O Jornal Opção tem excelentes colaboradores. Um deles era Salatiel Soares Correia, engenheiro, mestre em Economia pela Unicamp, escritor (publicou um romance recentemente) e um intelectual público (um ensaísta) de primeira linha.

Escrevi “era” porque Salatiel Soares Correia — um amigo-irmão, falávamos quase todos os dias — morreu nesta segunda-feira, 19, de morte súbita, aos 68 anos. Ele teve ruptura de um aneurisma na aorta. Foi enterrado no Jardim das Palmeiras.

Irapuan Costa Junior (por quem Salatiel tinha admiração e respeito), Salatiel, Adalberto de Queiroz, Reinaldo Barreto, Marcio Fernandes, Marcelo Franco almoçávamos, com relativa frequência, nos restaurantes Panela Mágica e no Piquiras. As conversas eram muitas boas, sempre sobre história, economia, política e literatura. A gente se informava e se divertia.

Salatiel era um leitor infatigável e escrevia resenhas de excelente qualidade — uma delas (uma série) sobre Elon Musk resultou em mais de 200 mil acessos. O que o deixou contente.

Ele escrevia, com rara competência e de maneira cuidadosa, sobre a economia de Goiás. Sabia tudo sobre energia elétrica. Conhecia as obras de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa (escreveu um magnífico ensaio sobre “O Sonho do Celta”, um romance histórico) quase de cor e salteado. Escreveu belamente sobre alguns de seus livros. Sabia que os dois eram brigados, mas sempre ressaltava: “O que importa é que os dois são muito bons”.

Roberto Mangabeira Unger, professor de Harvard, teve sua obra esmiuçada por Salatiel — um intelectual de seriedade exemplar. Ele priorizava obras decisivas para compreender o Brasil e o mundo.

(Conversávamos, com frequência, sobre problemas de saúde. Ele se tratava de Parkinson e de um problema num dos olhos, consequência de erro médico — que não perdoava — em São Paulo. Tinha uma confiança absoluta nos médicos de lá.)

Eu ligava e dizia: ‘Salatiel, resenhe este livro para o Jornal Opção”. Ele respondia: “Há um livro na frente. Mas ficará na lista”. Dali a 15 dias, no máximo um mês, a resenha chegava. Ele adorava o jornal, que chamava de Opção.

A última resenha não chegou, infelizmente. Seria do livro “A Sociologia Paulista Contra o Pensamento Social Brasileiro”, do antropólogo Antônio Risério, com ensaios de Gustavo Falcón e Carlos Sávio Gomes Teixeira. Ele escreveu para mim: “Excelente. Vamos colocar na fila”.

Salatiel era casado com a médica Adriana, deixa um filho de 6 anos. Ele tinha orgulho das irmãs Suelene Pedrosa (excelente médica, gastro) e Suelenita Soares Correia (exemplar juíza do Tribunal de Justiça de Goiás).

Aposentado como engenheiro da Celg — empresa que, apesar dos problemas, amava —, Salatiel dedicava-se à vida intelectual. Poucos lançamentos de alta qualidade escapavam de seu radar.

Ele adorava viajar para Paris, Buenos Aires e outras cidades. Sempre trazia um livro para mim. Na última viagem à cidade de Jorge Luis Borges, visitou a livraria Edipo e conversou com o amigo Javier Alejandro Sualdo, um livreiro que sabe tudo da literatura latino-americana de qualidade.

Gentleman nato, era um amigo solidário (apreciava muito Ulisses Aesse, editor do “Diário da Manhã”). Dos mais raros. Era uma pessoa simples e, ao mesmo tempo, sofisticada. Como uma capacidade observação rara. Salatiel era um intelectual perfeccionista. E um homem de uma decência rara nos tempos atuais.

Deixo abaixo um poema de Emily Dickinson para homenageá-lo.

Dizem, “com o tempo se esquece”,

Mas isto não é verdade,

Que a dor real endurece,

Como os músculos com a idade.

O tempo é o teste da dor,

Mas não é o seu remédio —

Prove-o e, se provador for,

É que não houve moléstia.

(Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)