Morre Angelita Habr-Gama, referência mundial em coloproctologia e uma das médicas mais premiadas do Brasil
31 maio 2026 às 17h21

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A médica e pesquisadora Angelita Habr-Gama morreu neste sábado, 30, aos 92 anos. Referência mundial em coloproctologia e no tratamento do câncer colorretal, ela estava internada desde o dia 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. A causa da morte não foi divulgada.
Reconhecida como uma das médicas mais importantes do Brasil, Angelita construiu uma trajetória marcada por pioneirismo, descobertas científicas e superação em um ambiente historicamente dominado por homens. Ao longo da carreira, acumulou dezenas de prêmios nacionais e internacionais e se tornou símbolo da medicina brasileira no exterior.
Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, Angelita era filha dos libaneses Nagibi e Kalil Habr-Gama. A mudança da família para São Paulo aconteceu após a morte do irmão Nader, vítima de apendicite supurada. O episódio marcou a infância da médica e influenciou sua decisão de seguir carreira na saúde.
Mesmo enfrentando resistência do pai, que desejava vê-la professora, Angelita ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em 1952. Durante a formação, também precisou enfrentar preconceitos por escolher a cirurgia como especialidade.
Em entrevista anterior, a médica relembrou que ouviu de um chefe da residência que deveria ceder a vaga a um homem porque “iria casar e abandonar a profissão”. Ainda assim, prestou o concurso e foi aprovada em primeiro lugar, tornando-se a primeira mulher a fazer residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP.
Anos depois, voltou a quebrar barreiras ao ser aceita no Hospital St. Marks, em Londres, instituição especializada em cirurgias intestinais que, até então, aceitava apenas homens. Em 1962, tornou-se a primeira mulher admitida no local.
De volta ao Brasil, Angelita retomou os trabalhos no Hospital das Clínicas da FMUSP e também se tornou a primeira mulher a chefiar o Departamento de Cirurgia da instituição. Além disso, teve papel importante para o reconhecimento da coloproctologia como especialidade médica no país.
A médica também integrou a equipe responsável pelo atendimento do ex-presidente Tancredo Neves. Ela foi a única mulher entre os profissionais que acompanharam o político durante a internação.
Angelita Habr-Gama revolucionou o tratamento do câncer de reto
Entre as maiores contribuições científicas de Angelita Habr-Gama está o protocolo “Watch and Wait”, criado nos anos 1990. O método revolucionou o tratamento do câncer de reto ao propor que pacientes com resposta completa à quimioterapia e radioterapia fossem acompanhados clinicamente, sem necessidade imediata de cirurgia.
A descoberta permitiu que muitos pacientes evitassem procedimentos invasivos e o uso permanente de bolsa de colostomia, garantindo melhor qualidade de vida sem comprometer os resultados do tratamento.
Em 2024, o protocolo foi incorporado às diretrizes da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) para tratamento de câncer de reto avançado. Foi a primeira vez que recomendações da entidade incluíram contribuições de médicos latino-americanos.
Ao longo da carreira, Angelita Habr-Gama recebeu diversos reconhecimentos internacionais. Em 2022, foi apontada pela Universidade de Stanford como uma das cientistas que mais contribuíram para o avanço da ciência no mundo.
Já em 2023, tornou-se a primeira mulher a receber a medalha Bigelow, concedida pela Sociedade de Cirurgia de Boston, nos Estados Unidos, a profissionais com contribuição relevante para o progresso científico e o ensino da cirurgia.
Em nota, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz lamentou a morte da médica e destacou sua importância para a instituição e para a medicina brasileira. “Perdemos uma grande profissional e uma colega de quem sempre iremos nos lembrar com respeito, gratidão, carinho e admiração”, afirmou o hospital.
Durante a pandemia de covid-19, Angelita também enfrentou uma longa internação após ser diagnosticada com o coronavírus. Ela passou cerca de 50 dias na UTI e, após receber alta, afirmou que pretendia voltar a atender pacientes o mais rápido possível. “Eu sempre trabalhei por gosto e prazer. O sucesso foi uma consequência do gosto e da dedicação ao trabalho”, declarou a médica em uma de suas últimas entrevistas públicas.
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