Salatiel Soares Correia deixa legado intelectual sobre a economia de Goiás e a literatura
19 outubro 2026 às 12h39

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A morte do engenheiro e ensaísta Salatiel Soares Correia, nesta segunda-feira, 19 de outubro, interrompe uma trajetória dedicada ao estudo da economia, da história e da literatura. Aposentado da Companhia Energética de Goiás (Celg), onde construiu parte importante de sua carreira profissional, ele encontrou na escrita uma maneira de aprofundar debates sobre o desenvolvimento de Goiás e as ideias que ajudam a compreender o Brasil.
Mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Salatiel conciliava a formação técnica com uma atuação intelectual marcada pela leitura constante e pela análise de obras de diferentes áreas do conhecimento. Como colaborador do Jornal Opção, publicou ensaios e resenhas sobre economia, energia elétrica, política e literatura, aproximando assuntos especializados de leitores interessados em compreender os rumos do país.
A produção sobre o setor elétrico goiano era uma das marcas de seu trabalho. A experiência acumulada na Celg permitia que abordasse o tema com conhecimento técnico e perspectiva histórica. A empresa, que ocupou parte significativa de sua vida profissional, continuou presente em suas reflexões mesmo depois da aposentadoria.
Da engenharia à reflexão sobre o Brasil
A trajetória de Salatiel reunia duas áreas que nem sempre aparecem associadas no debate público: a engenharia e a produção literária. Sua formação em Economia ampliou esse repertório e deu suporte às análises sobre as estruturas econômicas e os desafios do desenvolvimento.
Na escrita, o interesse não se limitava aos acontecimentos imediatos. Salatiel também buscava autores e obras capazes de oferecer instrumentos para interpretar a sociedade brasileira. Entre os intelectuais que estudou estava Roberto Mangabeira Unger, professor de Harvard cuja produção foi objeto de análises do ensaísta.
Esse interesse por ideias e interpretações abrangentes também aparecia em seus textos sobre literatura latino-americana. Salatiel dedicou atenção às obras de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, dois escritores de trajetórias distintas e reconhecida influência na literatura contemporânea.
A leitura era, para ele, uma atividade permanente. Acompanhava lançamentos editoriais, procurava obras relevantes para o debate intelectual e transformava parte dessas leituras em resenhas. Uma série de textos sobre Elon Musk, publicada no Jornal Opção, alcançou mais de 200 mil acessos, segundo relato do jornalista Euler de França Belém.
Um colaborador dedicado ao Jornal Opção
A relação com o Jornal Opção era marcada pela regularidade da produção e pelo cuidado com a escolha dos temas. Salatiel mantinha uma lista de livros que pretendia analisar e, mesmo quando já tinha outras obras à espera, aceitava novas sugestões de leitura.
Seu último projeto para o jornal seria uma resenha de A Sociologia Paulista Contra o Pensamento Social Brasileiro, do antropólogo Antônio Risério, obra que reúne ensaios de Gustavo Falcón e Carlos Sávio Gomes Teixeira. A análise, porém, não chegou a ser entregue.
O episódio sintetiza uma rotina intelectual que continuava ativa até os últimos dias: acompanhar a produção editorial, selecionar títulos e organizar novas reflexões. A aposentadoria não significou afastamento da vida profissional no sentido mais amplo, mas uma mudança de foco, com mais espaço para os livros e a escrita.
Literatura como forma de compreender o mundo
O interesse de Salatiel pela literatura ultrapassava a leitura por entretenimento. Seus ensaios procuravam situar autores e obras em discussões mais amplas sobre a sociedade, a política e a cultura.
A literatura latino-americana ocupava lugar especial nesse repertório. Em viagens a cidades como Paris e Buenos Aires, buscava livrarias e mantinha contato com pessoas ligadas ao universo editorial. Em sua última viagem à capital argentina, visitou a livraria Edipo e conversou com o livreiro Javier Alejandro Sualdo, conhecido por seu interesse pela literatura latino-americana.
A escolha dos livros que lia e resenhava revelava uma preocupação com a qualidade e a relevância das obras. Em vez de se restringir a um único campo, transitava entre a economia, a filosofia política, a sociologia e a ficção, construindo um repertório que alimentava sua produção como ensaísta.
A memória de um intelectual goiano
Além da atividade intelectual, Salatiel era reconhecido pela proximidade com amigos e colegas. Participava de encontros em que história, economia, política e literatura orientavam as conversas, mantendo uma convivência que combinava o debate de ideias com a amizade.
Era casado com a médica Adriana e deixa um filho. Também tinha orgulho das irmãs Suelene Pedrosa, médica gastroenterologista, e Suelinita Soares Correia, juíza do Tribunal de Justiça de Goiás.
Sua trajetória deixa como contribuição a produção de um intelectual que articulava experiência profissional, formação acadêmica e interesse pela cultura. Ao escrever sobre a economia goiana, o setor elétrico e autores que influenciaram o pensamento contemporâneo, Salatiel ajudou a ampliar o espaço para análises de fôlego no jornalismo regional.
A morte encerra essa produção, mas não elimina o material que construiu ao longo dos anos. Seus artigos e resenhas permanecem como registro de uma atuação dedicada à leitura, à interpretação e à divulgação de ideias.
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