuta ocupacional, o caminho percorrido de carro até o atendimento.

Do lado de fora, pais e mães aguardam o fim das sessões. Alguns trabalham pelo celular enquanto esperam. Outros conversam sobre pequenas vitórias que para qualquer outra família poderiam parecer banais: uma palavra pronunciada pela primeira vez, um alimento aceito sem resistência, um abraço espontâneo, uma crise evitada.

Foi nesse cotidiano cuidadosamente construído que chegou a notícia de que clínicas especializadas deixariam de atender beneficiários da Unimed Goiânia.

Para muitas famílias, a comunicação oficial sequer existiu.

Mayara Jordana Santana descobriu o descredenciamento do Instituto Kids por meio de outra mãe. Recebeu um print de tela mostrando que os atendimentos seriam encerrados em junho. O choque veio antes da confirmação. Depois vieram a ansiedade, a busca por informações e a sensação de abandono.

Mayara e Dante Rossi | Foto: Arquivo Pessoal

Seu filho, Dante Rossi Bettanin, acabara de completar dois anos. Diagnosticado com autismo nível 1 e não verbal, ele havia encontrado no Instituto Kids uma rotina intensiva de intervenções precoces. Três vezes por semana, permanecia cerca de quatro horas realizando fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e fisioterapia em um único espaço, acompanhado por profissionais que já conheciam suas dificuldades e seus avanços.

“Tenho medo da regressão”, resume a mãe.

A história de Flávia Neves segue um roteiro parecido. Mãe de Pedro, de 6 anos, e Túlio, de 3, ambos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista, ela afirma que também não recebeu qualquer comunicado oficial sobre o futuro do Instituto Kids.

Segundo conta, a notícia começou a circular como um “burburinho” entre as próprias famílias. “Nem a clínica, nem a Unimed, ninguém informou oficialmente. Foram as mães comentando umas com as outras”, relata.

Para Flávia, a situação teve um componente ainda mais frustrante porque os dois filhos haviam acabado de chegar ao Instituto Kids. A mudança ocorreu depois que a família precisou deixar outra clínica, a MCB, também descredenciada pela operadora. Pedro e Túlio estavam havia apenas duas ou três semanas na nova unidade quando surgiu a informação de que ela também poderia deixar de atender pelo plano.

“Quando finalmente a gente gostou da clínica, dos profissionais e viu que os meninos tinham se adaptado, veio essa notícia. Foi um balde de água fria”, afirma.

Os dois realizam uma rotina intensa de terapias. O caçula faz acompanhamento com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo e fisioterapeuta. Já o filho mais velho passa por sessões de psicopedagogia, psicologia e terapia ocupacional. Juntos, frequentam a clínica todos os dias da semana, com exceção das sextas-feiras.

Diante da incerteza, Flávia buscou esclarecimentos diretamente com a Unimed a pedido do advogado que acompanha seu caso. Ela afirma que precisou tomar a iniciativa para obter uma confirmação sobre o descredenciamento e acabou recorrendo ao Judiciário, conseguindo uma decisão liminar para garantir a continuidade do atendimento.

Mais do que a troca de endereço, o que a preocupa é a necessidade constante de reorganizar uma rotina já complexa. Com dois filhos em tratamento simultâneo, compatibilizar horários, deslocamentos e atividades da família exige um planejamento diário.

“É desesperador. O tratamento fica muito prejudicado. É muito difícil adequar toda a rotina dos dois filhos, dos pais e encontrar horários disponíveis para todo mundo”, resume.

Flávia é mãe de Pedro, de 6 anos, e de Túlio, de 3 | Foto: Arquivo Pessoal

Seu relato reforça um sentimento recorrente entre as famílias ouvidas pela reportagem: a maior angústia não está apenas na possibilidade de mudar de clínica, mas na sucessão de mudanças que obrigam crianças em processo de adaptação a recomeçar repetidamente, enquanto pais e mães tentam reorganizar, mais uma vez, toda a vida ao redor das terapias.

A interrupção de uma rotina construída por anos

Esse medo aparece repetidamente nos depoimentos reunidos pelo Ministério Público de Goiás na ação civil pública ajuizada contra a Unimed. O documento não trata apenas de contratos, cláusulas ou redes credenciadas. Em suas páginas surgem histórias de famílias que organizaram toda a vida em torno das necessidades terapêuticas dos filhos e que agora se veem obrigadas a reconstruir essa estrutura em poucas semanas.

Segundo a ação, o órgão recebeu denúncias de que o descredenciamento do Instituto Kids ocorreu sem comunicação individualizada e sem um planejamento efetivo para absorção dos pacientes na rede substituta. O Ministério Público afirma que centenas de crianças dependem de acompanhamento multidisciplinar contínuo e que a interrupção abrupta dos serviços pode provocar prejuízos significativos ao desenvolvimento neuropsicomotor.

A narrativa jurídica ganha contornos humanos quando se observam os detalhes.

Marcela Alvarenga, uma das mães ouvidas pela reportagem, relatou que buscou as alternativas apresentadas pela operadora e encontrou dificuldades para localizar vagas compatíveis. O problema não seria apenas encontrar atendimento, mas conseguir reunir psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outras especialidades em um único local e em horários compatíveis com a rotina familiar.

Para quem observa de fora, pode parecer apenas uma mudança de endereço.

Para essas famílias, significa reorganizar completamente dias que já funcionam no limite.

Há mães que deixam empregos para acompanhar sessões. Há pais que adaptam escalas de trabalho para transportar os filhos. Há crianças que estudam em um turno e fazem terapia no outro, transformando deslocamentos em parte permanente da agenda.

Marcela Alvarenga e Saulo | Foto: Arquivo Pessoal

Quando cada especialidade passa a funcionar em um bairro diferente, a logística se torna quase impossível.

Foi exatamente esse cenário que levou o Ministério Público a sustentar que uma substituição formal de prestadores não basta se ela resultar na fragmentação do tratamento ou na perda da equivalência assistencial prometida aos consumidores.

Na ação, o órgão afirma que recebeu relatos de clínicas indicadas sem vagas suficientes, redução do tempo das sessões, ausência de devolutivas aos pais e dificuldades para preservar vínculos terapêuticos já consolidados.

Enquanto isso, a versão apresentada pela Unimed Goiânia segue outro caminho.

Em nota enviada ao Jornal Opção, a cooperativa informa que o descredenciamento do Instituto Kids e da MCB decorreu da identificação de “não conformidades em relação aos critérios técnicos, assistenciais e contratuais exigidos para a manutenção do credenciamento”. Afirma ainda que, sempre que ocorre a descontinuidade de um prestador, é adotado um plano de transição assistencial para evitar desassistência aos beneficiários.

A empresa também destaca investimentos na ampliação da rede voltada ao atendimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, anunciando a implantação de dez clínicas especializadas, das quais seis já estariam em funcionamento, além do fortalecimento de mecanismos de auditoria e monitoramento.

No entanto, a percepção das famílias entrevistadas é marcada por insegurança.

Marilene Félix afirma que sequer recebeu comunicação oficial da operadora. Seu filho Rafael passou por mudanças anteriores de clínica e havia conseguido manter parte da equipe terapêutica no Instituto Kids. Agora enfrenta uma nova incerteza.

Rafael é filho de Marilene Félix | Foto: Arquivo Pessoal

Ela diz que aguardará a definição judicial, mas admite não possuir condições financeiras para custear atendimento particular caso seja necessário. Os valores cobrados por sessões privadas tornam inviável substituir, por conta própria, uma rotina composta por múltiplas especialidades semanais.

A preocupação não é apenas econômica.

É emocional.

Para crianças autistas, a previsibilidade costuma representar estabilidade. Muitos reconhecem pessoas, espaços e horários como parte do próprio processo terapêutico. Alterações inesperadas exigem readaptação e podem repercutir em comportamentos, alimentação, comunicação e interação social.

É justamente por isso que tantas mães repetem a palavra “vínculo”.

Não falam apenas do vínculo afetivo entre terapeuta e paciente, mas da confiança construída lentamente ao longo de meses de convivência.

Esse elo, argumentam, não se substitui por um simples encaminhamento administrativo.

O Ministério Público adotou posição semelhante ao afirmar que mudanças na rede credenciada precisam preservar equivalência qualitativa do atendimento, especialmente quando envolvem consumidores hipervulneráveis como crianças diagnosticadas com transtornos do neurodesenvolvimento.

Entre protocolos, listas de clínicas e decisões judiciais pendentes, o conflito ultrapassa o universo contratual e invade o cotidiano doméstico.

Nas conversas entre mães, o tema já não é apenas qual clínica permanecerá credenciada.

É saber se os filhos continuarão encontrando, na semana seguinte, o mesmo lugar onde aprenderam a pronunciar novas palavras, desenvolver autonomia e construir relações de confiança que, para muitas famílias, representam muito mais do que um serviço previsto em contrato: representam uma parte essencial do próprio tratamento.

A vida organizada em torno das terapias

Para entender a dimensão do conflito, é preciso abandonar por um instante a linguagem dos processos judiciais e mergulhar na rotina das famílias.

O calendário de uma mãe atípica dificilmente se parece com o de qualquer outra pessoa. Os dias são divididos entre consultas, terapias, escola, reuniões pedagógicas, avaliações médicas e deslocamentos pela cidade. Horários são calculados com precisão para evitar atrasos e minimizar situações que possam desencadear ansiedade ou desregulação emocional nas crianças.

Quando um atendimento é cancelado, não se perde apenas uma hora do dia. Muitas vezes desmorona uma engrenagem inteira construída durante anos.

Foi exatamente essa sensação que atingiu Thatyane Rodrigues Lopes quando soube que a clínica frequentada por sua filha Eloah deixaria de atender pelo plano de saúde. Antes disso, elas já haviam passado por outra mudança de unidade, experiência que exigiu um novo processo de adaptação.

Thatyane Rodrigues é mãe de Eloah, de 6 anos | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a mãe, criar vínculo leva tempo. A criança aprende a confiar na terapeuta, conhece o ambiente, estabelece uma rotina e passa a esperar por aquele momento da semana. Romper esse ciclo de forma abrupta significa recomeçar praticamente do zero.

Ela lembra de uma conversa que resume o peso emocional da situação. Depois de saber que talvez precisasse deixar a clínica, Eloah perguntou se aquela seria a última vez que encontraria suas terapeutas.

Para uma criança de seis anos, a pergunta parece simples.

Para uma mãe, ela concentra toda a insegurança do momento.

O Ministério Público utiliza argumentos semelhantes na ação civil pública. O órgão sustenta que, para pacientes com Transtorno do Espectro Autista, a equivalência do serviço não pode ser medida apenas pela existência de um novo endereço credenciado. É necessário considerar fatores como continuidade do vínculo terapêutico, manutenção das especialidades em um único local, preservação dos horários habituais e capacidade efetiva de absorção da demanda.

Na prática, o desafio é enorme.

Mayara Jordana Santana relata que, após questionar a operadora, recebeu uma lista de contatos para que ela própria buscasse vagas disponíveis. Em sua avaliação, a responsabilidade pela reorganização acabou sendo transferida às famílias.

“Não importa se vou precisar atravessar a cidade inteira”, desabafa em seu depoimento, descrevendo a dificuldade de encontrar serviços concentrados em uma mesma unidade.

Na ação ajuizada, o Ministério Público também afirma ter recebido relatos de consumidores que encontraram listas genéricas de prestadores, sem garantia de disponibilidade para receber imediatamente os pacientes oriundos do Instituto Kids.

O documento vai além e aponta que a pulverização das terapias entre diferentes bairros pode inviabilizar jornadas de trabalho, aumentar custos com transporte e reduzir o tempo disponível para descanso e convivência familiar.

Essas consequências aparecem de maneira concreta na história de Marilene Félix.

Diarista, ela afirma que já enfrenta dificuldades para manter as despesas do plano de saúde e considera inviável arcar com tratamentos particulares caso seja necessário. As sessões privadas das especialidades recomendadas para o filho ultrapassariam facilmente a renda disponível da família.

Mesmo assim, ela demonstra resignação ao dizer que aguardará as decisões da Justiça.

Enquanto espera, convive com a incerteza.

A própria ação do Ministério Público descreve um ambiente de apreensão entre os responsáveis por crianças autistas. O órgão relata depoimentos de mães que afirmam ter organizado completamente suas vidas em função das terapias dos filhos e que passaram a temer não apenas a interrupção dos atendimentos, mas também retrocessos clínicos decorrentes da quebra da continuidade assistencial.

É justamente por isso que tantas mães repetem a palavra “vínculo”. Não falam apenas do vínculo afetivo entre terapeuta e paciente, mas da confiança construída lentamente ao longo de meses de convivência. Esse elo, argumentam, não se substitui por um simples encaminhamento administrativo.

Se para Mayara, Marilene e Thatyane a regressão ainda é um temor, para Ana Cárita ela já faz parte da memória. Mãe de Theo, um adolescente de 12 anos com autismo nível 2 de suporte, ela afirma ter vivido situação semelhante quando o Núcleo Alecrim, onde o filho realizava terapias, foi descredenciado pela Unimed no ano passado.

Ela conta que descobriu a mudança da pior forma possível: ao chegar para uma sessão e perceber que a carteirinha do plano já não era aceita. A informação, segundo relata, foi recebida no balcão da clínica. Sem aviso prévio, dezenas de famílias passaram a buscar alternativas às pressas.

Ana Cárita é mãe de Theo, um adolescente de 12 anos com autismo nível 2 de suporte | Foto: Arquivo Pessoal

As mães se organizaram, protestaram e buscaram diálogo com representantes da operadora, mas o descredenciamento foi mantido. Theo permaneceu cerca de dois meses sem conseguir restabelecer sua rotina terapêutica, período que, de acordo com Ana, foi suficiente para provocar mudanças perceptíveis em seu comportamento.

“Meu filho voltou a apresentar estereotipias, voltou à agressividade e precisou aumentar a medicação”, relata.

Advogada e integrante da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência, ela diz que, apesar da experiência profissional, se viu emocionalmente abalada diante da situação. Precisou recorrer ao Judiciário para garantir o custeio das terapias do filho e afirma que, mesmo após obter decisões favoráveis, enfrentou dificuldades para que elas fossem efetivamente cumpridas.

Hoje, Theo realiza parte do acompanhamento em uma unidade da própria operadora e outra parte em clínica particular, preservando o vínculo terapêutico conquistado após meses de adaptação. Ana acredita que essa continuidade foi possível graças às decisões judiciais obtidas pela família.

Sua história ajuda a explicar por que tantas mães insistem que o maior patrimônio em disputa não é o prédio onde ocorrem as sessões, mas a relação construída entre profissionais e pacientes. Ela conta que simples alterações na rotina, como feriados prolongados ou férias escolares, já são capazes de desorganizar o comportamento do filho. Trocar de clínica, de equipe e de ambiente exige um processo de readaptação que pode durar meses.

“Para reconstruir o vínculo terapêutico, às vezes são necessários dois ou três meses. É um tempo que a criança perde no desenvolvimento”, afirma.

Do outro lado da controvérsia, a Unimed Goiânia sustenta que existe planejamento para evitar esse cenário.

Na nota oficial, a cooperativa afirma que adota planos de transição sempre que ocorre a descontinuidade de um prestador, orientando os beneficiários sobre alternativas existentes em sua rede própria e credenciada. Também destaca investimentos na expansão de unidades especializadas em atendimento ao público com TEA e reafirma que todas as medidas têm como prioridade a segurança assistencial e a qualidade do cuidado.

A divergência entre as partes, portanto, não gira apenas em torno do descredenciamento em si.

Ela envolve uma questão mais profunda: o que significa, na prática, garantir continuidade de tratamento para uma criança autista?

Para as famílias, significa preservar pessoas, espaços, horários e metodologias que já demonstraram resultados.

Para a operadora, segundo sua manifestação oficial, significa assegurar atendimento dentro de uma rede assistencial ampliada e organizada para absorver os beneficiários.

Entre essas duas interpretações está um processo judicial que poderá influenciar não apenas o destino do Instituto Kids, mas também o entendimento sobre como operadoras de saúde devem conduzir mudanças em serviços destinados a pacientes considerados hipervulneráveis.

Enquanto advogados apresentam petições e magistrados analisam documentos, mães continuam acordando cedo para cumprir agendas que talvez precisem ser reescritas a qualquer momento.

Elas sabem que o desenvolvimento de seus filhos não segue o ritmo do calendário processual.

Cada semana conta.

Cada sessão perdida pesa.

E cada decisão tomada longe das salas de terapia repercute diretamente na vida de crianças que ainda estão aprendendo a falar, a brincar, a conviver e a descobrir o mundo ao seu redor.

O que está em jogo

Na superfície, a disputa parece tratar de credenciamentos, cláusulas contratuais e reorganização da rede de atendimento.

Mas basta percorrer as quase trinta páginas da ação civil pública proposta pelo Ministério Público de Goiás para perceber que o centro da discussão é outro: o direito à continuidade de um tratamento considerado essencial para crianças em fase de desenvolvimento.

O promotor responsável pela ação descreve um cenário de “desassistência” e sustenta que o descredenciamento do Instituto Kids foi realizado de forma repentina, sem planejamento suficiente para garantir que as famílias encontrassem serviços equivalentes. A petição também destaca que muitas das crianças afetadas realizam acompanhamento multidisciplinar intensivo e que qualquer interrupção pode provocar prejuízos difíceis de reparar.

Em um dos pontos mais sensíveis do documento, o Ministério Público afirma que equivalência não significa apenas substituir uma clínica por outra no cadastro do plano de saúde.

Para o órgão, é preciso assegurar que o novo atendimento preserve elementos fundamentais para o sucesso terapêutico: profissionais capacitados, estrutura adequada, número de sessões compatível com a prescrição médica, integração entre as diferentes especialidades e, sempre que possível, continuidade dos vínculos estabelecidos entre terapeutas e pacientes.

Essa interpretação nasce da própria experiência das famílias.

Quem convive diariamente com crianças autistas costuma explicar que boa parte dos avanços depende justamente da construção de relações de confiança. Não se trata apenas de executar protocolos clínicos, mas de criar um ambiente previsível em que a criança se sinta segura para desenvolver habilidades sociais, cognitivas e comunicativas.

Foi esse processo que Mayara viu acontecer com o filho Dante.

Após experiências frustradas em outros serviços, ela encontrou no Instituto Kids uma equipe que acompanhava o menino de maneira integrada. A rotina concentrada em um único espaço permitia que as terapeutas compartilhassem informações entre si e acompanhassem sua evolução de forma conjunta.

Ela teme que esse trabalho seja perdido caso seja obrigada a recomeçar em locais diferentes, com profissionais que ainda não conhecem o histórico do filho.

A preocupação aparece também nos relatos de outras mães ouvidas pelo Ministério Público.

Há quem diga que passou meses até conseguir que o filho aceitasse permanecer sozinho na sala de atendimento. Outras contam que determinadas terapeutas aprenderam a interpretar comportamentos específicos das crianças, antecipando crises ou identificando formas mais eficazes de comunicação.

Esses detalhes dificilmente aparecem em planilhas administrativas.

Mas fazem parte da vida real.

Ao justificar o ajuizamento da ação, o Ministério Público argumenta que consumidores com deficiência e transtornos do neurodesenvolvimento ocupam posição de especial vulnerabilidade nas relações de consumo. Por isso, sustenta que operadoras de planos de saúde devem observar padrões rigorosos de transparência, informação e proteção ao promover alterações em suas redes credenciadas.

Outro aspecto é a comunicação com os usuários.

Segundo diversos relatos reunidos durante a investigação, muitas famílias descobriram o descredenciamento por intermédio das próprias clínicas ou por mensagens compartilhadas entre grupos de pais. Algumas afirmam que só obtiveram retorno da operadora depois de insistentes contatos ou da abertura de protocolos de reclamação.

A advogada e mãe atípica Giselle Oliveira, que acompanha parte das famílias em ações individuais, afirma que o problema vai além da mudança de prestador. Na avaliação dela, a principal preocupação é preservar o vínculo terapêutico das crianças e assegurar uma transição que não represente perda de qualidade ou interrupção dos tratamentos.

Giselle Oliveira é advogada e mãe atípica, estando à frente da busca de liminares para garantir atendimento às crianças | Foto: Arquivo Pessoal

Enquanto isso, a Unimed Goiânia sustenta que o encerramento do credenciamento decorreu da identificação de não conformidades relacionadas a critérios técnicos, assistenciais e contratuais.

A cooperativa afirma ainda que adota planos de transição para evitar que beneficiários fiquem desassistidos e informa estar ampliando sua própria capacidade de atendimento, com abertura de novas unidades especializadas destinadas ao acompanhamento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista.

É uma narrativa baseada na ideia de reorganização e fortalecimento da rede.

As famílias, porém, avaliam a situação sob outra perspectiva.

Para elas, não basta haver uma clínica disponível.

É preciso que exista vaga imediata, que os horários sejam compatíveis com a rotina escolar e profissional, que as especialidades estejam concentradas em um único local e que o tratamento mantenha o padrão já alcançado.

A distância entre essas duas visões ajuda a explicar por que o caso extrapolou o campo administrativo e chegou ao Judiciário.

Nos últimos meses, algumas famílias recorreram individualmente aos tribunais em busca de liminares que garantissem a continuidade dos atendimentos. Em paralelo, a atuação do Ministério Público transformou uma sucessão de dramas particulares em uma discussão coletiva sobre direitos do consumidor, proteção à infância e responsabilidade das operadoras de saúde suplementar.

O desfecho ainda é incerto.

Mas qualquer que seja a decisão judicial, ela deverá responder a uma pergunta que acompanha mães, pais e terapeutas desde o início da controvérsia: quando o tratamento de uma criança depende da continuidade, até onde uma mudança administrativa pode ser considerada apenas uma alteração contratual e quando ela passa a colocar em risco um processo de desenvolvimento construído dia após dia, sessão após sessão?

O que diz a legislação sobre o descredenciamento

É justamente nessa fronteira entre a gestão contratual das operadoras e a continuidade do tratamento que atua a advogada Paula Godoi, especialista em Direito da Saúde. Ao acompanhar ações envolvendo crianças autistas, ela afirma que um dos problemas mais recorrentes é a ausência de comunicação adequada às famílias antes do descredenciamento das clínicas.

Segundo a jurista, há casos em que pais e responsáveis só descobrem a mudança ao chegar para uma sessão e perceber que o atendimento já não pode mais ser realizado. Ela cita como exemplo situações semelhantes às vividas por mães entrevistadas para esta reportagem, nas quais, segundo seus relatos, não houve qualquer aviso prévio capaz de permitir uma transição organizada.

Para Paula, a legislação e as normas regulatórias não autorizam que a simples retirada de uma clínica da rede credenciada deixe pacientes desassistidos. Na avaliação dela, a operadora tem a obrigação de assegurar que cada criança seja encaminhada para outro serviço com padrão equivalente de qualidade.

“Quando falamos em equivalência, estamos falando dos mesmos parâmetros de tratamento: profissionais habilitados, quantidade de sessões, horários compatíveis e capacidade de dar continuidade ao plano terapêutico prescrito pelo médico”, explica.

Na prática, porém, ela afirma que esse cenário raramente se concretiza nos casos de descredenciamento em massa que acompanha. Em vez de uma transição estruturada, muitas famílias recebem apenas contatos ou listas de clínicas e precisam procurar vagas por conta própria, sem garantia de que encontrarão atendimento disponível ou equivalente ao anterior.

Paula Godoi é especialista em Direito da Saúde | Foto: Arquivo Pessoal

“O que a gente vê é a criança ficando perdida, sem saber para onde ir e, muitas vezes, interrompendo o tratamento porque não consegue ser reinserida rapidamente em outra unidade”, afirma.

Paula afirma ainda que as regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabelecem que alterações dessa natureza devem ser comunicadas previamente aos beneficiários, permitindo uma transição organizada entre os prestadores. Segundo ela, esse período deveria servir justamente para que a operadora encaminhasse gradualmente cada paciente à nova clínica, preservando a continuidade assistencial.

Quando isso não ocorre, o caminho mais frequente acaba sendo a judicialização.

É por meio de liminares e ações individuais que muitas famílias conseguem manter os filhos em tratamento ou obrigar a operadora a custear atendimento equivalente. Ainda assim, a advogada avalia que recorrer ao Judiciário está longe de representar uma solução definitiva.

Ela afirma que existe significativa variação na interpretação das normas entre diferentes magistrados, produzindo um cenário de insegurança jurídica. Enquanto algumas decisões reconhecem prontamente o direito das crianças à continuidade do tratamento, outras impõem obstáculos que prolongam ainda mais a espera das famílias.

Outro ponto levantado por Paula diz respeito ao cumprimento das decisões judiciais. Segundo ela, em alguns processos a fixação de multas de baixo valor faz com que determinadas operadoras optem por acumular penalidades em vez de cumprir imediatamente as ordens judiciais.

“Se a multa é pequena diante da capacidade financeira da empresa, muitas vezes ela não produz o efeito esperado de garantir o atendimento imediato da criança”, observa.

Na avaliação da especialista, esse contexto torna ainda mais importante a atuação preventiva das operadoras. Em vez de obrigar famílias a recorrerem ao Judiciário, o ideal seria que a transição entre clínicas ocorresse de forma planejada, transparente e individualizada, respeitando a necessidade de continuidade terapêutica de cada paciente.

Sua análise dialoga diretamente com os relatos colhidos ao longo desta reportagem. Mães como Mayara Jordana, Flávia Neves, Marilene Félix, Thatyane Rodrigues Lopes e Ana Cárita descrevem trajetórias marcadas por incertezas, busca por vagas, reorganização constante da rotina e receio de regressão no desenvolvimento dos filhos.

No fim, a controvérsia sobre o descredenciamento das clínicas revela um embate que ultrapassa contratos e planilhas administrativas. Para as famílias, a discussão é sobre tempo: o tempo necessário para construir vínculos terapêuticos, estimular habilidades e consolidar avanços que podem levar meses ou anos para serem alcançados, mas que, segundo elas, podem ser colocados em risco por uma interrupção repentina do tratamento.

Essa é a questão que agora aguarda resposta nos autos.

Enquanto isso, do lado de fora dos fóruns, continuam chegando crianças que pouco entendem sobre processos, petições ou liminares. Elas apenas reconhecem o rosto de quem as espera na porta da sala de terapia e acreditam que, na semana seguinte, tudo estará exatamente onde sempre esteve.

A cidade das mães atípicas

Existe uma Goiânia que dificilmente aparece nas estatísticas oficiais.

Ela desperta antes do amanhecer, atravessa avenidas congestionadas, conhece de cor o caminho para clínicas, consultórios, escolas e centros de reabilitação. É formada por mães e pais que transformaram o cuidado em profissão integral, ainda que continuem acumulando empregos, tarefas domésticas e responsabilidades financeiras.

Nesse universo, o relógio funciona de maneira diferente.

Uma sessão perdida não representa apenas sessenta minutos a menos de atendimento. Ela pode significar um atraso em uma etapa importante da alfabetização, uma oportunidade desperdiçada de estimular a linguagem, uma dificuldade adicional para desenvolver autonomia ou uma regressão em habilidades conquistadas depois de meses de esforço.

Por isso, quando começaram a circular notícias sobre o descredenciamento de clínicas que atendiam crianças com Transtorno do Espectro Autista, a reação das famílias foi imediata.

Grupos de WhatsApp passaram a funcionar quase ininterruptamente. Mães compartilhavam prints de aplicativos, protocolos de atendimento, decisões judiciais, listas de advogados e contatos de outras famílias vivendo a mesma situação.

Foi por uma dessas mensagens que Mayara soube que a clínica onde seu filho realizava terapias deixaria de integrar a rede credenciada.

Marilene também não recebeu uma comunicação formal da operadora antes de ouvir falar sobre as mudanças.

Thatyane precisou explicar para a própria filha por que talvez não voltasse a encontrar as terapeutas com quem ela havia criado laços.

Nenhuma delas descreve a experiência como um problema meramente burocrático.

Falam de noites sem dormir, crises de ansiedade, dificuldade para manter a concentração no trabalho e medo constante de que os filhos fiquem sem atendimento.

O Ministério Público incorporou esse aspecto humano à ação civil pública ao afirmar que a reorganização das terapias repercute diretamente sobre toda a estrutura familiar. A petição menciona relatos de mães que planejam seus dias inteiros em torno das necessidades dos filhos e que passaram a viver sob forte insegurança diante da possibilidade de interrupção do tratamento.

Em um trecho particularmente simbólico, o órgão sustenta que não cabe aos consumidores assumir o ônus de procurar, por conta própria, novos prestadores capazes de oferecer serviços equivalentes.

Na prática, porém, foi exatamente isso que muitas famílias disseram ter feito.

Receberam listas de clínicas, passaram horas ao telefone tentando localizar vagas, verificaram endereços, calcularam distâncias e tentaram compatibilizar horários que muitas vezes não coincidiam com a rotina escolar das crianças ou com a jornada de trabalho dos responsáveis.

Para quem depende de múltiplas especialidades, psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicopedagogia e fisioterapia, por exemplo, a simples divisão dos atendimentos entre bairros diferentes pode transformar um planejamento viável em uma missão quase impossível.

Uma mãe que antes fazia uma única viagem pela manhã pode precisar atravessar a cidade três ou quatro vezes no mesmo dia.

Outra talvez tenha de abandonar o emprego.

Há ainda quem dependa exclusivamente de transporte coletivo ou da ajuda de familiares para se locomover.

Esses custos raramente aparecem nos contratos.

Também não constam das planilhas financeiras.

Mas recaem diariamente sobre quem precisa garantir que uma criança compareça às terapias prescritas.

Na nota divulgada sobre o caso, a Unimed Goiânia afirma que vem ampliando sua capacidade de atendimento especializado, com a abertura gradual de novas clínicas voltadas ao público com TEA. A cooperativa ressalta que busca assegurar continuidade assistencial e preservar a qualidade do serviço prestado aos beneficiários.

Do ponto de vista institucional, a estratégia representa um investimento na expansão da própria rede.

Sob a ótica das famílias, contudo, permanecem dúvidas sobre a capacidade dessas unidades de absorver rapidamente todos os pacientes impactados e de oferecer atendimento equivalente ao anteriormente recebido.

É justamente essa divergência que está no centro do litígio.

A discussão já não se limita ao Instituto Kids ou a uma única clínica.

Nos bastidores das entrevistas concedidas pelas mães, surge um sentimento recorrente de preocupação com o futuro da assistência especializada em Goiás. Muitas relatam que este não foi um episódio isolado e mencionam mudanças anteriores envolvendo outras unidades de atendimento.

Há o receio de que a instabilidade se torne permanente.

Que vínculos terapêuticos passem a ser interrompidos antes mesmo de amadurecer.

Que crianças em plena fase de desenvolvimento sejam obrigadas a reiniciar processos de adaptação repetidas vezes.

Enquanto isso, profissionais de saúde também acompanham o caso com atenção.

Em terapias voltadas ao autismo, a construção da confiança costuma exigir semanas ou meses de convivência. Pequenos avanços são celebrados como conquistas importantes justamente porque dependem de repetição, consistência e previsibilidade.

Não é raro que uma única palavra pronunciada pela primeira vez seja resultado de dezenas de encontros anteriores.

Por trás de cada gesto aparentemente simples existe um trabalho silencioso que envolve planejamento, observação clínica e diálogo constante com a família.

Quando esse processo é interrompido, o impacto não pode ser medido apenas pelo número de sessões canceladas.

Ele se manifesta em comportamentos que deixam de evoluir, habilidades que precisam ser reaprendidas e rotinas que voltam à estaca zero.

É por isso que tantas mães utilizam uma mesma expressão ao descrever o que está acontecendo: “quebra do vínculo terapêutico”.

Não falam apenas da perda de um profissional.

Falam da ruptura de uma relação construída pacientemente, dia após dia, entre crianças que muitas vezes encontram dificuldades para estabelecer conexões e adultos que aprenderam a compreender seus gestos, seus silêncios e suas formas particulares de comunicação.

Enquanto o Judiciário analisa pedidos de tutela e o Ministério Público sustenta que houve violação aos direitos dos consumidores, essas famílias continuam vivendo uma realidade que não cabe integralmente nos autos.

Ela acontece nas salas de espera, nos corredores das clínicas, dentro dos carros estacionados e nas conversas travadas em aplicativos de mensagens durante a madrugada.

É uma rotina feita de planilhas improvisadas, agendas coloridas e lembretes espalhados pela casa para que nenhuma consulta seja esquecida.

Sobretudo, é uma rotina sustentada pela esperança de que a continuidade do tratamento seja preservada.

Porque, para essas mães, o maior patrimônio em disputa nunca foi um contrato de prestação de serviços.

Sempre foi o futuro dos filhos.

Leia a nota da Unimed Goiânia na íntegra:

A Unimed Goiânia informa que os processos de descredenciamento com as Clínicas Instituto Kids e MCB ocorreram após a identificação de não conformidades em relação aos critérios técnicos, assistenciais e contratuais exigidos para a manutenção do credenciamento. A Clínica Instituto Desenvolver Kids não foi descredenciada de forma unilateral pela Unimed e sim por solicitação da própria clínica. Já em relação a Clínica Mundo Kids, o descredenciamento também ocorreu a pedido da própria clínica e a cooperativa conseguiu manter, dentro do possível, os mesmos profissionais realizando os atendimentos aos beneficiários.  

Nos casos em que há necessidade de descontinuidade do atendimento por determinado prestador, a cooperativa adota um plano de transição assistencial para garantir que os beneficiários não fiquem desassistidos. As famílias são orientadas quanto às alternativas disponíveis na rede própria e credenciada, sempre com o objetivo de preservar a continuidade terapêutica dos pacientes.

Paralelamente, a Unimed Goiânia vem ampliando sua capacidade de atendimento por meio da abertura de novas unidades especializadas e do fortalecimento da rede assistencial voltada a pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ao todo, a cooperativa prevê a implantação de dez clínicas especializadas, sendo que seis delas já estão em operação, além do reforço permanente dos processos de auditoria e monitoramento dos serviços prestados.

A cooperativa reafirma que todas as medidas adotadas têm como prioridade a segurança assistencial, a qualidade do atendimento e a proteção dos beneficiários, especialmente das crianças e famílias que necessitam de acompanhamento especializado.

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