Em meio à corrida eleitoral de 2026, a distribuição de verbas partidárias no estado de Goiás está chamando a atenção. O candidato a deputado estadual Ismael Calom (PT), representante da etnia cigana, não recebeu nenhum valor em recursos do fundo partidário. A decisão levou a Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás a divulgar uma nota de repúdio.

Segundo relatou Ismael Calom, sua insatisfação surgiu após perceber que sua campanha foi totalmente desassistida financeiramente pela sigla. “Uma decepção muito grande de ser um partido que, teoricamente, seria de inclusão, excluiu a nossa candidatura”, desabafou o candidato. Ele afirmou a representatividade de sua campanha, que abrange uma comunidade de mais de 22 mil ciganos somente em Goiás e cerca de 1 milhão em todo o território nacional. “Nós não estamos cobrando privilégios, nós só queremos direitos iguais”, afirmou Ismael, que também é policial militar da reserva, acrescentando que, após a divulgação da nota de repúdio, a deputada Adriana Accorsi teria iniciado uma “perseguição” e o ignorado nas redes sociais.

A nota oficial da Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás classifica a situação como uma “profunda preocupação”, destacando que Ismael Calom “não representa apenas uma candidatura individual, mas uma oportunidade concreta de levar a voz da população cigana para dentro do Parlamento”. 

A entidade ressalta que a inclusão política precisa sair do discurso e chegar à prática, cobrando esclarecimentos e questionando a compatibilidade entre a atitude do partido e os princípios de justiça social defendidos pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A população cigana existe, participa, trabalha, vota e também quer representação política”, enfatiza a associação em seu manifesto.

Ismael Calom conta que recebeu o apoio moral do deputado federal Rubens Otoni, embora os recursos financeiros ainda não tenham sido liberados. O candidato, que nasceu em Catalão, em 1973, e possui número de urna 13190, afirma que sua resistência se mantém firme através das redes sociais, que, segundo ele, abrangem 117 municípios goianos. “Nossa luta não é apenas por uma candidatura. É pela voz de milhares de ciganos e ciganas”, reitera a associação.

Confira nota completa da Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás:

NOTA DE REPÚDIO

Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás

A Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás vem a público manifestar seu profundo repúdio e indignação diante da classificação da candidatura de Ismael Calom, candidato a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Goiás, com valor de R$ 0,00 em recursos partidários, conforme informado à Associação.

Ismael Calom não representa apenas uma candidatura individual. Trata-se de um cigano que há anos luta pela visibilidade, dignidade, cidadania, justiça social e inclusão da população cigana, levando para o espaço político uma comunidade historicamente invisibilizada.

Em Goiás, estamos falando de mais de 22 mil pessoas da etnia cigana, que também têm o direito de serem ouvidas, representadas e incluídas nos espaços de decisão política. No Brasil, a população cigana é estimada em cerca de 1 milhão de pessoas, que igualmente lutam por reconhecimento, respeito, políticas públicas e participação social.

Por isso, causa profunda preocupação que uma candidatura que carrega essa representatividade seja tratada com valor zero de recursos partidários.

A Associação entende que essa situação precisa ser esclarecida e debatida, pois inclusão não pode existir apenas no discurso. Ela precisa se materializar também nas oportunidades, na participação política e no acesso às estruturas necessárias para que representantes de grupos historicamente marginalizados possam disputar eleições em condições minimamente justas.

Essa situação também nos leva a questionar a coerência entre a prática partidária e os princípios de inclusão, diversidade, participação popular e justiça social historicamente defendidos pelo campo político do qual fazemos parte e pelas políticas de inclusão associadas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não estamos reivindicando privilégio. Estamos reivindicando respeito, igualdade de condições e reconhecimento político.

A candidatura de Ismael Calom representa uma oportunidade concreta de levar a voz da população cigana para dentro do Parlamento. Silenciar ou deixar sem estrutura uma candidatura que busca representar uma comunidade historicamente invisibilizada significa, em nossa avaliação, perder uma oportunidade de ampliar a democracia e a representatividade política brasileira.

A Associação Estadual da Etnia Cigana de Goiás reafirma que continuará defendendo a participação política da população cigana e cobrando dos partidos políticos compromissos concretos com a inclusão e a diversidade.

Nossa luta não é apenas por uma candidatura. É pela voz de milhares de ciganos e ciganas de Goiás. É pela voz de aproximadamente 1 milhão de brasileiros pertencentes à população cigana. É pelo direito de todos os povos historicamente invisibilizados ocuparem os espaços onde são tomadas as decisões que afetam suas vidas. Não queremos privilégios. Queremos igualdade. Não queremos favores. Queremos oportunidades. Não queremos ser lembrados apenas em discursos. Queremos participar das decisões.

A população cigana existe, participa, trabalha, vota e também quer representação política. Inclusão política precisa sair do discurso e chegar à prática.

ASSOCIAÇÃO ESTADUAL DA ETNIA CIGANA DE GOIÁS

Em defesa da dignidade, da representatividade e da inclusão política do povo cigano.”

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