Um paciente americano de 66 anos com doença renal em estágio terminal bateu o recorde mundial de sobrevivência com um rim de porco geneticamente modificado, foram 271 dias sem necessidade de diálise. O feito, liderado pelo médico brasileiro Leonardo Riella, professor da Harvard Medical School, aproxima a humanidade de uma realidade antes restrita à ficção científica: viver com órgãos de animais.

Tim Andrews, diagnosticado com insuficiência renal causada pelo diabetes tipo 2, recebeu o órgão suíno em 25 de janeiro de 2025 no hospital Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos. Antes do procedimento, o paciente enfrentava uma rotina exaustiva de sessões frequentes de diálise, dependia de cadeira de rodas para se locomover e via sua qualidade de vida ser drasticamente reduzida. 

Após a cirurgia, Andrews retomou suas atividades favoritas, como acampar, cortar madeira e carregar peso, uma transformação que, segundo Riella, foi imediata. “Pouco tempo depois da cirurgia, ele já tinha uma vida normal. Era uma outra vida”, relatou o médico.

Tim Andrews comemorando o transplante após recuperação | Foto: Kate Flock/Massachusetts General Hospital

De acordo com os especialistas responsáveis pelo caso, esse é o período mais longo já registrado para o funcionamento de um rim suíno transplantado em um paciente humano. O avanço, porém, não aconteceu por acaso. O órgão utilizado passou por um processo de edição genética, no qual foram eliminados os principais alvos de rejeição do corpo humano. 

Dessa forma, a chance de o organismo atacar o rim transplantado foi reduzida drasticamente. Um rim de porco comum, vale destacar, não poderia ser transplantado diretamente, pois o sistema imunológico humano reconheceria o tecido como estranho e desencadearia uma reação capaz de destruir o órgão em poucos minutos.

Apesar do sucesso inicial, o rim começou a apresentar problemas em outubro de 2025. Os vasos sanguíneos do órgão sofreram danos e uma inflamação se desenvolveu, comprometendo sua função. Os médicos não conseguiram determinar exatamente a causa, mas o caso não apresentou sinais de que anticorpos estivessem atacando o rim do porco. Diante desse quadro, o órgão precisou ser retirado, e Andrews voltou a fazer diálise por 82 dias. Em janeiro de 2026, no entanto, ele recebeu um rim de um doador humano, que está funcionando bem até o momento.

O paciente Tim Andrews (ao centro) com o Dr. Tatsuo Kawai (à esquerda) e o Dr. Leonardo Riella (à direita) | Foto: Kate Flock/Massachusetts General Hospital

Para se ter uma dimensão do problema que a xenotransplantação busca resolver, atualmente 45 mil pessoas aguardam por um transplante renal no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. O transplante renal é um dos mais realizados no país, mas a demanda ainda supera a oferta. Nos Estados Unidos, Andrews foi informado de que poderia esperar sete anos até chegar ao topo da lista para receber um órgão humano, um período que supera a sobrevida média de cinco anos para pacientes em diálise.

Há décadas, pesquisadores tentam viabilizar o transplante de órgãos de animais em humanos, e os porcos são os principais candidatos devido ao tamanho compatível e à experiência acumulada na criação desses animais. De acordo com Riella, a expectativa é que o xenotransplante se torne uma realidade para pacientes nos próximos cinco anos, funcionando inicialmente como uma ponte para o transplante humano. A longo prazo, no entanto, a ambição é que o paciente não precise mais de um órgão humano.

No artigo publicado na revista The Lancet, os médicos responsáveis pelo caso afirmaram: “Este caso ilustra tanto a promessa quanto os desafios que permanecem na xenotransplantação clínica de rins”.

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