Por Tobias Goulão

Ademir Luiz já faz parte do imaginário brasileiro. Mesmo que muitos não o conheçam, estes mesmos já devem ter tomado notícia de sua famosa teoria do “Chaves do Inferno”, um ensaio de superinterpretação que brinca com o seriado mexicano que fez parte da vida de gerações no Brasil. Outros, para o bem e para o mal, podem ter trombado com seus textos irônicos sobre intelectuais nuttelas, Game of Thrones ou Felipe Neto. Este último, inclusive, gerando boa parte do que é tratado no seu romance recém-lançado, O Wikiota.

É uma brincadeira com o romance de Dostoiévski, pensando em um Mishkin 2.0, com escreve Solemar Oliveira na orelha do livro, mas não é a mistura do Cristo com o Quixote, e sim a consonância de outras figuras, mais atuais, portanto, nem sagradas e nem tão eruditas. Talvez, eruditas a seu modo, o modo dos vídeos, dos resumos, das I.A.s que entregam tudo mastigado sendo possível que alguém capaz de dominar uma linguagem seja por isso elevado às alturas. Hosana?

Aqui é possível colocar Ademir dentro de uma tradição. A cultura literária brasileira é marcada por formas de observação do meio e de como personagens comuns alcançam certas posições, fama e fortuna, por saber jogar o jogo. Isso é uma forma de inteligência, o que não torna o personagem um erudito em si, mas um bom desbravador das possibilidades da época. Saber olhar isso e transformar em literatura é uma tradição cultural. E isso não é novidade para Ademir, que já trouxe à tona outro romance, Fogo de Junho (2021, e que fico devendo um comentário também). E estar ligado a essa tradição de observadores do Brasil faz de do autor alguém importante por colocar em texto, em arte, uma forma de vida muito particular da época. O que nos leva a outra questão. Há um trecho no livro no qual existe uma formulação do personagem principal que sai de Pitty e seu Admirável Chip Novo, passando pelo Admirável Gado Novo de Zé Ramalho, chegando em Aldous Huxley e seu Admirável Mundo Novo, para, enfim, alcançarmos Shakespeare e sua A Tempestade. Tudo conectado, autor, personagem, leitor. Miguel de Unamuno ficaria feliz com essa vida compartilhada. Até porque, no caminho da leitura, nada nos é estranho, só toma uma forma possível de ser dissecada, como os sapos de Bazárov – e temos que ter cuidado para não nos machucarmos nesse caminho.

A história fala de Mike Jardim, cuja trajetória é igual a de muitos youtubers e influencers desse país (e do mundo também), mas penso ser um análogo a um em específico, dada a especialização do autor, assim como do entrevistador/narrador, nessa figura. Essa mesma figura, como o Sr. Jardim, ganhou notoriedade, influenciou gerações desde os primórdios do YouTube, mudou de perspectivas e posições, flertou com a política – mas no caso real, causou uma série de problemas, no fictício, apenas achou olhou para o abismo que olhou de volta. De modo geral, pensemos: quais grandes influenciadores não causam alvoroço em vários campos da vida ordinária? Não são cooptados por marcas, partidos e programas da velha mídia? Agora não estão influenciando até mesmo leis? Pois bem, Mike Jardim é o arquétipo dessa situação histórica. Ou, na referência do narrador a Chesterton: “grandes artistas escolhem grandes idiotas e não grandes intelectuais para representarem a humanidade. Não acho que seja um grande artista, mas talvez Mike não seja tão idiota quanto faz parecer. Isso pode equilibrar a balança”.

De fato, como a maioria daqueles que vivem na e da internet hoje, só vemos o recorte da vida de Mike disponível online. E qualquer um com a mínima habilidade de compreensão pode perceber como não é alguém simplório. No máximo acima do medíocre, no sentido dado pelo argentino José Ingenieros, ou seja, soube destacar-se da massa em ações, mas pode ser visto como um señorito satisfecho na forma dada por Ortega y Gasset: alguém mimado e arrogante, graças a sua capacidade de levantar multidões (Ortegão das Massas nos deu uma ótima categoria de antropologia filosófica para os séc. XX e XXI). Mas, até que ponto o homem não tão idiota se destaca da multidão de idiotas que o segue?

Bom, em um mundo cheio de coachs enriquecidos por fórmulas de lançamento e discurso vazio enfeitado aos moldes dos medalhões, é fato: o Wikiota está acima do meio e fez dele maneira de viver. Mas não é gênio, não é super inteligente, mas sim o produto da sorte de ter descoberto a fórmula certa, na hora certa, aprendido a usá-la e ter ganhado a vida com isso. Muitos até têm inveja de gente assim, porque nada de trágico entra nas telinhas (só o que pode ganhar likes, seguidores, virar conteúdo…). mas vida que segue. A dele e a nossa.

A questão que abre e fecha o texto é: “A mediocridade se auto alimenta”. E quem disse isso? Pessoa? Lispector? Santo Agostinho ou Einstein? Bom, no fim das contas, quem ganha essa frase em sua biografia é o próprio Mike, em seu verbete da Wikipédia. E, ao abrir e fechar o romance com essa preocupação, num rompante de longas atualizações de perfis e de enciclopédias livres, podemos voltar para o Instagram e olhar a última novidade sem graça que alguma celebridade postou e provar o gosto da ambrosia dos medíocres.

Tobias Goulão é mestre em História pela UFG, doutorando em Ciências Sociais e Humanidades pela UEG e professor na Universidade Católica de Anápolis.

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