Neymar nunca teve o que fez Ayrton Senna virar ídolo: liderança
14 maio 2026 às 18h46

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Há uma diferença profunda entre ser ídolo e ser líder. O Brasil, talvez por carência de referências esportivas realmente mobilizadoras, confundiu as duas coisas ao longo da última década com Neymar. Dentro de campo, seu talento jamais esteve em discussão.
Poucos jogadores brasileiros no século XXI tiveram tanta capacidade técnica, improviso e protagonismo. Mas liderança exige algo além do drible: exige controle emocional, senso coletivo e capacidade de representar algo maior do que a própria vaidade.
Mais recentemente, a resposta dada por Neymar à torcida do Coritiba “E você vai ficar em casa”, após ouvir “não vai pra Copa”, é apenas mais um capítulo de uma longa coleção de reações infantis e desnecessárias. O problema não está em rebater uma provocação.
O futebol sempre viveu desse ambiente hostil. O problema é um jogador de 34 anos, tratado há mais de uma década como rosto da Seleção Brasileira, ainda agir como alguém incapaz de suportar pressão sem transformar tudo em disputa de ego.
E não foi a primeira vez. Neymar frequentemente demonstrou irritação com críticas, discussões com torcedores, indiretas e dificuldade em lidar com frustrações públicas. Um líder verdadeiro entende que sua imagem transcende o indivíduo.
Ele representa uma instituição, uma camisa, um país. Nem toda provocação merece resposta. Nem toda crítica precisa virar confronto. Talvez seja justamente aí que esteja parte da crise de identidade da Seleção Brasileira.
Durante anos, os próprios jogadores foram ensinados a enxergar Neymar como referência máxima de liderança. Mas que tipo de liderança é construída quando o principal nome da equipe reage impulsivamente a arquibancadas, acumula polêmicas extracampo e transmite constantemente a sensação de instabilidade emocional?
O Brasil já teve líderes esportivos que entendiam o peso simbólico da posição que ocupavam. Ayrton Senna talvez seja o maior exemplo. Senna não era unanimidade apenas porque vencia. Era porque transmitia seriedade, disciplina, concentração e um sentimento genuíno de representação nacional.
Em um país atravessado por crises políticas e econômicas nos anos 1980 e 1990, ele conseguia unir brasileiros diante da televisão nas manhãs de domingo. Havia uma dimensão coletiva em sua figura. Senna compreendia que o ídolo carrega responsabilidade emocional sobre milhões de pessoas.
Sua obsessão por performance vinha acompanhada de postura pública compatível com o tamanho que possuía. Até nos momentos de explosão, porque Senna também era intenso, havia um senso de competitividade, não de ressentimento pessoal contra torcida ou opinião pública.
Neymar, ao contrário, parece ter passado a carreira inteira protegido de amadurecer emocionalmente. Cercado de bajulação desde muito jovem, transformou-se num atleta brilhante tecnicamente, mas incompleto como símbolo. E isso impacta diretamente a Seleção.
Uma equipe nacional precisa mais do que talento: precisa de identidade, disciplina e referências sólidas de comportamento. Talvez por isso a camisa amarela já não provoque o mesmo sentimento de pertencimento em boa parte dos brasileiros. O problema não é apenas tático, técnico ou administrativo.
É também simbólico. A Seleção perdeu figuras capazes de inspirar coletivamente. E quando sua principal referência reage como um adolescente ofendido diante de provocações previsíveis do futebol, a crise deixa de ser apenas esportiva. Passa a ser de liderança.
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