A memória da comunidade surda goiana ganhou um registro definitivo com o lançamento de “A Língua de Sinais em Goiás e as memórias de um professor surdo – Uma história sinalizada”, obra que a professora doutora Edna Misseno, da Universidade Federal de Goiás (UFG), acaba de publicar pelo selo Pá de Palavra, da editora Parábola Editorial. Fruto de uma pesquisa profunda, o livro reúne documentos inéditos, fotografias, relatos biográficos e memória social para reconstruir a trajetória do professor Edson Franco Gomes e, junto com ela, o processo de consolidação da Libras e da educação de surdos no estado. 

Em entrevista ao Jornal Opção, Edna Misseno revela que o projeto nasceu da convivência cotidiana com a comunidade surda. “Tive contato com surdos na infância, mas só na adolescência tive contato com a Libras, inicialmente aprendi a Libras apenas pela convivência com a comunidade surda e fazendo trabalhos voluntários”, relembra. 

Na única escola de Libras que existia na época, ela conheceu o professor Edson e, já como docente no ensino superior, passou a convidá‑lo frequentemente para compartilhar a história de como a língua de sinais chegou a Goiás. Foi então que a pesquisadora percebeu uma lacuna. “Percebi que muitas histórias importantes, especialmente de pioneiros como o professor Edson Franco Gomes, não estavam devidamente registradas”, explica. 

O ponto de virada aconteceu quando o próprio professor Edson pediu ajuda para eternizar aquilo que até então vivia apenas em sua memória. “Foi nesse momento que compreendi a urgência de transformar essas memórias em registro escrito, garantindo que essa história não se perdesse com o passar das gerações”, afirma a autora.

Edson Franco Gomes com o livro “A Língua de Sinais em Goiás e as memórias de um professor surdo – Uma história sinalizada” | Foto: Reprodução

Para dar corpo a esse compromisso, Edna mergulhou em um processo de investigação que ela mesma define como intenso e enriquecedor. “O processo envolveu a análise de documentos históricos, fotografias, entrevistas com pessoas que fizeram parte dessa trajetória e a coleta de relatos que, muitas vezes, nunca haviam sido formalizados”, detalha. 

Durante esse percurso, descobertas surpreendentes ampliaram seu olhar sobre a história da educação de surdos. Entre elas, a localização da foto do contrato do professor Edson como o primeiro professor surdo contratado pela Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc) na década de 1960, a revelação de que Hélvio Antônio de Oliveira foi o primeiro surdo a se formar na UFG, nos anos 1970, e o reconhecimento precoce da Língua de Sinais em Goiás pela Lei 12.081/93, muito antes do marco nacional da Lei 10.436, de 2002. “Estas descobertas ampliaram a minha compreensão sobre a história da educação de surdos e reforçou a importância de valorizarmos essas narrativas”, destaca.

Ao dar centralidade às memórias de Edson Franco, Edna Misseno almeja provocar uma mudança na forma como a sociedade enxerga o protagonismo surdo. “Espero contribuir para que a sociedade reconheça o papel fundamental da comunidade surda como protagonista de sua própria história”, projeta. Para a professora, o livro busca justamente “dar ‘voz’ e visibilidade aos surdos” e ultrapassa os limites de uma biografia individual. 

“Trata-se de um reconhecimento coletivo, que revela a luta por direitos, por educação de qualidade e pelo respeito à língua e à cultura surda dentro da história da educação brasileira”, completa.

A trajetória da pesquisadora com a Libras começou na educação. “Quando tive contato com estudantes surdos e com a Libras”, conta. A partir daí, Edna construiu uma carreira acadêmica focada em Educação Inclusiva, Educação de Surdos, Língua de Sinais e Formação de Professores, sempre com o olhar voltado ao fortalecimento da educação bilíngue e à valorização da Libras como primeira língua. 

Mesmo com a obra publicada, ela avalia que “ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, como a ampliação do conhecimento da Libras pela sociedade, a formação adequada de professores e a valorização da cultura surda”. E acrescenta, com a sensibilidade de quem compreende que a memória é ferramenta de transformação social: “é fundamental garantir que mais histórias como essa sejam registradas, para fortalecer a identidade e a memória da comunidade surda.” 

A autora sublinha ainda que “a obra busca preservar uma história construída pelo professor Edson Franco, mas também por educadores, estudantes, famílias e lideranças surdas, servindo como uma fonte para interessados em estudos sobre inclusão, políticas públicas e memória”.

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