O avanço de casos de sarampo em outras regiões do país acende um alerta para a importância de manter a vacinação em dia, mesmo em locais onde a doença não circula atualmente. Em Goiás, não há registro de casos desde 2020, mas especialistas destacam que a manutenção desse cenário depende de altas coberturas vacinais e da atualização da caderneta de crianças e adultos.

Em Goiânia, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informa que não há casos registrados nem, neste momento, indicação de risco de surto. A capital mantém monitoramento epidemiológico permanente, seguindo os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

Segundo a pasta, a rede municipal está preparada para identificar, notificar e acompanhar eventuais casos suspeitos e adotar medidas de vigilância para evitar a transmissão. Os estoques de vacinas contra o sarampo também estão regulares, de acordo com o cronograma e o quantitativo de doses encaminhados pelo Ministério da Saúde.

Professor e coordenador do Laboratório de Imunologia Integrativa e Saúde Translacional (LIST) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Helioswilton Sales, conhecido como Ton Sales, explica que o sarampo é uma doença viral altamente transmissível. O vírus passa de uma pessoa para outra principalmente por meio de secreções respiratórias liberadas ao tossir, espirrar, falar ou respirar.

“O sarampo é uma doença infecciosa e altamente transmissível que pode ser prevenida pela vacinação. Nesse sentido, ele se assemelha a outras doenças que podem ter desfechos graves, incluindo o óbito, e que também podem ser evitadas por meio da vacinação”, afirma.

Professor e pesquisador da UFG Helioswilton Sales | Foto: Arquivo pessoal

Doença pode provocar complicações graves

Apesar de ser frequentemente associada à infância, a doença pode atingir pessoas de diferentes idades e provocar complicações graves. Entre os problemas estão comprometimentos do sistema nervoso central, dos olhos, dos pulmões, da audição e do trato gastrointestinal. A infecção também exige atenção especial entre gestantes.

Os primeiros sintomas costumam incluir febre alta, coriza e pequenas manchas brancas no interior da boca. Posteriormente, podem surgir manchas avermelhadas na pele, geralmente iniciadas no rosto e no pescoço e que depois se espalham pelo corpo. Tosse e conjuntivite também estão entre as manifestações da doença.

Segundo Ton Sales, não existe tratamento específico contra o vírus do sarampo. Em muitos casos, a recuperação ocorre entre duas e três semanas, mas o risco de complicações faz com que a prevenção seja fundamental.

“A doença pode apresentar manifestações gravíssimas, comprometendo ou afetando drasticamente funções fundamentais, como visão, audição, cérebro e trato gastrointestinal”, explica.

Vacinação dificulta circulação do vírus

Por ser altamente transmissível, o controle do sarampo está diretamente relacionado à proporção da população protegida. Quanto maior a cobertura vacinal, menor é a possibilidade de o vírus encontrar pessoas suscetíveis e continuar circulando.

É o princípio da chamada imunidade coletiva, também conhecida como “imunidade de rebanho”.

“Quanto mais pessoas vacinadas na população, menores as chances de um microrganismo causador de uma doença, como o vírus do sarampo, circular. Quanto maiores os índices de vacinação, menores as chances de termos a doença presente”, explica o pesquisador.

Embora Goiás esteja há anos sem registrar casos, o professor ressalta que a ocorrência da doença em outras localidades exige atenção. A circulação de pessoas entre estados e países pode favorecer a reintrodução do vírus em regiões onde a transmissão havia sido interrompida caso existam grupos não imunizados.

“Desde 2020, o Estado de Goiás não registra casos de sarampo. Apesar disso, em função do aumento dos casos notificados em outras regiões, precisamos ficar alertas e responder prontamente em caso de convocação para campanhas de vacinação. Além disso, é fundamental que o cartão de vacinação esteja em dia, tanto dos adultos quanto das crianças”, orienta.

Em Goiânia, a vacinação segue o calendário estabelecido pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. A Secretaria Municipal de Saúde reforça que a imunização permanece como principal estratégia para prevenir a doença e evitar que o vírus volte a circular.

Desinformação ainda desafia vacinação

Além de manter os imunizantes disponíveis, outro desafio é ampliar a adesão da população. Para Ton Sales, a circulação de informações falsas ou sem respaldo científico nas redes sociais pode contribuir para dúvidas e resistência em relação às vacinas.

O pesquisador lembra que o Brasil construiu historicamente uma ampla política de imunização, com oferta gratuita de vacinas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“O entendimento da importância das vacinas para preservar vidas e evitar formas graves das doenças ainda é a melhor forma de incentivo. Historicamente, a vacinação é um dos instrumentos mais seguros e eficazes para evitar formas graves de diferentes doenças e proteger a população como um todo”, destaca.

Estratégias de multivacinação também contribuem para identificar doses em atraso e atualizar a situação vacinal da população contra diferentes doenças imunopreveníveis, entre elas o sarampo.

Para o professor, a orientação é não esperar o surgimento de casos para procurar a vacinação. Manter a caderneta atualizada contribui para a proteção individual e coletiva e reduz o risco de doenças já controladas voltarem a circular.

“Precisamos entender que o sarampo pode ser prevenido pela vacinação. Quanto maior o número de pessoas imunizadas, maior também será a proteção da população”, conclui.

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