Na esquina onde a nostalgia encontra a incerteza, é para lá que se deve ir caso queira visitar as memórias vividas onde já funcionou o Banana Shopping. Agora, se quiser ir, de fato, ao local, dirija-se à Avenida Araguaia, número 376, no Setor Central.

Este lugar já foi shopping, cinema, faculdade e, agora, o fechamento da loja de utilidades que ali se instalou traz de volta a incerteza sobre o futuro do imóvel. Conversando com as pessoas ao redor do prédio, percebe-se que, ao mesmo tempo, muito se sabe sobre o local e ninguém o conhece de verdade.

A localização é invejável para qualquer empreendimento. Ainda assim, nada teve sucesso ali por muito tempo. Difícil é contabilizar quantos sonhos foram perdidos nesse espaço, quantas histórias foram vividas e o potencial desperdiçado de 12 mil metros quadrados envelhecendo entre algumas das avenidas mais importantes de uma capital com mais de 1,5 milhão de habitantes.

A cena hoje é de abandono, tanto dentro quanto fora da construção. A reportagem conseguiu entrar em uma área fechada onde funcionava a praça de alimentação do Banana Shopping e registrou imagens do local. Onde antes predominavam os aromas de diferentes refeições, agora imperam o forte cheiro de poeira e a sensação de abandono.

Entre moradores e comerciantes da região, há uma explicação recorrente para a dificuldade de consolidação de empreendimentos no local: a gestão dos negócios que passaram pelo imóvel ao longo dos anos.

Júnior, que mantém uma lanchonete ao lado do prédio há cerca de 15 anos, atribui os sucessivos fracassos à administração dos empreendimentos que ocuparam o espaço.

“É má administração, com certeza. Na época do Banana, teve uma fase muito boa. Eu estou aqui há muito tempo. Chegou a lotar todo dia. Tinha estacionamento em cima, embaixo, do lado…”, relatou.

Um morador da região, que pediu para não ser identificado, também relembrou episódios que marcaram a trajetória do Banana Shopping. Segundo ele, houve atritos entre parte dos frequentadores do centro comercial e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ que costumavam se reunir no local.

O episódio ganhou repercussão em 2006, quando foi realizado um protesto conhecido como “beijaço” em frente ao shopping. A manifestação reuniu participantes que denunciavam supostas práticas discriminatórias por parte da administração do empreendimento.

Júnior, no entanto, avalia que o problema não envolvia necessariamente todos os frequentadores do local. “Não era um conflito. Era com quem tinha preconceito, porque na época do Banana Shopping tinha muito disso aqui”, afirmou.

Segundo o comerciante, a repercussão das polêmicas contribuiu para a perda de parte do público que frequentava o empreendimento. “Depois disso o movimento caiu muito, porque o shopping acabou perdendo um público que era muito presente na região”, disse.

Com o declínio do Banana Shopping, o imóvel passou por diferentes tentativas de ocupação. Primeiro recebeu uma instituição de ensino superior. Mais tarde, parte do espaço foi adaptada para salas de cinema. Anos depois, o prédio passou a abrigar o Panda Atacadão, empreendimento criado por um empresário chinês que expandiu as operações no local.

Agora, com o encerramento das atividades da loja, o imóvel volta a enfrentar um cenário de incerteza sobre seu futuro.

Veja como a fachada do local se transformou ao longo dos anos:

Um dos capítulos mais marcantes da história recente do prédio ocorreu em 2022, quando um incêndio atingiu o complexo e destruiu ao menos cinco salas de cinema instaladas no local. O fogo mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros e interrompeu um projeto que buscava devolver ao imóvel parte da relevância cultural que teve no passado.

As chamas se espalharam rapidamente pela estrutura, exigindo uma operação que contou com 11 viaturas e consumiu cerca de 60 mil litros de água até a completa extinção do incêndio. Apesar da destruição, não houve registro de vítimas.

Na época, a administração do cinema classificou os prejuízos como incalculáveis e destacou o impacto para a cena cultural goiana. O espaço sediava mostras cinematográficas regionais e internacionais e havia retomado as atividades meses antes, após passar a ser administrado pela Neo Investimentos.

Em fevereiro daquele ano, o imóvel passou a operar sob o nome Galeria CineX. O projeto previa a revitalização do complexo com salas de cinema, espaços para apresentações artísticas e outras atividades culturais. A iniciativa, porém, foi interrompida pelo incêndio.

O episódio também provocou o adiamento da mostra de cinema “O Amor, a Morte e as Paixões”, que estava programada para começar poucos dias depois no CineX. Durante a ocorrência, clientes e comerciantes precisaram deixar o prédio às pressas enquanto os bombeiros atuavam no combate às chamas.

À época, o coordenador do festival, Lisandro Nogueira, lamentou o ocorrido e afirmou que o evento, preparado ao longo de seis meses, precisaria ser remarcado. A mostra já havia enfrentado adiamentos em razão da pandemia de Covid-19 e contava com uma programação de aproximadamente 100 filmes, incluindo produções goianas.

O incêndio marcou o fim de mais uma tentativa de revitalização do imóvel. Quatro anos depois do episódio, o prédio segue sem uma ocupação capaz de devolver movimento permanente a um dos endereços mais conhecidos do Centro de Goiânia.

Atualmente, a loja que ocupa o imóvel está em processo de encerramento das atividades. As prateleiras já aparecem quase vazias, enquanto o entorno do prédio acumula sinais de degradação, com sujeira espalhada pelas calçadas e forte odor de urina em alguns pontos.

Entre moradores e comerciantes da região, a principal preocupação é o que acontecerá após a saída definitiva do estabelecimento. O receio é que o imóvel permaneça desocupado por um longo período e agrave a sensação de abandono em uma das áreas mais movimentadas do Centro de Goiânia.

Funcionários e moradores ouvidos pelo Jornal Opção afirmam temer que a falta de ocupação transforme o prédio em um espaço vulnerável à deterioração e à ocupação irregular. Para quem acompanha a trajetória do antigo Banana Shopping, o cenário atual reforça a incerteza sobre o futuro de um imóvel que, ao longo das últimas décadas, já abrigou shopping center, cinemas, faculdade e centro comercial, mas que ainda busca uma vocação capaz de devolver movimento permanente ao endereço.

Mais do que um imóvel comercial, o antigo Banana Shopping acabou se tornando um retrato das transformações vividas pelo Centro de Goiânia nas últimas décadas. O prédio atravessou períodos de grande movimento, passou por diferentes projetos de revitalização, enfrentou o esvaziamento da região central e, agora, volta a conviver com a incerteza sobre seu futuro.

Enquanto a última operação comercial encerra as atividades, moradores, comerciantes e frequentadores observam com preocupação o destino de um dos endereços mais conhecidos da capital. A expectativa é que o espaço encontre uma nova vocação capaz de evitar o abandono e devolver movimento a uma área considerada estratégica para a cidade.

O Jornal Opção procurou o empresário responsável pelo Panda Atacadão, além de representantes do Lumière Cinema e da Galeria CineX, que ocuparam o imóvel nos últimos anos. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.

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