Morar no exterior tem se tornado uma escolha cada vez mais comum entre os goianos. Dados da Receita Federal mostram que o número de moradores de Goiás que comunicaram oficialmente a saída definitiva do Brasil praticamente triplicou nos últimos três anos, passando de 450 declarações em 2023 para 1.358 em 2026. Além do crescimento das mudanças, o perfil dos emigrantes também mudou: os Estados Unidos ultrapassaram Portugal e se consolidaram como o principal destino dos goianos que deixam o país.

As informações constam no Painel de Declaração de Saída Definitiva da Receita Federal, ferramenta que reúne os contribuintes que deixam de ser residentes fiscais no Brasil e formalizam a mudança perante o Fisco.

Somente em 2026, 1.358 moradores de Goiás entregaram a declaração. O número representa aumento de 56,5% em relação às 868 registradas em 2025 e é mais de três vezes superior às 450 declarações contabilizadas em 2023.

Embora a procura por orientação sobre emigração ainda seja pequena em Goiás, o presidente da Associação dos Migrantes, Refugiados e Apátridas de Goiás (Amira-GO), Augusto Mendes, afirma que a entidade acompanha o crescimento desse movimento.

“A AMIRA-GO tem recebido pouca procura de cidadãos goianos que queiram sair de Goiás, porém tem acompanhado esse movimento de saída dos brasileiros, que significa estar disponível para novas experiências no mundo”, afirma.

EUA assumem liderança entre os destinos

Até pouco tempo, Portugal era o principal destino dos goianos que deixavam o Brasil. O cenário, porém, mudou nos últimos dois anos.

Em 2023, 59 declarações apontavam Portugal como país de destino, contra 33 direcionadas aos Estados Unidos. No ano seguinte, os portugueses permaneceram na liderança, com 65 registros, enquanto os norte-americanos receberam 43.

A inversão aconteceu em 2025. Os Estados Unidos passaram a liderar o ranking com 225 declarações, superando Portugal, que registrou 191. Em 2026, a diferença aumentou: 425 goianos informaram mudança para os Estados Unidos, enquanto 318 escolheram Portugal.

Na sequência aparecem Reino Unido (108), Espanha (85), Irlanda (81), França (48), Canadá (43), Bélgica (36), Itália (29), Austrália (26), Alemanha (23) e Suíça (23).

O levantamento evidencia uma forte concentração dos destinos em países da América do Norte e da Europa Ocidental.

Segundo Augusto Mendes, a busca por melhores condições de vida explica boa parte desse fluxo migratório. “O que leva os goianos a saírem é a possibilidade de crescer socialmente e economicamente em outras regiões do mundo, por conta de algumas falhas que cada um sente que o local em que está já não oferece”, diz.

Ele acrescenta que a estabilidade financeira é um dos principais fatores na escolha dos Estados Unidos. “Com toda certeza, a procura por estabilidade financeira é evidente, sendo os Estados Unidos um dos países que têm um salário mínimo atrativo.”

Perfil dos goianos que deixam o país

O painel da Receita também revela mudanças no perfil dos contribuintes.

A idade média dos goianos que formalizaram a saída definitiva passou de 35,5 anos, em 2023, para 41,2 anos em 2026. O crescimento indica que a decisão de deixar o país tem ocorrido entre pessoas em fase mais consolidada da vida profissional.

Também aumentou a participação feminina. Em 2023, as mulheres representavam 49,3% das declarações. O percentual subiu para 49,4% em 2024, chegou a 52,1% em 2025 e alcançou 53,7% neste ano, tornando-se maioria entre os declarantes.

Para a gerente de Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds), Biany Lourenço, o crescimento da emigração exige atenção sob a ótica da proteção de direitos.

“A mobilidade humana é um direito, e migrar em busca de melhores oportunidades é uma decisão legítima. No entanto, esse aumento nos preocupa quando ocorre sem planejamento ou sem acesso à informação adequada. Nesses casos, as pessoas podem ficar mais vulneráveis a violações de direitos, como exploração laboral, tráfico de pessoas, discriminação e dificuldades para acessar serviços e proteção social no país de destino”, afirma.

Ela destaca que os primeiros meses costumam concentrar as maiores dificuldades para quem decide viver no exterior. “Além da adaptação cultural e do idioma, muitos enfrentam dificuldades para regularizar sua documentação, acessar serviços públicos, conseguir moradia e trabalho em condições dignas. Também podem surgir situações de isolamento social e emocional, principalmente quando não existe uma rede de apoio.”

Augusto Mendes também aponta que as barreiras culturais são desafios comuns para quem chega a outro país. “A primeira barreira é o idioma, a segunda é a falta de empatia social na integração, pois muitos não aceitam a convivência com pessoas de outras nacionalidades. Por isso, os primeiros meses tendem a ser mais difíceis.”

Sobre o aumento da participação feminina na migração, ele afirma que o fenômeno amplia a necessidade de políticas de acolhimento. “As mulheres e seus filhos têm se tornado o maior número de pessoas migrantes. Isso acarreta uma responsabilidade social e reforça a necessidade de criar modelos de acolhimento tanto para pessoas que chegam ao Brasil quanto para brasileiros que chegam em outros países.”

Biany Lourenço acrescenta que as mulheres migrantes enfrentam vulnerabilidades específicas. “As mulheres podem estar mais expostas à violência de gênero, exploração sexual, trabalho doméstico em condições degradantes e tráfico de pessoas. Por isso, é importante que conheçam seus direitos, mantenham autonomia sobre seus documentos pessoais e tenham acesso aos canais oficiais de apoio antes mesmo da viagem.”

Goiás acompanha tendência nacional

O crescimento observado em Goiás acompanha o movimento registrado em todo o país.

Em 2026, a Receita Federal contabiliza 3.800 declarações de saída definitiva em âmbito nacional. Os Estados Unidos também lideram o ranking dos destinos preferidos pelos brasileiros, com 814 declarações, seguidos por Portugal (705), Reino Unido (216), Irlanda (172), Espanha (162) e França (124).

Entre os declarantes brasileiros, a idade média é de 38,8 anos e as mulheres representam 51,7% do total.

Planejamento reduz riscos

Especialistas alertam que a decisão de emigrar exige planejamento para evitar problemas financeiros, trabalhistas e até golpes. “A principal medida é buscar informações em fontes oficiais e desconfiar de promessas de emprego com ganhos muito elevados, processos excessivamente rápidos ou que exijam pagamentos antecipados”, orienta Biany Lourenço. “Sempre recomendamos confirmar a autenticidade da empresa, pesquisar referências e nunca entregar documentos originais ou valores sem a devida verificação.”

Augusto Mendes cita três erros frequentes entre quem deixa o país: “Preparação financeira, domínio linguístico e conhecimento cultural.”

Ele também faz um alerta para propostas de trabalho no exterior. “A pressa é um inimigo do migrante. É necessário verificar as propostas, ter certeza de que está tudo bem e, se possível, confirmar as informações com outras pessoas, porque isso pode ser um caminho sem volta.”

O que significa declarar saída definitiva

A Declaração de Saída Definitiva do País deve ser apresentada por brasileiros e estrangeiros residentes que deixam o Brasil de forma permanente ou permanecem no exterior por período suficiente para perder a condição de residente fiscal.

Com o procedimento, o contribuinte comunica oficialmente à Receita Federal que deixou de ter residência fiscal no país, passando a cumprir regras tributárias específicas. A medida evita cobranças indevidas de Imposto de Renda sobre rendimentos obtidos exclusivamente no exterior e regulariza a situação fiscal perante o Fisco.

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