O Estado de Goiás é um dos polos esportivos mais diversificados do Brasil, transcendendo a histórica paixão pelo futebol para revelar atletas de elite e sediar eventos nacionais em modalidades como vôlei, taekwondo, paraciclismo, vôlei sentado, beach tennis e kickboxing. O salto qualitativo acompanha o fortalecimento de políticas públicas estaduais (com destaque para o programa Pró-Goiás Atleta, que dobrou de 600 para 1.200 beneficiários e reajustou em 100% o valor das bolsas), além da criação da categoria Internacional, cujo repasse mensal de R$ 2.100 supera o auxílio equivalente oferecido pelo Bolsa Atleta do Governo Federal. 

A expansão não se restringe ao alto rendimento e muitos projetos de iniciação esportiva como o Construindo Campeões atendem mais de 15 mil alunos em artes marciais, enquanto a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer mantém turmas gratuitas de vôlei, basquete, futsal, natação e hidroginástica para crianças e adolescentes em todo o território goiano.

O Jornal Opção conversou com atletas beneficiados por esses programas e percorreu os bastidores de modalidades que têm colocado Goiás no mapa do esporte brasileiro. As histórias revelam trajetórias de superação, rotinas extenuantes de treinamento e conquistas que mostram as competições disputadas da América do Sul à Ásia.

Paraciclismo: Goiás como rota do esporte adaptado nacional

O paraciclismo goiano já é uma referência para o calendário brasileiro da modalidade. A Federação Goiana de Ciclismo (FGC) articulou a inclusão do estado em eventos decisivos, como o GP Goiás de Paraciclismo, realizado em Bela Vista de Goiás e válido pelo ranking nacional, e a etapa final da Copa Brasil de Paraciclismo de Estrada, sediada em Goiânia com estrutura técnica montada no Alpha Park Hotel, na região do Alphaville Flamboyant. 

O local conta ainda com o suporte de instituições como a ASPAEGO (Associação Paralímpica do Estado de Goiás), a ADFEGO (Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás) e o projeto Na Bike com Deficiente Visual, que promove passeios inclusivos em bicicletas tandem na capital.

Entre os protagonistas dessa cena está Victor Luise, atleta de 44 anos que acumula 12 anos dedicados ao paraciclismo e já disputou nove campeonatos mundiais. Atualmente nos Estados Unidos para mais uma edição do Mundial, ele detalhou sua rotina de preparação. “Eu costumo treinar na média de 12 horas por semana quando eu estou em período pré-competitivo ou eu estou semanas de descanso. Mas nos períodos de competição são em torno de 14 a 21 horas de treinos por semana.” Além das pedaladas, Luise incorpora musculação e natação à sua agenda semanal. “Eu nado duas vezes na semana mais pra relaxar, ter um controle corporal. Faço academia mais duas vezes na semana.”

Victor Luise | Foto: Divulgação

A trajetória do atleta começou no halterofilismo paralímpico, mas uma lesão inesperada mudou seu destino esportivo. “Numa prova de ciclismo eu tive uma queda, e aí eu luxei o ombro. E aí a partir dessa lesão, eu ia ficar um tempo sem poder praticar o levantamento de peso.” A adversidade, contudo, abriu caminho para o que ele considera sua verdadeira vocação. Em 2015, Luise abandonou o emprego como editor de vídeo e passou a competir profissionalmente. 

Os resultados vieram rapidamente: títulos brasileiros consecutivos, convocações para a seleção e, mais recentemente, a primeira medalha em etapa de Copa do Mundo, conquistada na Tailândia. “Foi o resultado mais expressivo que eu tive em questão de internacional. Aí eu fiquei surpreso justamente porque quando eu estava mais experiente e  mais velho, foi o melhor resultado.”

O atleta também destacou as condições estruturais oferecidas em Goiás, como o acesso ao Autódromo Internacional de Goiânia Ayrton Senna para treinos e a liberação da Marginal Cascavel pela Secretaria Municipal de Trânsito às terças e quintas-feiras. “Essas aí são coisas que fomentam o nosso esporte e já há muito tempo acontecem em Goiânia.” Sobre o apoio financeiro, Luise avaliou o impacto do Pró-Goiás Atleta: “Essa conquista que eu obtive, a medalha lá na Tailândia, foi uma prova que a seleção não foi. Eu tive o apoio logístico da Confederação Brasileira de Ciclismo, me ajudando a organizar, mas os custos financeiros foram bancados por minha parte, mas graças ao Pró-Goiás Atleta.” E completou: “Pra você ter uma ideia, uma prova dessa que a gente corre aqui nos Estados Unidos, uma passagem, teve um colega nosso que veio com uma passagem de 12 mil reais, pra despachar as bicicletas é mais de R$ 2.500. Então só pra estar aqui a pessoa já tá gastando praticamente 15 mil reais.”

MMA: Goiás revela talentos no octógono 

O MMA goiano vive um momento de crescimento, impulsionado por academias que formam atletas completos ao combinar fundamentos de boxe, muay thai, jiu-jitsu e wrestling. A capital concentra o maior número de lutadores profissionais e centros de treinamento, mas o interior também se destaca. Rio Verde, por exemplo, já sediou importantes campeonatos estaduais de artes marciais. Eventos como o NP FIGHT MMA e edições do Future MMA em Goiânia mostram os novos talentos que buscam projeção nacional e internacional.

Entre eles está Karine Cardoso Cristal, de 21 anos, natural de Anicuns, cidade do interior goiano. Conhecida como Cristal, a lutadora profissional de MMA encontrou no esporte um caminho de transformação pessoal que começou ainda na infância. “Quando eu tinha 11 anos, estava entrando no quadro de obesidade. Meus pais então resolveram me colocar em um esporte. E como meu pai já havia sido capoeirista na juventude, então escolheu a capoeira para me ajudar.” A escolha mudou sua vida de forma definitiva. 

Aos 13 anos, ela já competia profissionalmente na capoeira e acumulava títulos estaduais e brasileiros, até alcançar o auge da modalidade com a conquista do campeonato mundial em Baku, no Azerbaijão, em 2018. “Depois disso, fiquei conhecida na capoeira e entendi que aquele mundo de competições era algo que eu queria pra vida.”

Karine Cardoso Cristal | Foto: Reprodução

A transição para o MMA foi um processo gradual, que passou pelo muay thai aos 13 anos e pelo jiu-jitsu aos 16. “Foi um longo caminho até chegar ao MMA, mas foi através da capoeira que eu me descobri como atleta.” Essa descoberta a levou, recentemente, à estreia no MMA profissional no México, em um evento de grande porte: o BUDO 35, na Cidade do México. A luta terminou com vitória e marcou um novo capítulo em sua trajetória. “Foi uma luta que sempre terá um espaço especial no meu coração. Ainda mais por termos alcançado o resultado positivo.”

A rotina de preparação de Cristal é marcada por uma intensidade que beira a exaustão. “São de 1 a 2 horas de treino e muitas vezes, treinos fracionados em 3 vezes ao dia. Às vezes por conta da alta intensidade e dores musculares, os treinos duram apenas 40 minutos, mas, para um corpo já exausto, parece horas.” A divisão dos treinos segue uma lógica que prioriza o condicionamento físico pela manhã, com foco em cardio, corrida, bike e isometria. 

A alimentação também exige disciplina extrema. “Um corpo sem açúcar, carboidratos reduzidos e proteína em todas as refeições é dureza. Tenho um acompanhamento específico com uma nutricionista, que cuida da minha alimentação e controle de peso.”

Sobre suas fortalezas dentro do octógono, Cristal aposta na herança da capoeira. “A capoeira é o meu ponto mais forte, então meus chutes costumam ser bons.” No entanto, ela reconhece que há muito a evoluir. “A parte de chão precisa ser melhorada. Mas o boxe é o que mais preciso evoluir, a movimentação em pé não foi muito forte na última luta, então estamos treinando muito essa parte.”

Questionada sobre o apoio do estado para atletas de MMA, a lutadora apontou lacunas. “O Estado na maioria das vezes está muito ‘ocupado’ no mundo do futebol. Tanto que, muitas vezes, não sobra nada para nós das artes marciais.” Cristal foi bolsista do programa Pró-Atleta na capoeira por dois anos e reconhece a importância do auxílio, ainda que limitado. “Me ajudou bastante. Pois todo apoio, por mais que pouco, é de grande valia para um atleta que precisa se alimentar bem, dormir bem e treinar bem.” 

Ela defende a criação de estruturas específicas para o desenvolvimento das lutas. “Precisaríamos de academias personalizadas com ringues, tatames e materiais específicos para um projeto em que ajudaria jovens a se interessarem por lutas. Talento é algo que não falta no nosso estado, mas talento sem apoio quase nunca vai pra frente.”

Apesar das dificuldades, Cristal mantém uma rede de apoio fundamental. “Tenho sorte em ter uma família, alunos e amigos que em todas as viagens me ajudam financeiramente. Caso isso não acontecesse, eu jamais teria conseguido e tido condições de chegar a um evento tão grande como o BUDO 35 na CDMX.”

Os planos para o futuro carregam um sonho que move a carreira. “Estamos trabalhando muito para conseguir chegar no UFC ou ao menos, em um evento de tamanha magnitude. Quero conseguir retribuir o melhor para a minha família e meus treinadores, que depositam tempo, confiança e que sempre acreditam em mim.” Sobre as próximas competições, ela mantém o foco no objetivo maior. “Todas que me fizerem chegar mais perto do objetivo de um dia estar entre os melhores será um alvo a ser alcançado. Se um dia esse sonho não se realizar, com toda certeza não será por falta de vontade ou coragem.” 

Voleibol: representação na elite nacional e base em expansão

O voleibol goiano vive uma fase de projeção nacional com o Saneago Goiás Vôlei disputando a Superliga A masculina, principal competição do país. Paralelamente, a Liga Goiana de Voleibol (LGV) organiza torneios que reúnem mais de 140 equipes, enquanto projetos sociais e escolinhas mantêm a modalidade acessível em unidades do SESI Goiás, clubes como APCEF/GO e Clube de Engenharia, além de associações como o Instituto ACE e a AEVP Vôlei Pró.

Robert Weverton, jogador de 29 anos, conheceu o vôlei por acaso aos 16, após uma passagem frustrada pelo futebol. “Eu caí de paraquedas no vôlei, porque eu fazia futebol com meus irmãos, só que aí eu cresci um pouquinho mais que eles, daí eu fiquei mais sem jeito, mais desengonçado.” A descoberta ocorreu durante uma aula de natação, quando um professor o convidou para experimentar o esporte. Desde então, Weverton construiu carreira profissional e integrou projetos que marcaram época no cenário local, como o time da Liga SESC e a equipe da Associação Atlética Neurologia Ativa.

Robert Weverton | Foto: Divulgação

O atleta descreveu a rotina de preparação de um voleibolista de alto rendimento, combinando prevenção de lesões e trabalho técnico. “A gente faz academia voltado para recuperação muscular. Então é fortalecimento do ombro, joelho, tornozelo, abdômen, todos os músculos que a gente mais usa durante o jogo.” Além disso, destacou a dualidade entre treinos matinais de fundamentos e coletivos à tarde, seguidos por sessões de fisioterapia, alongamento e pilates.

Weverton também avaliou a evolução recente da modalidade no estado. “De um tempo pra cá, o Neurologia Ativa, o Goiás Vôlei estão se destacando muito, então melhorou muito a questão da visibilidade do vôlei no estado.” Apesar dos avanços, ele apontou lacunas no suporte a jovens atletas. “Muitas das vezes, a família não tem condições de manter alguns 100% dentro do esporte, porque a gente pensa que não tem gasto, mas acaba tendo alguns, porque a gente precisa do material para treinar, por exemplo, tênis, uniformes.”

Sobre o acesso aos programas de incentivo, Weverton fez ressalvas.”Até a gente que é do meio, é do esporte, tem pouco conhecimento sobre como fazer para aderir essas bolsas. Muitas das vezes, a gente envia a documentação, só que não chega a ser homologada, ou até é homologada, só que a gente não tem conhecimento.” Ainda assim, ele reconhece o potencial de Goiás: “Aqui em Goiás tem muitos atletas bons. A falta realmente é uma base adulta e de categoria de base para acolher todo mundo.”

Taekwondo: conquistas e interiorização do esporte

O taekwondo goiano alcançou um patamar inédito de competitividade. No Super Campeonato Brasileiro de 2026, a delegação estadual conquistou 42 medalhas, sendo 13 de ouro, enquanto no Campeonato Centro-Oeste assegurou o primeiro lugar geral por equipes. A Federação Goiana de Taekwondo (FGTKD) coordena as seleções estaduais e mantém parcerias com a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD), ao passo que projetos sociais como o Construindo Campeões fornecem quimonos e luvas gratuitamente para milhares de alunos em mais de 100 municípios.

Patrick Pereira Cardoso, de 25 anos, é uma das faces mais visíveis desse movimento. Bicampeão pan-americano universitário (com ouros conquistados em Cali, na Colômbia, e bronze no México em 2022), o atleta de 2 metros de altura iniciou no esporte ainda na infância. “Minha mãe achou, através do esporte, um jeito de gastar minha energia. Então, sempre fui em um lugar rotativo, fazendo futebol. E aí, um certo dia, passando no meu bairro, acabei vendo uma academia e os meninos treinando lá.”

Patrick Pereira Cardoso | Foto: Divulgação

A transição para o alto rendimento ocorreu após uma competição nacional que o colocou em destaque. “A primeira competição importante foi um brasileiro, onde eu não fui campeão, mas sim fiquei em segundo lugar. Mas isso me acendeu uma chama.” Desde então, Cardoso acumula diversos títulos: medalha de bronze no Mundial Júnior da Tunísia, ouros no Grand Slam em 2018 e 2024, e convocações sucessivas para a seleção brasileira principal. “Já fui duas vezes titular da Seleção Brasileira.”

A rotina do taekwondista combina treinos físicos às 6 da manhã, sessões técnicas no fim da tarde e uma disciplina rigorosa. “A gente não bebe, a gente não fuma. A gente não vai pra festas. A gente precisa dormir direito, a gente não pode dormir tarde.” Além das competições, Cardoso formou-se em Direito por meio de bolsa esportiva e administra empresas próprias. “Eu sou empresário e também sou atleta de alto rendimento.”

Sobre o apoio institucional, o atleta ressaltou a importância dos programas estaduais: “O Pro Goiás Atleta e o Pro Goiás Esporte são benefícios que o Estado de Goiás disponibiliza para os atletas para termos um maior desempenho em relação a trazer resultados para o Estado de Goiás. Sem os equipamentos, sem o benefício de comprar passagens, alimentação, suplementação, a gente não consegue competir no mesmo nível com os outros atletas.” Para as novas gerações, ele deixa um recado: “Respeitem os pais. O maior benefício que você vai ter no esporte é se construir como um bom cidadão. Você vai conseguir ser admirado pelos seus pais, por outras crianças e vai ter vários benefícios, como cuidar da sua saúde”.

Vôlei sentado: potência paralímpica com identidade goiana

O voleibol sentado transformou Goiás em um dos principais locais de atletas paralímpicos do país. A modalidade, regulamentada pela Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD), conta com equipes de elite como Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás (ADFEGO) e a Associação Paralímpica do Estado de Goiás (ASPAEGO), que disputam os campeonatos brasileiros nas categorias masculina e feminina. A ADFEGO, aliás, conquistou a Série Prata masculina em 2025, enquanto a ASPAEGO acumula o vice-campeonato nacional feminino.

Adria Jesus da Silva, de 43 anos, é um dos nomes mais longevos e vitoriosos dessa trajetória. Ela descobriu o esporte aos 21 anos, após um acidente de moto ocorrido quando tinha 16. “Eu sofri um acidente de moto aos 16 anos, isso foi em 1999. Eu fui só ingressar no esporte aos 21 anos, nem sabia que existia esse mundo paralímpico.” O convite partiu de um treinador que a observou na sede da ADFEGO, onde ela trabalhava. “Eu falei para ele que eu não tinha nenhuma experiência. Nenhuma experiência no voleibol, até mesmo na escola.”

Adria Jesus da Silva | Foto: Divulgação

A adaptação foi intensa. “Eu tive que aprender do zero. Fazer manchete, toque, aprender a jogar o voleibol. Só que eu aprendi a jogar o voleibol sentada.” Em poucos meses, Adria já integrava a seleção brasileira e disputava seu primeiro Mundial na Holanda. Desde então, participou de quatro edições dos Jogos Paralímpicos e de seis campeonatos mundiais. A conquista mais marcante, porém, segue sendo a medalha de bronze nos Jogos do Rio 2016. “Foi a primeira medalha de uma equipe coletiva e feminina. Essa medalha vai ficar para a história.”

A atleta descreveu sua preparação atual: “Eu faço pilates, faço academia. Às vezes tem acompanhamento com fisioterapia. E no período da tarde eu treino. Eu treino duas horas e meia por dia”. Ela também enfatizou a dimensão coletiva do esporte. “Eu não jogo sozinha. E é a questão de ter responsabilidade com o meu corpo. Se eu não estiver bem, eu não vou poder contribuir com a minha equipe.”

Sobre o suporte governamental, Adria destacou a evolução dos programas de bolsa. “Hoje eu faço parte do programa da Bolsa Atleta na categoria Internacional. Foi criada em 2025. Onde ampara os atletas que têm o Índice Internacional.” Ela também celebrou a ampliação das iniciativas de base. “Hoje tem o Paradesporto junto com a Secretaria. Tem as Paralimpíadas escolares que são levadas das escolas. Você vê hoje esse programa muito grande de alunos, crianças, adolescentes participando e vendo que podem ser atletas.”

Beach tennis: o fenômeno que conquistou o Cerrado

O beach tennis despontou como um dos esportes de crescimento mais acelerado em Goiás. São mais de 5 mil praticantes, aproximadamente 100 arenas espalhadas pelo estado e uma política estadual específica de incentivo: a Lei nº 23.303. O calendário competitivo inclui o Circuito Goiano de Beach Tennis e o Circuito Interarenas, além de eventos de porte como o Barriga Open em Quirinópolis.

As arenas premium da capital transformaram-se em espaços de convivência que combinam esporte, gastronomia e lazer. A Arena Beach T3, no Setor Bueno, a Arena Botanic, no Setor Sul, e a Arena Serrinha, no Setor Pedro Ludovico, figuram entre os principais polos de treinamento e socialização. Já o Tucan Beach Tennis, no Jardim América, é uma sede oficial de etapas do circuito estadual graças à infraestrutura de quadras.

O perfil dos praticantes é diverso, com metodologias que permitem desde iniciantes absolutos até atletas profissionais competirem em categorias distintas. As aulas duram em média 60 minutos e, segundo adeptos, proporcionam condicionamento físico, alto gasto calórico e forte apelo social.

Entre as protagonistas desse movimento está Mariana Peracini, de 23 anos, que fez história ao se tornar a primeira goiana convocada para a seleção brasileira profissional de beach tennis. A trajetória de Mariana começou cedo, no tênis de quadra. “Começou quando eu tinha 9 anos de idade e eu comecei a competir nos campeonatos nacionais com 13 a 14 anos.” Aos 16, ela já figurava entre as quatro melhores do ranking brasileiro juvenil. Aos 18, chegou a ser a nona do Brasil na categoria 18 anos, mas a falta de patrocínio a impediu de seguir carreira profissional. “Eu não joguei profissional porque eu não tinha condição financeira e não tinha patrocínio suficiente. E eu não tenho condição, vim de família humilde, então pra mim era complicado.”

Mariana Peracini e dupla | Foto: Divulgação

A virada veio aos 19 anos, quando ela começou a dar aulas de beach tennis. “Eu encerrei no tênis e resolvi dar aula de beach, eu não queria jogar. Mas dando aula eu comecei em um playzinho ali outro aqui e logo já estava nos campeonatos goianos. Aí eu perdi um, perdi outro, aí eu falei: ‘Agora eu vou treinar porque eu não vou perder mais não’.”

A carreira decolou, mas um susto interrompeu o ritmo em dezembro de 2024. “Eu descobri uma trombose arterial e passei por uma cirurgia de emergência, corri riscos, eu realmente fiquei surpresa. E parei de jogar por oito meses. Eu estava numa fase dura da minha carreira, eu estava em 33º do mundo, quando tudo aconteceu.” A recuperação foi marcada por um retorno vitorioso. “O primeiro torneio eu já ganhei, então eu fiquei muito feliz. Foi muito importante para mim, porque a minha família estava presente nesse dia. Eles foram lá assistir. Então foi muito emocionante. E vir de volta às quadras logo com o título de campeã do BT100.”

Atualmente, Mariana concilia uma rotina exaustiva de aulas e treinos. “Hoje eu dou aula de 7h às 10h da manhã. Treino de 10h30 às 12h. Físico, pilates junto, acaba sendo uma hora de cada. E à tarde eu treino na quadra de 14h30 às 16h30 da tarde. E dou aula de 17h às 21h da noite.” Os fins de semana são tomados por competições. “Tem quatro finais de semana seguidos que eu estou em torneios. Esses últimos finais de semana, eu cheguei na final em todos. Então, eu estou bem exausta, mas feliz com os resultados.”

Sobre o apoio do Pró-Goiás Atleta, a atleta afirmou que “faz parte do projeto desde os 14 anos de idade.” O auxílio tem sido fundamental para cobrir despesas que vão de passagens a medicamentos contínuos. “Depois do meu problema de saúde, os remédios são bem caros. Então o Pró-Goiás Atleta me ajuda muito a manter isso.”

Para as crianças que sonham em seguir no esporte, Mariana disse que é importante “entender que as coisas não são no tempo que a gente quer. Entender que tem que ter paciência, tem que ter construção. Tem que ter dedicação. É preciso uma rotina. É possível quando você aprende que o esporte pode ser um trabalho.”

Kickboxing: um gigante internacional

O kickboxing goiano já é um ecossistema que conecta atletas amadores e profissionais à Confederação Brasileira de Kickboxing (CBKB). Três cidades formam o tripé do desenvolvimento: Valparaíso de Goiás, Senador Canedo e Goiânia. O Campeonato Goiano, realizado em março de 2026 em Senador Canedo, reuniu 260 atletas, enquanto a Copa Goiás de Valparaíso serviu como credenciamento direto para a Copa Brasil.

Zé Batista de Oliveira Benedito, atleta de 91 quilos, encontrou no kickboxing uma transformação pessoal completa. “O que me levou ao esporte foi o sobrepeso. Eu era uma pessoa acima do peso. Treinava musculação, fazia várias coisas para emagrecer e nada conseguia.” Ele ingressou em um projeto social em Senador Canedo sem intenção de competir. “Eu falei para o treinador: ‘Olha, eu não quero trocar porrada. Tem como eu treinar sem trocar porrada?’ Ele falou, tem.”

Zé Batista de Oliveira Benedito | Foto: Divulgação

A primeira competição veio 60 dias depois, nos Jogos da Primavera, onde conquistou a medalha de bronze. “Foi despretensioso, eu pensei: ‘Eu posso ser melhor, com isso aqui pode ser que eu chegue ao topo’.” A escalada foi percebida por suas conquistas: em 2016, tornou-se campeão brasileiro de full contact. Hoje, acumula sete títulos brasileiros em K1, dois títulos mundiais por federações distintas e prepara-se para disputar o cinturão profissional na Colômbia. “A medalha mais importante da minha vida é a medalha de bronze. Porque ela foi o ponto de partida.”

A trajetória de Batista, como é conhecido, também inclui lesões graves. Em 2017, fraturou o braço durante o Campeonato Goiano e ficou dois anos afastado. Em 2022, quebrou o outro braço em um combate interno. “Ali eu pensei: ‘Nossa, mais uma vez, eu vou ficar quanto tempo parado?’ O médico me voltou em 60 dias aos treinos.” A recuperação o levou ao título brasileiro de K1 em 2023, conquistado em Itabaiana, Sergipe. “Esse cinturão de campeão brasileiro é pra mim uma coisa que eu olho assim e penso: ‘Isso é tudo pra mim, é superação’.”

Sobre o impacto do Pró-Goiás Atleta, Batista afirmou que “sem dúvidas é um dos principais fatores para me manter no esporte. Porque com ele é um complemento de tudo que eu gastava diretamente do meu bolso pessoal.” O atleta também ressaltou a mudança de patamar do esporte de combate no estado: “De quando eu entrei no esporte pra cá, eu vi um crescimento muito grande dentro do esporte de combate. Porque antes a gente falava muito, via muita coisa pro futebol. Pras lutas a gente não via.”

O futuro do esporte goiano

O panorama traçado pelo Jornal Opção mostra que Goiás deixou de ser coadjuvante no cenário esportivo nacional. A combinação de investimento público, calendário competitivo e uma nova geração de atletas determinados a romper barreiras produziu resultados em modalidades que vão do paraciclismo ao kickboxing.

Os desafios, porém, permanecem. Atletas consultados pela reportagem apontaram a necessidade de ampliar a divulgação dos programas de bolsa, simplificar os processos de inscrição e fortalecer as categorias de base para reter talentos no estado. A infraestrutura também demanda atenção contínua, especialmente em municípios do interior que ainda carecem de equipamentos adequados para treinamento de alto nível.

Ainda assim, o sentimento predominante entre os esportistas goianos é de otimismo. Como resumiu Adria Jesus da Silva, tetracampeã paralímpica e um dos símbolos dessa transformação: “O esporte transforma vidas. Assim como transformou a minha, vai transformar a de outras pessoas também.”

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