Grupo Globo vai lançar jornal ou revista para representar ou criar uma nova direita?
10 outubro 2026 às 21h00

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Na Europa (Alemanha, Inglaterra, Itália e França) e nos Estados Unidos há várias publicações conservadoras (e liberais) de alta qualidade. Apresentam suas opiniões, criticam a esquerda, mas defendem a democacia como valor universal e fundamental.
“The Economist” não é de esquerda. Acima de tudo, é uma revista liberal; portanto, defensora do mercado. Sua qualidade é acima da média e costumeiramente, dada sua objetividade editorial, desagrada tanto a direita quanto a esquerda.
Não há nenhum publicação tão densa quanto a “Economist” no Brasil. A revista britânica mantém uma equipe de primeira linha e sua missão é refletir sobre a economia e a política globais.
Inspirada na “New Yorker”, a revista brasileira “Piauí”, dirigida pelo empresário João Moreira Salles — um dos sócios do Banco Itaú —, é de alta qualidade editorial, assim como sua madrinha americana do norte.

A “Piauí” esmera-se na publicação de reportagens especiais. Porém, sobretudo em períodos eleitorais, adere ao campo dito progressista. No momento, apoia o presidente Lula da Silva, do PT, e posiciona seu jornalismo contra Flábio Bolsonaro, o candidato do PL à Presidência da República.
Trata-se de uma escolha entre civilização, representada por Lula da Silva, e barbárie, personificada na figura de Flávio Bolsonaro.
Segundo a Revista Oeste, executivos com alguma ligação com o Grupo Globo estão conversando com ex-editores com experiência em publicações identificadas com a direita. A ideia, contudo, é manter distância do bolsonarismo
No caso de vitória do líder do PL, o país pode chafurdar no caos institucional, ainda mais. Falta à corrente bolsonarista uma tradição democrática, porque sua referência é a ditadura civil-militar, que vigorou de 1964 a 1985 — um período de 21 anos. Seus apoiadores não radicais, no centro do espectro político, parecem não pereber isto.
A força do sentimento antipetista — anti-Lula da Silva, porque o presidente é maior do que seu partido — turva a mente de integrantes da direita liberal e do centro político. Flávio Bolsonaro é mero instrumento para se livrarem do petista-chefe. E se, com alto poder concentrado, o membro do PL se afastar do centro e da direita democrática e se aferrar, ainda mais, às ideias da extrema direita?

Carlos Lacerda apoiou a ditadura, crente que os militares lhe abririam espaço para disputar a Presidência em 1965. Dançou. Os militares o cassaram e o retiraram, em definitivo, da política — sua verdadeira vocação.
A direita moderada e o centro, ao apoiarem Flávio Bolsonaro, caminham para o precipício, ou seja, para o suicídio político? Talvez. O bolsonarismo tem um projeto de continuidade para si, e não para os aliados. Aparentemente é isto, em síntese.
Na semana passada, Edilson Salgueiro, da “Revista Oeste”, publicou um texto, “Globo quer criar veículo de direita fora do bolsonarismo”, informado a respeito do projeto do Grupo Globo. Parece uma boa ideia? Talvez seja. Mas vale dimensioná-la.
O país precisa de publicações sérias, de alta qualidade, independentemeante se são de direita ou de esquerda (que tem sites ou portais de qualidade, como o ICL, a Revista Fórum, entre outros).
Há espaço para uma direita não bolsonarista? O Grupo Globo trabalha com pesquisas e deve ter percebido que há uma direita civilizada, humanista e não golpista. De que precisa? Talvez de espaço pra se manifestar e posicionar
De acordo com a “Revista Oeste”, executivos com alguma ligação com o Grupo Globo estão conversando com ex-editores “com experiência em publicações identificadas com a direita. A ideia, contudo, é manter distância do bolsonarismo”.

Busca-se, pelo visto, contato com uma direita democrática, que não fuja da ideia de alternância no poder e sem golpismos. Será, se criada, uma publicação para fazer a defesa do mercado. (Nos Estados Unidos, o jornal “Washington Post”, sob o comando de Jeff Bezos, decidiu não publicar críticas ao mercado na seção de opinião — agora ocupada por liberais e conservadores.)
Mas, afinal, qual direita o Grupo Globo realmente busca(rá)? A direita liberal — ou conservadora e, ao mesmo tempo, liberal (em termos de economia, por exemplo) — está, no momento, fortemente vinculada à extrema direita de Flávio Bolsonaro. Subordinou-se, antes de o senador se tornar presidente.
Se for eleito presidente, Flávio Bolsonaro subordinará, ainda mais, a direita liberal — presenteando-a com nacos do poder e cargos de alguma relevância, como ministérios e diretorias de estatais.
Então, há espaço para uma direita que não a bolsonarista? O Grupo Globo trabalha com pesquisas amplas — feitas pelo instituto Quaest e outras instituições. Por isso, deve ter percebido que há no país uma direita civilizada, humanista e não golpista. De que precisa? Talvez de espaço para se manifestar e posicionar.
O que se está sugerindo é que o Grupo Globo — da família Marinho — planeja ocupar o papel de porta-voz de uma nova direita, não bolsonarista?
A direita bolsonarista contará com 28 dos 81 senadores. Na Câmara dos Deputados, a direita radical saiu fortalecida. Com qual direita realmente os Marinhos vão contar para dar expressão em seu veículo de comunicação?
Ao perceber a possível debacle da esquerda — se Lula da Silva for derrotado, o PT não tem um substituto à altura para seu líder máximo, a partir de 2027 —, o Grupo Globo entendeu que é preciso criar uma direita alternativa ao bolsonarismo? É possível. Se for assim, não é má ideia. Porque o país precisa mesmo de uma direita civilizada, democrática e, daí, não golpista. Uma direita que, sem um PT forte, poderá fazer oposição, adiante, aos Bolsonaros. Nomes? Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo? Talvez. Mas hoje é vinculado fortemente ao bolsonarismo.

O Grupo Globo precisa ficar de olho nos fatos. O PL, da direita bolsonarista, contará com 28 dos 81 senadores. E há outros senadores alinhados com a extrema direita. Na Câmara dos Deputados, a direita mais radical saiu fortalecida. Então, com qual direita realmente os Marinhos vão contar para dar expressão em seu novo veículo de comunicação?
A rigor, apesar do texto da “Revista Oeste”, o Grupo Globo ainda não se manifestou oficialmente sobre sua “nova” publicação. Mas, desde já, fica a pergunta: a revista — ou jornal — vai falar para qual direita? Ou vai trabalhar para formatar uma direita não bolsonarista — o que levará tempo, considerando que o bolsonarismo permanece muito forte em todo o país?
Há publicações a “serviço” da direita no país? Há, e de qualidade. A própria “Revista Oeste”, editada por Branca Nunes, filha de Augusto Nunes (seu principal mentor), é uma publicação de direita. Pode-se discordar de suas ideias, mas é bem-feita. Uma espécie de contraponto para a Fórum, o ICL, o Brasil247, The Intercept Brasil e o Diário do Centro do Mundo.
A “Veja”, desde a saída dos Civita, se tornou uma revista conservadora, inteiramente pró-mercado. Não sei se procede, mas comenta-se, nos bastidores, que André Esteves, do Banco Pactual, tem forte influência editorial na publicação do Grupo Abril.
A “Gazeta do Povo”, do Paraná, é um jornal altamente conservador, crítico contundente da esquerda.
Mas o jornal mais conservador do país continua a ser “O Estado de S. Paulo” — o “Estadão”. Sua redação é dirigida pelo jornalista Eurípedes Alcântara, ex-diretor de redação da “Veja”.
O “Estadão” já era conservador antes da chegada de Eurípedes Alcântara, mas o jornalista imprimiu um tom ainda mais conservador e de forte oposição ao governo do presidente Lula da Silva. Ainda assim, publicou, este ano, editoriais duríssimos a respeito de Flávio Bolsonaro, que avalia como não qualificado para governar o país.
O jornal, durante anos dirigido pela família Mesquista, hoje estaria sob controle do capital finaneiro. Persiste um bom jornal, com reportagens — e mesmo análises — de primeira linha. Às vezes, no campo da opinião, excede. O jornalista Carlos Andreazza, sempre posicionado, é um dos mais excessivos. Mas críticas são sempre necessárias e o importante é manter o espaço aberto para o contraditório.


