O mercado ilegal de peptídeos injetáveis, turbinado por influenciadores e clínicas de estética que prometem resultados antienvelhecimento e aumento de massa muscular, já chegou em Goiás. De acordo com o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional Goiás (SBD-GO) e tesoureiro do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), Dr. Adriano Loyola, o órgão recebe, em média, duas denúncias por semana envolvendo a aplicação clandestina dessas substâncias, e os registros se concentram principalmente em Goiânia.

Enquanto as propagandas prometem a regeneração tecidual e a produção de colágeno, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não autoriza o uso injetável desses compostos, que, sem aprovação no Brasil ou nos Estados Unidos, entram no país por contrabando e frequentemente são aplicados sem que o paciente saiba o que está recebendo.

O que são os peptídeos e por que viraram febre

Os peptídeos são fragmentos de proteínas formados por cadeias curtas de aminoácidos, geralmente de 2 a 50 dessas moléculas. O organismo humano produz peptídeos naturalmente, e versões sintéticas são fabricadas para imitar ou amplificar funções naturais. “Eles agem como mensageiros químicos”, explica o diretor financeiro do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (SIMEGO), Robson Azevedo, ao Jornal Opção. “Quando você junta um ou duas moléculas desses aminoácidos, você acaba formando um peptídeo. Ele é formado por esses aminoácidos, e isso funciona como se fosse um mensageiro químico. Ele vai dizer para o corpo exatamente o que o corpo tem que fazer.” 

Robson Azevedo | Foto: Reprodução

Segundo Azevedo, na dermatologia estética um peptídeo de sinalização pode, por exemplo, enviar “um alerta falso para a pele, para a pele entender que sofreu uma lesão. Aí, com isso, ele força o corpo a produzir colágeno naturalmente, outros elementos como elastina, para reparar aquele local”. Há ainda peptídeos que bloqueiam sinais nervosos, de forma semelhante à toxina botulínica, e outros que transportam minerais.

No entanto, substâncias como GHK-Cu (peptídeo de cobre), BPC-157 e TB-500, amplamente divulgadas nas redes sociais, não possuem comprovação científica para uso injetável em humanos. A Anvisa libera o uso tópico (cremes e séruns) desde que o produto tenha registro cosmético, mas barra terminantemente a via injetável. A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora americana, também mantém a proibição.

Como o mercado clandestino opera em Goiás

O caminho pelo qual os frascos chegam às clínicas goianas preocupa. “Muitas vezes fala que é esse produto, peptídeo, e não é, é uma outra substância, muitas vezes a pessoa tá até administrando ali, vamos supor, um complexo de vitamina e falando que é peptídeo. Aí cobra caro e muitas vezes lucra em cima do paciente, falando que é uma coisa e não é”, alerta o Dr. Adriano Loyola.

Dr. Adriano Loyola | Foto: Reprodução

Em abril deste ano, a Polícia Federal apreendeu 1 tonelada dessas substâncias no Aeroporto de Viracopos, em São Paulo. Os policiais identificaram na apreensão que a carga vinha principalmente da China e de Hong Kong, e entravam no país com falsa declaração de conteúdo, revelando a escala do contrabando.

Uma das principais confusões que alimentam o comércio irregular é a diferença entre o produto industrial registrado como cosmético e a manipulação farmacêutica. A conselheira do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO), Layanne Glacyelle, explica ao Jornal Opção que “muitas empresas trazem esses peptídeos, esses produtos industriais de fora do Brasil e acabam registrando na Anvisa como uso cosmético. Porém, essas empresas acabam ensinando, dando workshops, falando que pode se injetar.” 

Ela reforça que, uma vez classificado como cosmético, o produto não pode ser injetado e sequer usado com microagulhas, porque “uma vez que rompeu a barreira da derme, ele já tem um contato mais profundo”. Já a farmácia de manipulação, que produz um injetável estéril mediante receita individual, segue outra regulamentação, mas, como lembra Layanne, em Goiás não há farmácia de manipulação de injetáveis, o que obriga o profissional a encomendar de outros estados.

Doutora Layanne Glacyelle | Foto: Reprodução

A ferramenta que a Vigilância Sanitária orienta é a consulta ao site “Estética com segurança” (www.gov.br/anvisa), onde qualquer pessoa pode digitar o código do produto e verificar se o registro é cosmético ou de dispositivo médico. “Uma vez que esse produto está registrado como cosmético, ele não pode ser injetado, e muito menos microagulhas”, insiste a conselheira.

Riscos à saúde: infecções, contaminação e danos desconhecidos

Os efeitos adversos relatados pelas autoridades são numerosos. Robson Azevedo fala em “risco altíssimo de infecção bacteriana grave, por falta de esterilização” e alerta para a “presença de outros resíduos tóxicos, decorrente do laboratório clandestino”, que podem desencadear desde hipertensão até desregulação endócrina. “As pessoas acabam se tornando um laboratório vivo desses produtos irreparáveis”, resume.

Layanne Glacyelle detalha o momento crítico da aplicação. “O profissional ele fura a pele para poder fazer a aplicação, mas fura aquela borrachinha ali para poder fazer a aplicação e como não tem um teste da Anvisa de estabilidade de monodose, ou seja, que é aquilo que por mais que eu fracionei eu garanto a estabilidade. Esse produto não tem esse teste. E aí, uma vez que ele furou, ele já perdeu totalmente sua esterilidade.” Além das infecções, a farmacêutica cita risco de má cicatrização, hiperpigmentação e inflamações.

O Dr. Adriano Loyola reforça que os estudos sobre efeitos colaterais e benefícios de longo prazo ainda são insuficientes. “Não se sabe ainda, no uso injetável, se os benefícios do uso superam os riscos, tem muita coisa sendo trabalhada em pesquisas, mas ainda nada elucidado, por isso que não é liberado.” 

Ele compara a situação com a do medicamentos Mounjaro, que, após a liberação, está revelando em pesquisas a perda de massa muscular e óssea. Como os peptídeos injetáveis ainda estão no início das investigações, Loyola pede cautela. “Então não se sabe ao certo ainda o que pode causar, por isso, espero os trabalhos ficarem mais robustos, mais complexos, pra gente já saber quem pode utilizar, quem que não pode”.

O dermatologista também derruba as promessas milagrosas que circulam na internet. Para o uso tópico permitido, “não existe milagre”. “A gente vê na internet uma pessoa cheia de ruga envelhecida, aí passa um creme com peptídeo e fica 10 anos mais jovem, ou já vi um paciente com um monte de cicatriz de acne, aplicou o produto, não tem mais nenhuma. Não existe isso”, afirma. Ele explica que o produto superficial com peptídeo tem ação localizada de hidratação e melhora da qualidade da pele, mas não trata rugas profundas, flacidez ou cicatrizes.

Fiscalização e canais de denúncia

Em Goiás, a fiscalização do Cremego é feita mediante denúncia. “Se algum paciente for submetido a esse procedimento injetável, e depois, ou ele tem alguma reação, ou ele viu na internet que não pode ser injetado, e ele se sentir lesado, ele pode fazer uma queixa denúncia no Cremego, e o conselho manda a fiscalização lá nesse local da denúcia. Se for detectado o produto ali de forma injetável, essa clínica é fechada, ela tem que pagar multas”, detalha Loyola, confirmando que os casos que recebem denúncia são majoritariamente na capital.

Simultaneamente, a Vigilância Sanitária faz inspeções rotineiras e, ao encontrar locais ilegais com as substâncias, realiza apreensões e determina a incineração do material. 

O CRF-GO, por sua vez, atua sobre distribuidoras e farmácias, e tem intensificado as orientações aos profissionais de saúde. “A gente tem trabalhado muito próximo à Vigilância Sanitária”, conta Layanne Glacyelle.

Enquanto os conselhos reforçam os informes de alerta enviados por e-mail e divulgados nas redes sociais, o recado dos médicos é um conjunto de alerta para o paciente: se cogitar aplicar peptídeos injetáveis, você pode estar, na prática, se submetendo a um experimento de alto risco, com procedência duvidosa e sem qualquer garantia de segurança.

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