A divulgação, por Donald Trump, de um vídeo produzido por inteligência artificial em que aparece jogando o apresentador Stephen Colbert em uma lata de lixo talvez pareça, à primeira vista, apenas mais um episódio do espetáculo permanente que marca sua trajetória política. Mas o gesto revela algo mais profundo, e mais preocupante, sobre a forma como o presidente dos Estados Unidos lida com crítica, poder e exposição pública.

Não se trata apenas de provocação. E sim da normalização da humilhação como linguagem política.

Ao compartilhar o vídeo em sua rede social logo após o encerramento do “Late Show”, Trump reforça uma prática que se tornou central em sua atuação pública: transformar adversários, jornalistas, humoristas e críticos em alvos permanentes de ataque. O objetivo raramente é debater ideias. É desmoralizar, intimidar e reduzir qualquer crítica a espetáculo.

Stephen Colbert foi, durante anos, um dos críticos mais contundentes de Trump na televisão americana. Seu programa misturava humor e comentário político, frequentemente expondo contradições, escândalos e exageros do presidente. A resposta de Trump nunca foi apenas discursiva. Foi pessoal.

O vídeo gerado por IA não é isolado. Ele se encaixa em uma longa tradição de ataques verbais, apelidos ofensivos, campanhas de ridicularização e uso das redes sociais como ferramenta de agressão política. O problema é que, quando esse comportamento parte do presidente da maior potência do planeta, ele deixa de ser simples grosseria e passa a moldar o ambiente político.

A mensagem implícita é clara: quem critica será transformado em inimigo público.

O caso se torna ainda mais simbólico porque ocorre em meio às discussões sobre o encerramento do “Late Show”. Embora a CBS afirme que a decisão foi financeira, o contexto inevitavelmente alimenta suspeitas, especialmente após as críticas de Colbert ao acordo milionário entre a Paramount e Trump. O presidente já havia demonstrado irritação pública com o apresentador diversas vezes. A divulgação do vídeo, nesse cenário, funciona quase como comemoração política.

Há algo particularmente perigoso na forma como Trump mistura entretenimento, tecnologia e poder institucional. O uso de inteligência artificial para criar cenas de humilhação simbólica amplia uma lógica em que a política deixa de operar no campo democrático tradicional e passa a funcionar como cultura de intimidação digital.

Não é coincidência que esse comportamento encontre eco em setores radicalizados da política contemporânea. A transformação do adversário em inimigo absoluto é um dos pilares do populismo agressivo. O debate deixa de existir; sobra apenas a lógica da destruição pública.

O mais grave é que isso produz efeitos concretos fora das redes sociais. Jornalistas passam a ser hostilizados, críticos são perseguidos virtualmente e instituições se tornam alvo constante de campanhas de deslegitimação. Quando o presidente estimula esse ambiente, ele amplia a erosão do espaço democrático.

Trump compreendeu há muito tempo que, na política, a atenção vale tanto quanto o argumento. Por isso transforma tudo em espetáculo, inclusive a agressão. O problema é que, ao fazer isso, normaliza uma cultura política baseada em humilhação, ressentimento e hostilidade permanente.

A presidência dos Estados Unidos deixa, então, de funcionar apenas como cargo institucional e passa a operar como plataforma de ataque pessoal. O chefe de Estado se comporta como influenciador digital em guerra constante contra qualquer voz dissonante.

O vídeo contra Colbert é sintoma dessa degradação. Pode parecer banal dentro do caos diário das redes, mas revela uma mudança mais profunda: a substituição do debate político pela ridicularização pública como método de poder.

E quando a humilhação vira linguagem oficial, a democracia inevitavelmente se torna menor.