O descredenciamento de clínicas especializadas no atendimento de crianças autistas pela Unimed Goiânia provocou reação de famílias atendidas pela operadora em Goiânia. Mães de crianças neurodivergentes denunciam falta de comunicação prévia, ausência de vagas suficientes na rede credenciada e risco de regressão no desenvolvimento dos filhos devido à interrupção abrupta dos tratamentos.

Entre as unidades afetadas estão o Instituto Kids, Mundo Kids, MCB Espaço Terapêutico e IDK Instituto Desenvolver Kids. Segundo relatos de famílias ouvidas pelo Jornal Opção, os atendimentos serão mantidos apenas até o dia 14 de junho no Instituto Kids. A expectativa é de que a medida impacte o tratamento de ao menos 200 crianças.

Mães relatam que descobriram o descredenciamento por meio das próprias clínicas ou de terapeutas, sem aviso formal da operadora. Além da preocupação com a continuidade do tratamento, o principal temor é o impacto emocional e cognitivo causado pela quebra do chamado vínculo terapêutico, considerado fundamental no atendimento de crianças autistas.

A advogada e mãe atípica Giselle Oliveira afirma que representa famílias que já organizam ações judiciais individuais e coletivas contra a decisão da operadora.

“As crianças neurodivergentes precisam muito de adaptação. Não é simplesmente acabar aqui e ir para outro lugar. Existe vínculo com os terapeutas, com o ambiente, com a rotina e com toda a equipe”, afirma.

Segundo ela, os filhos realizam acompanhamento no Instituto Kids há quase dois anos. Entre as terapias afetadas estão psicopedagogia, terapia ocupacional, psicologia, fisioterapia, psicomotricidade e fonoaudiologia.

“O que nos preocupa é que as clínicas oferecidas pela Unimed não possuem a quantidade de horas necessárias para atender os nossos filhos. Os meus fazem quatro horas de terapia por dia. Em muitos lugares existe apenas uma hora disponível”, relata.

Giselle afirma ainda que as famílias tentam recorrer ao Judiciário para impedir a interrupção imediata dos tratamentos.

“O que nos resta é entrar com ação judicial com pedido de liminar ou encontrar outra clínica credenciada que consiga suprir todas as necessidades determinadas pelo laudo neuropediátrico”, diz.

“Vai começar tudo do zero”, dizem mães

Marcela Alvarenga, mãe do pequeno Saulo, também relata indignação com a forma como a situação foi conduzida. O filho realiza cerca de 16 horas semanais de terapias no Instituto Kids, em seis modalidades diferentes: psicologia, psicopedagogia, psicomotricidade, fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

Marcela Alvarenga e Saulo | Foto: Arquivo Pessoal

“Fomos avisados primeiro por uma das terapeutas e, depois, pela clínica. Da Unimed, não recebemos nenhum comunicado oficial”, afirma.

Marcela explica que o filho demorou meses para se adaptar à rotina terapêutica e criar confiança com os profissionais que o acompanham. Segundo ela, o vínculo construído ao longo do tratamento é essencial para a evolução da criança.

“As crianças autistas têm muita dificuldade de adaptação. Existe o vínculo terapêutico, que demora muito tempo para ser construído. Até a criança se sentir confortável naquele espaço e com aquele terapeuta leva meses”, relata.

Ela afirma que a possibilidade de mudança repentina gera insegurança e medo de regressão no desenvolvimento do filho.

“Eu nem quero pensar na possibilidade de tirar meu filho de lá. Isso seria extremamente danoso para ele”, diz.

Segundo Marcela, as famílias tentam atuar em duas frentes: ações individuais na Justiça e articulação coletiva junto ao Ministério Público. Para ela, o principal problema não está necessariamente no descredenciamento das clínicas, mas na forma como a medida foi conduzida pela operadora.

“O descredenciamento em si não é ilegal. O problema é a forma como isso está sendo feito, sem comunicação adequada e sem um prazo razoável para reorganização das terapias”, argumenta.

A psicóloga Nádia Ribeiro, mãe do menino Miguel, de sete anos, relata situação semelhante. Ela conta que descobriu o descredenciamento pelo perfil da clínica nas redes sociais e afirma que, até o momento, não recebeu qualquer comunicação formal da operadora.

“Quem avisou foi o Instagram da clínica. Ninguém da Unimed entrou em contato comigo. Simplesmente descobrimos pelas redes sociais”, afirma.

Miguel realiza sessões de psicologia, pedagogia e fonoaudiologia há quase dois anos na unidade. Segundo Nádia, o processo de adaptação foi longo e exigiu acompanhamento contínuo até que o filho conseguisse estabelecer confiança com os profissionais.

Para ela, uma mudança abrupta pode trazer consequências emocionais e cognitivas severas. “Tem criança que não aceita o novo. Vai precisar começar tudo do zero: novo ambiente, novo terapeuta, nova rotina. Isso pode causar regressão no desenvolvimento”, explica.

Nádia é mães de Miguel, de 7 anos | Foto: Arquivo Pessoal

Ela também critica a ausência de planejamento na transição dos atendimentos.

“Ninguém pensou no impacto para as crianças. Apenas comunicaram que o atendimento vai acabar”, afirma.

Clínicas relatam insegurança e pressão sobre rede de atendimento

Representantes de uma das clínicas afetadas, ouvidos sob anonimato, afirmam que o descredenciamento foi comunicado com prazo aproximado de 45 dias. Segundo a unidade, a justificativa informal apresentada pela operadora estaria relacionada à ampliação de estruturas próprias da Unimed para absorver os atendimentos.

A clínica estima que mais de 200 famílias serão impactadas diretamente pela medida. “São milhares de sessões mensais interrompidas”, afirma um dos representantes.

Segundo os profissionais, a principal preocupação é a insuficiência da rede disponível para absorver toda a demanda. Eles relatam que muitas famílias já enfrentam dificuldades para encontrar vagas compatíveis com a carga horária terapêutica exigida pelos laudos médicos.

“As mães já relatam dificuldade para encontrar vagas. Muitas clínicas credenciadas simplesmente não conseguem atender a carga horária necessária”, diz.

Os representantes também afirmam existir diferenças importantes entre os atendimentos oferecidos nas clínicas especializadas e aqueles realizados em unidades próprias da operadora. Entre os principais pontos levantados estão a redução do tempo das sessões e o uso de acompanhantes terapêuticos sem supervisão adequada de profissionais especializados.

“Aqui as terapias têm duração de uma hora. Em algumas unidades próprias da operadora, as sessões são de apenas 30 minutos. E muitas vezes o atendimento é feito por acompanhantes terapêuticos, e não por profissionais especializados”, relata.

Segundo a clínica, a mudança abrupta compromete anos de construção terapêutica e pode gerar impactos significativos no desenvolvimento das crianças. “A criança neurodivergente se habitua ao espaço, aos profissionais, à recepção, ao acolhimento. Tudo isso faz parte do tratamento. Você muda completamente a rotina da criança de uma hora para outra”, afirma.

Um dos relatos mencionados pelos profissionais é o de uma criança com Transtorno do Espectro Autista e síndrome de Down, atendida desde os seis meses de idade. Hoje, aos cinco anos, ela precisará mudar de ambiente terapêutico. “É uma construção de anos sendo interrompida de forma abrupta”, diz o representante.

Crescimento da demanda por terapias

As famílias também apontam dificuldade financeira para manter tratamentos particulares caso não consigam reverter a situação judicialmente. Segundo mães ouvidas pela reportagem, sessões particulares podem custar entre R$ 150 e R$ 180 cada.

Em muitos casos, as crianças realizam entre 20 e 40 horas semanais de acompanhamento multidisciplinar, o que torna o custo praticamente inviável para grande parte das famílias.

“É inviável para a maioria das famílias”, afirma Giselle Oliveira.

O aumento no número de diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento nos últimos anos também ampliou a demanda por terapias especializadas, especialmente aquelas baseadas na metodologia ABA, utilizada pelas clínicas descredenciadas.

Profissionais da área afirmam que, atualmente, há escassez de vagas em Goiânia para atendimentos especializados de longa duração, sobretudo para crianças que necessitam de alta carga horária terapêutica.

O que diz a Unimed Goiânia

Em nota enviada ao Jornal Opção, a Unimed Goiânia afirmou que “todas as disposições previstas nos respectivos contratos de prestação de serviços foram integralmente observadas”.

A cooperativa declarou ainda que segue “comprometida com a continuidade da assistência, assegurando aos beneficiários atendimento adequado e qualificado por meio de sua rede credenciada”.

Por fim, a operadora garantiu que “ninguém ficará desassistido”.

Leia a íntegra da nota da Unimed

A Unimed Goiânia – Cooperativa de Trabalho Médico esclarece que todas as disposições previstas nos respectivos contratos de prestação de serviços foram integralmente observadas e que segue comprometida com a continuidade da assistência, assegurando aos beneficiários atendimento adequado e qualificado por meio de sua rede credenciada. A cooperativa garante, ainda, que ninguém ficará desassistido.

Leia também

Mães atípicas defendem colônias de férias inclusivas para crianças com autismo