Popularizado por filmes como Her, o debate sobre relações afetivas entre humanos e Inteligência Artificial deixou a ficção científica e passou a fazer parte da realidade. Em 2026, cresce a discussão sobre a chamada digissexualidade, conceito que descreve o impacto das tecnologias digitais, da realidade virtual e da IA na forma como as pessoas vivem a sexualidade e os relacionamentos.

Professora e pesquisadora do Ambulatório de Dependência Tecnológica do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Carla Cavalheiro Moura explica que a digissexualidade “não é um transtorno ou diagnóstico”, mas um termo criado em 2017 para compreender novas formas de interação sexual mediadas pela tecnologia.

Segundo a especialista, o avanço da Inteligência Artificial transformou não apenas a maneira como as pessoas acessam conteúdos sexuais, mas também como desenvolvem vínculos afetivos e românticos.

O que é digissexualidade?

De acordo com Carla Cavalheiro, a digissexualidade surgiu para definir experiências sexuais diretamente relacionadas às tecnologias digitais.

Ela cita a teoria das “duas ondas” da digissexualidade. A primeira envolve a sexualidade mediada pela tecnologia, como pornografia online e aplicativos. Já a segunda onda é marcada por experiências mais imersivas, com realidade virtual, chatbots, IA e até robôs humanoides.

“A questão deixou de ser apenas sexual. Muitas pessoas relatam vínculos de amor, carinho e romantismo com inteligências artificiais”, afirma.

A pesquisadora lembra que o filme Her antecipou discussões que hoje se tornaram concretas. Na trama, o protagonista se apaixona por uma assistente virtual com voz feminina.

Relações com IA e isolamento social preocupam especialistas

Segundo Carla Cavalheiro, o crescimento das relações digitais está ligado ao aumento da solidão e ao desgaste das relações presenciais.

“Muitas pessoas dizem que estão cansadas de interações humanas, que têm baixa bateria social ou que preferem a previsibilidade das conversas com IA”, explica.

Ela alerta que o excesso de interações digitais pode prejudicar habilidades sociais importantes. Isso porque as relações presenciais envolvem elementos que não existem no ambiente virtual, como linguagem corporal, silêncios, expressões faciais e contato humano.

A especialista afirma que o fenômeno se intensificou após a pandemia de Covid-19, embora o uso excessivo da tecnologia já preocupasse especialistas antes disso.

Jovens fazem menos sexo, aponta pesquisadora da USP

Outro ponto destacado pela pesquisadora é a mudança no comportamento sexual das novas gerações. Segundo ela, estudos recentes mostram que os jovens estão fazendo menos sexo do que em décadas anteriores.

Carla Cavalheiro relata que muitos pacientes jovens afirmam não sentir falta de relações presenciais, preferindo experiências digitais ou práticas individuais.

“Temos visto jovens que consideram suficiente a experiência mediada pela tecnologia e não sentem necessidade de contato presencial”, afirma.

Para a especialista, isso pode trazer impactos emocionais e sociais importantes, já que a convivência humana continua sendo fundamental para o desenvolvimento integral das pessoas.

Dependência tecnológica e desenvolvimento humano

A pesquisadora também relaciona o avanço da tecnologia a mudanças no desenvolvimento social e cognitivo, especialmente entre crianças e adolescentes.

Ela cita estudos que apontam atrasos no desenvolvimento da linguagem em crianças com excesso de exposição às telas. Segundo Carla, o aprendizado humano depende da interação presencial e da observação de outras pessoas.

“No ambiente digital, existe diálogo, mas não existe a troca humana completa que ocorre presencialmente”, explica.

Digissexualidade pode se tornar mais comum no futuro

Apesar dos alertas, Carla Cavalheiro avalia que a digissexualidade tende a se tornar cada vez mais frequente com o avanço da Inteligência Artificial.

Ela defende, porém, que a sociedade mantenha uma visão crítica sobre os impactos da tecnologia na vida afetiva e sexual.

“A tecnologia traz muitos benefícios, mas também precisamos refletir sobre aquilo que estamos deixando de viver nas relações humanas presenciais”, conclui.