A história da imigração árabe em Goiás, especialmente em Anápolis, é marcada por dificuldades, oportunidades e transformações que moldaram a cidade como ela é hoje. Ao Jornal Opção, o radialista Guilherme Verano, autor do livro A Presença Árabe em Anápolis, detalhou como os imigrantes sírio-libaneses ajudaram a construir o município e influenciaram seu desenvolvimento.

Segundo Guilherme, a saída de sua família do país de origem não foi motivada por escolha, mas pela perseguição imposta pelo Império Turco-Otomano. Ele explica que, durante a dominação turca, os passaportes traziam a inscrição “Turquia”, o que levou os brasileiros a apelidarem os imigrantes de “turcos”. “Na verdade, não havia turcos. Eram sírio-libaneses, 99% sírio-libaneses. Portanto, essa história de ‘turco’ não corresponde à realidade”, afirma.

Na época de império, o interesse do Dom Pedro II pelo Líbano também contribuiu para estimular a vinda de imigrantes ao Brasil. Já em Goiás, a Estrada de Ferro Goyaz, inaugurada nas primeiras décadas do século XX, foi determinante para a chegada dos árabes ao interior. “Essa ferrovia foi a principal motivadora da travessia dos árabes pro interior de Goiás”, disse.

Segundo ele, cidades como Catalão, Goiandira, Ipameri, Urutaí, Pires do Rio, Orizona, Vianópolis e Silvânia receberam os primeiros comerciantes, até que Anápolis se consolidou como destino final. A estação ferroviária da cidade foi inaugurada em 7 de setembro de 1935, tornando-se o maior centro de convivência árabe em Goiás.

Os imigrantes chegaram sem dinheiro e sem falar o idioma, mas trouxeram consigo a tradição milenar do mascate. “É pegar um burrinho, pegar as mercadorias, colocar lá e sair aventurando no meio do sertão”, explicou.

Eles vendiam produtos nas fazendas e criaram as primeiras linhas de crédito, anotando dívidas em cadernetas. Com o tempo, abriram comércios fixos e aproveitaram oportunidades ligadas à construção de Goiânia e, posteriormente, de Brasília. “Eles tinham muito tino comercial e não tinham preguiça de ir atrás de onde havia a possibilidade de lucro”, destacou.

O preconceito inicial enfrentado em cidades vizinhas como Corumbá e Pirenópolis, fez os imigrantes árabes continuar buscando novos locais para morar. “Foram encontrar acolhimento em Anápolis”, disse.

Segundo ele, mais jovem que suas vizinhas, a cidade abriu espaço para que essas famílias prosperassem e trouxessem parentes, fugindo da fome e das guerras. Guilherme relembra que, enquanto em outras localidades havia resistência à chegada dos estrangeiros, Anápolis recebeu os imigrantes sem restrições e lhes ofereceu oportunidades.

O livro A Presença Árabe em Anápolis, escrito por Guilherme Verano e Ubirajara Galli, com apoio de João Asmar e Georges Hajjar Júnior, registra esses marcos históricos. A construção de Goiânia e Brasília, a chegada da Base Aérea em 1972 e a fundação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia) em 1976.

Foto: Acervo Pessoal

Na foto, em pé, com camisa escura, está Ubirajara Galli, coautor do livro. Ao centro, Georges Hajjar, idealizador e patrocinador da obra, acompanhado de Guilherme Verano, também coautor. Sentados, Dr. João Asmar, in memoriam, elo fundamental de contato com as famílias, e Rachid Cury Neto, descendente e facilitador das entrevistas.

Guilherme conta que o Daia está prestes a completar 50 anos e que sua criação contou com a colaboração decisiva de vários imigrantes libaneses em Anápolis, especialmente Sultan Fallow. Ele lembra que, mesmo durante a ditadura militar, os imigrantes foram a Brasília propor a instalação do distrito industrial. Para ilustrar o esforço, compara a iniciativa ao trabalho dos mascates que carregavam mercadorias em burrinhos para vender de porta em porta.

A presença árabe foi decisiva para o desenvolvimento de Anápolis. Segundo Verano, a cidade não teria seguido o mesmo caminho sem essa contribuição. Ele afirma que Anápolis é hoje totalmente diferente graças ao trabalho e à participação dos árabes no cotidiano local, o que, em sua visão, transformou profundamente a identidade do município.

A cidade de Anápolis consolidou-se como um polo comercial e industrial de Goiás, mas também carrega uma história marcada pela presença de imigrantes árabes e pela influência da Base Aérea instalada durante o período da Ditadura Militar.

Base Aérea de Anápolis | Foto: Divulgação

O radialista Guilherme Verano relembra que, por conta da base, Anápolis foi considerada Área de Interesse da Segurança Nacional e, por quase uma década, não realizou eleições para prefeito. “Os prefeitos aqui eram nomeados. Então Anápolis passou praticamente uma década sem reeleger prefeito. Justamente por conta disso, por conta da base aérea”, afirmou.

Guilherme explicou ainda a vocação comercial da cidade, que se transformou em industrial com o Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia). “Anápolis teve muita essa vocação comercial e hoje é uma vocação mais industrial, de ser a Manchester goiana por conta das indústrias que você tem no Daia, de muita gente que vem de fora e Anápolis recebendo esse pessoal todo”, disse.

Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia) | Foto: Reprodução

A presença árabe foi fundamental para essa trajetória. Segundo Verano, a recepção aos imigrantes no passado reflete na forma como a cidade acolhe novos grupos. “Sim, sem dúvida nenhuma. Anápolis acabou recebendo esse pessoal. A questão do preconceito tem em todo lugar, mas não é por conta disso que o pessoal vai deixar de vir”, explicou.

Ele citou o exemplo de João Asmar, que relatava ter sofrido preconceito na infância, mas que viu na culinária árabe uma forma de integração. “O maior embaixador que ele teve, ou que os imigrantes tiveram aqui, foi a culinária, em especial o kibe”, contou.

A gastronomia árabe, segundo o radialista, ajudou a quebrar barreiras culturais. “A culinária árabe também ajudou a quebrar certas coisas, de facilitar exatamente essa recepção que Anápolis teve naquela época e está tendo agora com essas levas novas de gente que vem de fora buscando oportunidade”, disse.

Ele ressaltou que a cidade mantém oferta constante de empregos e recebe trabalhadores de diferentes origens.

O comércio também foi marcado pela tradição árabe. “Grande parte deles, ‘qual que era o esquema comercial?’ Montar uma lojinha embaixo e em cima morar. Ainda hoje em Anápolis você encontra muitos empórios sírio-libaneses com comida árabe, que é uma maravilha”, afirmou.

Além da culinária, a religiosidade também permaneceu como marca da comunidade árabe em Anápolis. Há uma mesquita islâmica e uma Igreja Ortodoxa bastante frequentada, o que demonstra o esforço em manter vivas essas tradições. Um outro aspecto destacado é a união entre os membros, que se referem uns aos outros como “brimos” e costumam ajudar discretamente quando alguém enfrenta dificuldades.

Guilherme recordou que muitos imigrantes passaram por períodos de fome e privações, o que explica a valorização da comida como símbolo de celebração. Para eles, a mesa farta representa não apenas hospitalidade, mas também a superação de tempos difíceis. O gesto de oferecer alimento é visto como uma forma de compartilhar abundância e reafirmar laços comunitários.

O radialista destacou que um dos pontos marcantes da presença árabe em Anápolis foi o incentivo à educação. Ele lembrou que os mais antigos não tiveram oportunidade de estudar, mas, quando conquistaram estabilidade financeira, fizeram questão de garantir que os filhos frequentassem a escola e alcançassem o ensino superior. Para essas famílias, qualquer formação universitária era motivo de orgulho.

Ao final, o radialista resumiu a relevância dessa contribuição. Afirmou que a presença árabe foi fundamental para o desenvolvimento da cidade e ressaltou que, assim como em Anápolis, em Goiás e em diversas regiões do Brasil, imigrantes enfrentaram dificuldades, prosperaram e se tornaram parte essencial da sociedade. Segundo ele, Anápolis não seria a mesma sem essa participação.

Leia também:

PIX da Pensão: “Medida vem para reforçar a responsabilidade e garantir o direito da criança”, diz especialista

PIX Pensão é aprovado; veja como será o pagamento automático da pensão alimentícia

BNDES aprova R$ 100 milhões para gigante farmacêutica em Anápolis; veja qual empresa foi beneficiada