“PC morreu assassinado. E se na verdade foi vítima de um crime passional, a paixão que apertou o gatilho do revólver Rossi era a mesma que o tornou famoso: o dinheiro.” — Carlos Heitor Cony

Ligo para o Pierce Brothers Westwood Village Memorial Park Cemetery, em Los Angeles. Quero falar com o jornalista e escritor Truman Garcia Capote (1924-1984 — viveu 59 anos). Descubro o óbvio: no campo santo, ou coemeterium, não há telefone para se falar com os mortos. Ainda assim, e com o auxílio do intérprete William Kennedy, de “Vernônia” (“Ironweed”), ouço o autor de “A Sangue Frio” falando para o coveiro Perry Smith: “Recomendo vivamente o livro ‘O Tesoureiro — O Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias’ (Todavia, 157 páginas), de um tal de Xico Sá. Chamo-o de ‘A Sangue Quente’”.

Porém, o inconveniente Jack Dunphy disse, de chofre: “Bulldog-Puck não está enterrado. Seu corpo foi cremado”. Mas que falta de educação com o jornalista e escritor Xico Sá! Como o parça de Truman Capote está morto, também cremado, devemos deixá-lo de lado e nos ocupemos de outro morto, que permanece assombrando o país, e não apenas a Alagoas de Graciliano Ramos e de Fabianos e Suzanas.

PC Farias e Fernando Collor e Zélia Cardoso de Mello
Fernando Collor, PC Farias e Zélia Cardoso de Mello: aliados políticos e mui amigos | Foto: Reprodução

“A Sangue Frio”, romance de não-ficção — há quem postule que, às vezes, a imaginação fala mais alto —, é um livro estupendo. Teria inspirado, no uso da imaginação, o livro de Xico Sá? Quem sabe. A angústia da influência nunca sai de cena.

Talvez o jornalista patropi até tenha “falado”, não com os assassinos diretos (profissionais, por certo) de PC Farias, e sim com “alguns” dos mandantes da “queima de arquivo”. Mas não os nomeia, quer dizer, não diretamente, quiçá de maneira oblíqua (de soslaio, sem apontar o dedo e sem gritar).

Primeiro, porque não se tem nenhuma precisão a respeito. Segundo, porque processos custam caro aos jornalistas, seres que, mesmo se dando importância — porque falam com príncipes e princesas do poder —, não têm pilas suficientes nos bolsos e contas bancárias para custear advogados, digamos, “supremos”.

Por que mataram PC Farias? O ex-tesoureiro falava demais? Não queria devolver dinheiro aos chefões? O careca pançudo teria sido roubado por mui amigos e estaria pressionando pela devolução de parte de seus milhões?

Mas é provável, muito provável, que os mandantes do assassinato de Paulo César Siqueira Cavalcante Farias, imortalizado como PC Farias, estejam nominados, indiretamente, em “A Sangue Quente”, ops, “O Tesoureiro”.

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PC Farias e Suzana Marcolino: uma história que Dashiell Hammett e Raymond Chandler gostariam de contar | Foto: Reprodução

(Quando eu era menino, ouvia dos adultos: nome grande é nome de ladrão de cavalos. Para outros, é símbolo de nobreza. No caso, o alagoano nem era “nobre”, ao contrário de Fernando Collor. Era pura e simplesmente um batedor de carteiras promovido, muito rápido, à profissão de batedor de caixa-forte.)

Por que mataram PC Farias? O ex-tesoureiro estava falando ou poderia falar demais? Quem o “queimou” era de Alagoas, do Brasil ou de outro país (ou países)? Há duas outras hipóteses. Primeiro, o “latinista” não queria devolver dinheiro ao chefão ou aos chefões? (Quem, quem, quem?) Segundo, o careca pançudo teria sido roubado por mui amigos e estaria pressionando pela devolução de parte de seus milhões?

Quanto, com apoio do “alto”, PC Farias furtou? Não se sabe, porque as coisas lá do fundão dos bastidores transitam no mundo da ilegalidade secretíssima. Fala-se em 1 bilhão de dólares. Os modestos apontam uma cifra de 400 milhões de dólares.

PC Farias e Suzana Marcolino mortos em 1996 foto Reprodução
Suzana Marcolino e PC Farias: dois dos assassinatos mais enigmáticos da história brasileira | Foto: Reprodução

(Por que os empresários deram tanto dinheiro para a campanha de Fernando Collor, via seu futuro ministro da Economia informal? “Se tem uma coisa que dá dinheiro no Brasil é o fantasma do comunismo”, contou PC Farias ao repórter Xico Sá.)

A bufunfa era lavada na Suíça (e outros países), com intermediação de suíços experts (e espertos) e mafiosos italianos? Rosane Malta (https://tinyurl.com/mv42s5kt), ex-mulher de Fernando Collor, e o jornalista e pesquisador Lucas Figueiredo apontaram um suíço (ou italiano) como “lavador” da grana da República de Alagoas.

Collor e PC Farias perderam a noção do dinheiro que amealharam. A grana foi distribuída em contas de bancos no exterior, paraísos fiscais e operadores estrangeiros. Até foi utilizado o mesmo caminho de mafiosos italianos

O repórter americano do norte Gay Talese queria entender a máfia. Passou a conviver com os mafiosos Joe Bonanno e Salvatore (Bill) Bonanno e disto resultou o magnífico livro “Honra Teu Pai” (Companhia das Letras, 512 páginas, tradução de Donald M. Garschagen).

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PC Farias preso na Tailândia | Foto: Sakchai Lalit/AP Photo/Imageplus

Para entender como a República de Alagoas conquistou a Presidência da República — e os cofres públicos e privados do país —, Xico Sá aproximou-se de PC Farias. O camaragibano (nasceu em Passo de Camaragibe) se tornou uma grande fonte do então repórter da “Folha de S. Paulo”.

Todo repórter que investiga, se fizer julgamento moral das não-virtudes, não terá jamais fontes exclusivas. Jornalismo não é uma escola de coroinhas, e sim de realistas absolutos.

A história básica de PC Farias e Fernando Collor, seu chefe na Faculdade de Arrecadação de Fundos Eleitorais — e outros —, até a Casa da Dinda sabe de cor e, às vezes, salteado.

Fernando Collor era governador de Alagoas e, ao se tornar Caçador de Marajás — em capa histórica da revista “Veja” —, sonhou que deveria ser candidato a presidente. PC Farias, amigo e aliado, surge para gestar a realidade.

O operoso PC Farias arrecadou dinheiro farto, de norte a sul, e Fernando Collor, eleito presidente da República, deitou e rolou. Mas a gula era tamanha que, aqui e alhures, começaram a não apreciar as ações do bandido que sabia latim e do político que sabia inglês, quiçá javanês.

Quando não se divide o PIB da corrupção com figuras estratégicas dos poderes há sempre o risco de se cair. Aconteceu com Fernando Collor, que sofreu impeachment. A caçada a PC Farias, a parte relativamente mais fraca, se tornou internacional, haja vista o sujeito, com seu tolicionário em latim, ter fugido para Londres e, em seguida, para a Tailândia.

Ricca e La Salvia estavam autorizados a movimentar contas na Suíça e na Holanda. Em uma agência do ABN AMRP, em Amsterdã, foram descobertos 2 milhões de dólares. Seria um depósito do mafioso Angelo Zanetti

PC Farias foi preso e, depois, o liberaram. O latinista planejava até ser candidato a senador.

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PC Farias cumprimenta o repórter Xico Sá | Foto: Antônio Gaudério/Folhapress

Mas surgiu uma pedra no meio do caminho em formato de balas. PC Farias e sua namorada, Suzana Marcolino, foram assassinados, em 1996, “em uma casa de Guaxuma, a 11 quilômetros de Maceió”.

Forjaram outra história: por ciúme, Suzana Marcolino teria atirado no seu financista e se suicidado. Tudo papo furado. A perícia séria comprovou que foram mortos por terceiro ou terceiros. Quem precisava queimar o arquivo vivíssimo e finório?

A morte de PC Farias, dom Pablo, se tornou um mito que o Nordeste deu ao Brasil. Seria o discípulo de Nelson Rodrigues — o barão das Alagoas tinha bom gosto literário (ou ao menos pelos aforismos) — uma espécie de Cancão de Fogo ou Pedro Malasartes do lobby formal-presidencial?

Xico Sá assinala: “A dupla [Collor e PC Farias] perdeu a noção do dinheiro que amealhou. A grana, para ser preservada, foi distribuída em contas de bancos no exterior, paraísos fiscais e operadores estrangeiros — em algumas ocasiões, até foi utilizado o mesmo caminho de mafiosos italianos”.

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Pedro Collor, PC Farias, Rosane Malta e Fernando Collor: a turma que implodiu a República Collorida | Fotos: Reproduções

PC Farias, sempre pomposo, diria: eis aí o busílis da questão. É, de fato, o que me interessa — o rastro do dinheiro. Quais foram os Corleones que contribuíram para esconder e lavar o dinheiro de Batman, Collor, e Robin, PC Farias, da corrupção?

La Salvia e Ricca e estiveram na casa de praia de Guaxuma. Podem ter articulado o assassinato de PC Farias para ficar com seu dinheiro? O mais provável é que, se se envolveram, contaram com apoio de gente muito poderosa

Antes da eleição presidencial, PC Farias comprou uma legenda para Fernando Collor, o Partido da Reconstrução Nacional, mais conhecido por nós, da malta, como PRN, a sigla. O tesoureiro de ouro — a palavra tesoureiro contém ouro nas suas entranhas — “deu” o PRN “de presente ao então governador de Alagoas, para que concorresse ao Palácio do Planalto”.

(Xico Sá conta, com a graça de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, a fuga espetacular de PC Farias para o exterior. Não vou registrá-la, porque senão tu, que está lendo este texto, vai acabar deixando de comprar o livro, que é do balacobaco, até do balacoescracho. A “amizade” de Dom Pablo com Fidel Castro e Carlos Menem é outra história buena. Mas nosso “negócio” é outro: follow the money. A fonte Brigitte Monfort, a Garganta Profunda-Mark Felt do repórter patropi, é interessantíssima. Uma vez mais deixo a história para o leitor da obra. Ah, sim, Fernando Collor teve um caso com Suzana Marcolino.)

Ao fugir, PC Farias molhou a mão de delegados da Interpol no Brasil. Reservou 1 milhão de dólares para comprá-los (o livro menciona o nome de um delegado que se vendeu). Xico Sá conta que o advogado argentino Luis Felipe Ricca disse que a grana foi sacada “de contas do empresário em bancos suíços”.

Como PC Farias e Fernando Collor repartiam o mar de dinheiro que amealharam, em tempo recorde? “Seria 70% para o chefe do Palácio do Planalto e 30% para o tesoureiro.”

Mãe Mirian, ialorixá de Alagoas, havia alertado, presciente: “Quem tem dinheiro grande em sociedade com o dr. Paulo vai tentar eliminá-lo para ficar com tudo”. Um comentário digno de Sam Spade e Philip Marlowe, detetives de prima.

Xico Sá acrescenta: “O tesoureiro tinha ‘dinheiro grande’ — incalculável — sob a guarda de muitas pessoas físicas e jurídicas estrangeiras. Seria uma forma de lavar os recursos ilegais obtidos no Brasil”.

PC Farias tinha consciência de que estava sendo roubado pelos procuradores responsáveis por movimentar sua fortuna espalhada em contas bancárias e negócios pelo mundo. Apontava apenas dois nomes: os argentinos Ricca e La Salvia

Quem operava a fortuna de PC Farias? “Destacavam-se os dois advogados e empresários argentinos: Luis Felipe Ricca e Jorge Osvaldo La Salvia.”

Luis Felipe Ricca relatou que, de uma conta de PC Farias — no Holandsche Bank-Unie, em Montevidéu —, foram retirados 5 milhões de dólares para comprar parlamentares com o objetivo de tentar evitar o impeachment do presidente Fernando Collor.

“Ricca e La Salvia estavam autorizados a movimentar também contas na Suíça e na Holanda. Em uma agência do ABN AMRP, em Amsterdã, foram descobertos 2 milhões de dólares. A origem seria um depósito do mafioso italiano Angelo Zanetti”, registra Xico Sá.

O primeiro estranja a orientar PC Farias sobre lavagem de dinheiro no exterior foi o francês Guy de Longschamps.

O esquema PC & Fernando Collor envolveu-se “com a máfia italiana e com redes internacionais de narcotráfico”. A lavagem de dinheiro sujo do tempo colorido no exterior merece um livro à parte.

PC Farias, em nome de Fernando Collor, achacou empresários. Afinal, ladrão pode reclamar ao ser roubado?

Xico Sá diz que PC Farias “tinha consciência de que estava sendo roubado pelos procuradores responsáveis por movimentar sua fortuna espalhada em contas bancárias e negócios pelo mundo. Apontava apenas dois nomes: os argentinos Ricca e La Salvia”.

La Salvia parece ter sido o principal assaltante dos fundos de PC Farias e Fernando Collor. O tesoureiro passou a pressioná-lo para obter informações precisas a respeito de seus milhões de dólares.

Ricca e La Salvia estiveram na casa de praia de Guaxuma. Podem ter articulado o assassinato de PC Farias para ficar com seu dinheiro? Sozinhos, talvez não. Mais plausível é que, se se envolveram, contaram com apoio local de gente muito poderosa.

Então, ante o exposto, quem realmente ganhou com a morte de PC Farias? Fernando Collor, os procuradores argentinos (que devem ter ficado com parte da fortuna do tesoureiro) e empresários? “Todas as grandes construtoras do país estavam envolvidas com o esquema: OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, Queiroz Galvão, Getenco, Constram, Tratex”, pontua o livro.

Um conluio amplo ou parcial para matar o Príncipe do Latim é plausível mesmo? Pode ser. Mas falta documentação explícita. Será que, um dia, alguém vai “abrir” a matraca?

O dinheiro de PC Farias e Fernando Collor foi guardado e investido nos “Estados Unidos (Flórida), Suíça e paraísos fiscais como as ilhas Cayman, no Caribe. O tesoureiro mantinha contas bancárias nesses lugares”. Quem, afinal, as esvaziou? Parte do dinheiro foi repatriado por quem e como?

(Não vale culpar Daniel Bueno Vorcaro. O dono do Banco Master tinha apenas 13 anos quando PC Farias foi assassinado. 13!)

A must do “romance policial” de Xico Sá não está apenas no seu sensacional trabalho de reportar, contando, recontando e reabrindo a história, e sim, quem sabe sobretudo, na escrita saborosa de cronista dos tempos (relatar desgraças com humor, relativo humor, é uma grande arte, diria Zé Rubem Fonseca). Professores de jornalismo deveriam listar o livro como essencial para seus alunos.

[Email: eulerdefrancabelem@gmail.com]