O Grupo Globo demitiu Frederic Kachar, então CEO da Editora Globo, após a divulgação de mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Os diálogos, registrados entre o fim de 2023 e meados de 2025, expõem a proximidade entre os dois, negociações de patrocínios e tentativas do banqueiro de influenciar a cobertura jornalística dos veículos O Globo e Valor Econômico.

Em comunicado, a empresa afirmou que as conversas demonstram uma relação de envolvimento do executivo com um anunciante. O grupo também reiterou seu compromisso com a ética, a transparência e a independência editorial, além de informar que anunciará um substituto para o cargo.

As mensagens, encontradas no celular de Vorcaro, mostram que Kachar mantinha contato frequente com o banqueiro, a quem chamava de amigo. Além de encontros pessoais, os dois discutiam oportunidades comerciais envolvendo empresas ligadas ao empresário.

Entre as negociações estavam patrocínios para eventos promovidos pelo Grupo Globo, como o Baile da Vogue, realizado no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e o Summit Valor Econômico Brasil-EUA, em Nova York.

Pressões sobre reportagens

A relação entre os dois passou por momentos de tensão quando reportagens dos veículos abordaram assuntos considerados prejudiciais aos interesses do Banco Master.

Em abril de 2024, Vorcaro demonstrou insatisfação com uma publicação da jornalista Malu Gaspar sobre o patrocínio do banco a um evento em Londres que contou com a participação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

O banqueiro chegou a mencionar a possibilidade de cancelar o apoio financeiro a um evento do Valor Econômico em Nova York. Kachar, por sua vez, afirmou que não poderia interferir na atuação da colunista.

“Não posso censurar um colunista e seus perfis”, respondeu o então executivo, acrescentando que o empresário poderia desistir do patrocínio caso desejasse.

Apesar da resistência demonstrada nessa ocasião, outras mensagens revelam que Kachar também procurava tranquilizar Vorcaro sobre determinadas publicações e chegou a aconselhá-lo sobre como responder a reportagens desfavoráveis.

Em julho de 2025, o banqueiro voltou a reclamar da cobertura de O Globo, questionando se existiria uma ação coordenada contra ele. As críticas foram direcionadas principalmente aos jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim.

“Preciso entender se é uma campanha corporativa contra mim”, escreveu Vorcaro. Kachar negou a existência de qualquer orientação institucional nesse sentido.

Convites para festas privadas e relações comerciais

As conversas também mostram uma relação que ultrapassava os compromissos profissionais. Em maio de 2024, durante uma viagem a Nova York, Vorcaro convidou Kachar para uma festa reservada, na qual, segundo o banqueiro, não seria permitido utilizar celulares.

O executivo aceitou o convite e recebeu de Vorcaro a confirmação de que seria um dos convidados de honra. Os registros, entretanto, não permitem determinar quem participou efetivamente do encontro ou o que ocorreu durante a festa.

Em outra ocasião, os dois trocaram comentários de teor sexual sobre atrizes que participaram do Baile da Vogue, incluindo Débora Secco e Sabrina Sato.

As mensagens também mencionam o apresentador Luciano Huck. Segundo reportagem da revista Veja citada no material divulgado, investigações da Polícia Federal identificaram negociações comerciais entre Huck e Vorcaro, incluindo tratativas relacionadas a patrocínios do Will Bank e negócios envolvendo aeronaves.

Investigação aponta tentativas de atingir jornalistas

A pressão de Vorcaro sobre profissionais da imprensa também aparece em outras frentes da investigação. Em abril de 2025, mensagens obtidas pela Polícia Federal apontaram que o banqueiro solicitou ao publicitário Thiago Miranda informações sobre a vida pessoal de Malu Gaspar, com a intenção de encontrar elementos que pudessem ser utilizados contra a jornalista.

“Vamos ter que pegar algo dessa mulher no pessoal”, escreveu Vorcaro, segundo os registros.

Como a busca não apresentou resultados, os diálogos indicam que foram discutidas outras estratégias, incluindo uma proposta de contratação milionária destinada a influenciar a atuação de um jornalista.

As investigações também identificaram conversas sobre um suposto plano para simular um assalto e agredir fisicamente Lauro Jardim, após a publicação de reportagens envolvendo o patrimônio do banqueiro.

Os episódios reforçam o contexto das pressões exercidas por Vorcaro contra jornalistas que investigavam seus negócios. As mensagens divulgadas, porém, não demonstram participação de Kachar nesses planos.

Com a saída do executivo, a Editora Globo afirmou que a cobertura do caso Banco Master continuará orientada pelos princípios de independência jornalística do grupo.

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