Metrópoles e Gabriela Prioli aparecem como defensores do Banco Master. Quem escapou das teias de aço de Daniel Vorcaro?
17 outubro 2026 às 21h00

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(O único jornal isento que “conheço”, mas ainda não li, é o “Jornal do Céu”, cujo editor é Deus e o redator-chefe é Jesus. Um amigo, espírita, diz que é excelente… só registra obituários.)
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, é visto, no momento, como parte substantiva de um caso policial. Porém, é muito mais do que isto. Quando sair das páginas sobre crimes, será, por certo, pesquisado por economistas e sociólogos. Porque se trata de um caso espetacular.
Daniel Vorcaro mexeu com as estruturas do capitalismo — e não só o financeiro — no Brasil. É um caso ímpar, que merece estudo detido da USP, da Unicamp, da UFG, da UEG, de Harvard, de Stanford, de Columbia, de Princeton, de Yale, de Oxford, de Cambridge, da London School of Economics and Political Science.

Como um banqueiro, que “saiu” do baixo clero, pôde chegar tão longe e fazer negócios envolvendo bilhões de dólares? As estruturas do capitalismo patropi são frágeis ou Daniel Vorcaro é um estrategista financeiro dos mais hábeis? De algum modo, era um atleta da velocidade — um Usain Bolt das pistas financeiras.
Daniel Vorcaro enganou os potentados ou o banqueiro de Minas era, por certo tempo, um “bom” negócio? O mais provável é que não tenha iludido ninguém do meio. O mais certo é que muita gente da arena financeira — como o BTG Pactual — viu no dono do Banco Master um meio relativamente fácil de ganhar dinheiro.
Robin Hood dos ricos e remediados, como influenciadores, Daniel Vorcaro operou um sistema que, quem sabe, talvez tenha deixado outros banqueiros com inveja. Era um verdadeiro Macunaíma? É o que parece. Ainda assim, é um caso a ser amplamente estudado, para além do moralismo de ocasião (Philip Roth diria, decerto, que há uma nova santimônia em curso, notadamente a respeito da sexualidade das pessoas).

Há seriedade no mercado financeiro, da área de investimentos? Claro que há. Mas, para pessoas que têm pouco dinheiro, e ainda assim acredita que vai ganhar muito dinheiro comprando ações na bolsa, é uma fábrica de ilusões. (A história registra que “trouxas”, quase sempre bem intencionados, são a matéria-prima dos espertalhões. Vale a máxima de Lênin: o que é assaltar um banco perto de um banco.)
Conversas que envolvem Lilian Tahan são a respeito mais de negócios do que de jornalismo. É claramente o jornalismo subordinando-se aos negócios. O que é comum na imprensa. Mais comum do que imaginam os leitores
Por certo tempo, Daniel Vorcaro ganhou muito dinheiro e distribuiu parte do que amealhou com uma “multidão” de indivíduos: políticos, empresários, parentes, jornais e influencers. “Todo mundo” parecia muito feliz em lidar com um banqueiro que “dava” dinheiro àqueles que o ajudavam viva e alegremente. Antes da queda do latin lover, os senadores Ciro Nogueira, do pP, e Flávio Bolsonaro, do PL, eram hermanos mui queridos.

Entretanto, um dia, o sono e o sonho acabaram (os medicamentos Viagra e Cialis não têm nenhuma culpa, diriam o ministro Kassio Nunes Marques e o ex-global Frederic Kachar). Quando todos acordaram, Daniel Vorcaro estava preso na Papudinha em Brasília. O banqueiro deixou seus aliados “descobertos”; agora, na defensiva.
O executivo Frederic Kachar, demitido do Grupo Globo, era parceiro de Daniel Vorcaro. Recebeu favores, como sexo com mulheres selecionadas pela equipe do banqueiro.
O que o Grupo Globo ganhou com a parceria entre Frederic Kachar e Daniel Vorcaro? Não se sabe. Mas, de fato, os meios de comunicação do grupo não deixaram de criticar, em nenhum momento, as irregularidades cometidas pelo banqueiro e associados. “O Globo” publicou algumas das melhores reportagens sobre a debacle do banqueiro.
(O problema, para a mídia, é que, antes do “crash” do Banco Master, Daniel Vorcaro parecia um “santo”, uma espécie de Rodolfo Valentino do século 21. Quando o banqueiro caiu, todos o pisotearam, notadamente a imprensa, que não percebeu nenhum problema grave antes.)

O portal Metrópoles, por intermédio da jornalista Lilian Tahan, a diretora de redação, teria recebido 20 milhões de reais (o “Estadão” menciona 51,9 milhões) do Banco Master. A influência do banqueiro no portal, via editora, era imensa. O celular do banqueiro revela que ele praticamente “editava” material sobre o banco. Jornalista de bom nome no mercado, a editora do site nega que o dono do Master “editasse” o material.
As conversas que envolvem Lilian Tahan são a respeito mais de negócios do que de jornalismo. Ou melhor: é claramente o jornalismo subordinando-se aos negócios. O que, ressalte-se, é comum na imprensa brasileira. Mais comum do que imaginam os leitores.
Conversas entre Daniel Vorcaro e chefe de Comunicação e Marketing, Ana Matos, sugerem que Gabriela Prioli faturou dinheiro de Daniel Vorcaro e aceitou que o banqueiro e sua assessoria reelaborassem seus vídeos. Ela nega
Frise-se que em nenhum momento Lilian Tahan parecia negociar com Daniel Vorcaro para si. Estava a serviço da empresa de Luiz Estevão, o dono do Metrópoles. Aparentemente, não é apenas uma editora. Atuou também como executiva do setor comercial.
O que faltou? A própria Lilian Tahan, como jornalista ou executiva, esclarecer qual era seu papel real nas transações.
O que foi revelado — o “Estadão” esmerou-se na divulgação das conversas de Lilian Tahan e uma agente de Daniel Vorcaro — mancha toda a reputação do Metrópoles?

Pode-se não apreciar Luiz Estevão, sobretudo a maneira como faz negócios, mas não se pode dizer que o Metrópoles não faz jornalismo. Faz, e com alta qualidade. Sua equipe é uma das melhores do país. Aos 77 anos, o jornalista Ricardo Noblat é um de seus principais colunistas.
Quantos jornais, durante sua história de erguimento e consolidação, não fez negócios poucos católicos? Depois de estabelecidos, puderam limpar suas histórias.
A “Folha de S. Paulo” usou a campanha das Diretas Já de 1984 para reduzir um aspecto negativo de sua trajetória — o apoio integral à ditadura civil-militar. O jornal, de excelente qualidade, não deveria tentar “esconder” uma faceta negativa de sua história. Porque seu jornalismo, avaliando pela média, é largamente positivo.
Poucos escaparam às teias de aço de Vorcaro. É provável que novas revelações apareçam nos jornais. Muita gente com cara de santo vai ficar com cara de demônio? O capitalismo tem como funcionar baseado em regras éticas?
A revista “Veja” serviu a cabeça de seu diretor de redação, Mino Carta, ao governo do presidente-general Ernesto Geisel, em 1976. Ganhou o quê? O jornalista dizia que recebeu suporte para um empréstimo vultoso no exterior. A biografia de Roberto Civita sugere que isto “não” é verdadeiro.

A “Veja” alinhou-se com o governo militar, com a saída de Mino Carta? Não. Continuou crítica. Conectou-se, porém, à defesa da distensão e da abertura — o que era positivo para o país. Hoje, a revista estaria conectada ao mercado financeiro? Não se tem informações precisas a respeito.
De 2021 a 2025, o “Estadão” recebeu 1,12 milhão de reais do Banco Master. O empreendimento de Daniel Vorcaro patrocinou a cobertura do GP Brasil de Fórmula e divulgou anúncios.
Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro, orientou o “Estadão” na captação de 142,5 milhões de reais no mercado financeiro.
É possível garantir que, descobertas as falcatruas de Daniel Vorcaro, o “Estadão” passou a defendê-lo? Não. O jornal faz uma das coberturas mais críticas e contundentes — um tom acima do material da “Folha de S. Paulo” e de “O Globo”.
A reportagem do Metrópoles diz que a “Folha de S. Paulo” teria “amenizado” uma matéria sobre o Banco Master. O diretor de redação do jornal paulista, Sérgio Dávila, afirma que não segurou nem amenizou o texto.

Na sua resposta ao Metrópoles, Sérgio Dávila admite que o Banco Master anunciou na “Folha de S. Paulo”. Suas palavras: “Ao longo de cinco anos a ‘Folha’ recebeu um total de R$ 516.441,60 em anúncios veiculados no jornal, ou cerca de 2,58% do total de R$ 20 milhões recebidos em apenas um dos pagamentos feitos por Vorcaro ao Metrópoles”.
Procede que a “Folha” protegeu o Banco Master e Daniel Vorcaro. A rigor, não. O jornal manteve sua instância crítica.
Quanto ao recebimento pela publicação de anúncios, a pergunta a ser feita é: quem, dos grandes jornais, nada recebeu do Banco Master? Os dados disponíveis informam que Daniel Vorcaro, com seu banco, era grande anunciante da mídia patropi.
O jornalista Léo Dias teria sido um dos influencers bancados por Daniel Vorcaro? Ao menos seu ex-sócio vinculou-se à defesa do Banco Master.
A advogada e influenciadora digital Gabriela Prioli, cuja história é positiva, teria sido envolvida pelos tentáculos de Daniel Vorcaro?
Conversas entre Daniel Vorcaro e a chefe de Comunicação e Marketing do Banco Master, Ana Matos, sugerem que Gabriela Prioli “faturou” dinheiro de Daniel Vorcaro e “aceitou” que o banqueiro e sua assessoria reelaborassem seus vídeos.
Nas conversas divulgadas pelo “Estadão” não há fala de Gabriela Prioli com vorcarianos. Mas, de fato, vídeos da influenciadora sugerem uma “defesa” dos negócios do Banco Master.
O “Estadão” menciona um contrato de 12 meses entre Gabriela Prioli e o Banco Master. De acordo com o jornal, ela “fazia parte de uma tropa de choque digital financiada pelo Master, composta por cerca de 15 influenciadores ‘de esquerda e de direita’”.
Na sua defesa, Gabriela Prioli contesta o material divulgado pelo jornal paulista. “Onde está o suposto contrato? Onde estão os comprovantes dos supostos pagamentos? 100% do meu faturamento está documentado por notas fiscais e nenhuma delas foi emitida para o Banco Master ou empresas ligadas a Daniel Vorcaro”.
Gabriela Prioli insiste que não manteve “nenhuma relação comercial” com Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Pouca gente escapou às teias de aço de Daniel Vorcaro/Banco Master. É provável que novas revelações apareçam nos jornais. Muita gente com cara de santo vai ficar com cara de demônio?
O capitalismo tem como funcionar baseado em regras estritamente éticas? Ou esta é uma utopia das mais ingênuas? De resto, vale a máxima: quer pureza? Não vá ao convento.


