A rede pública de saúde de Goiás passou a oferecer, no início deste ano, o implante subdérmico contraceptivo Implanon por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A primeira remessa enviada pelo Ministério da Saúde trouxe 17.407 dispositivos, direcionados aos municípios goianos com mais de 50 mil habitantes. A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) já havia concluído, no primeiro semestre, as capacitações teóricas e práticas de médicos e enfermeiros que atuam nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). 

Para conseguir o implante, a paciente precisa procurar a UBS de referência e ingressar no fluxo da Atenção Primária. Embora o período de espera dependa da organização de cada município, a gerência estadual projeta um avanço significativo no planejamento reprodutivo das goianas.

Em entrevista ao Jornal Opção, a gerente de Atenção Primária da Superintendência de Atenção Integral à Saúde da SES-GO, Amanda Faria, detalhou o funcionamento do programa e reforçou que a chegada do Implanon não elimina as demais alternativas já disponíveis na rede. “O Implanon tem eficácia de até três anos e dispensa o uso diário de anticoncepcionais”, afirmou. 

A gestora explicou que, mesmo com a alta tecnologia, a usuária precisa manter o acompanhamento rotineiro na Atenção Primária à Saúde, que vai além da verificação do dispositivo. “Após a inserção, é importante que a mulher mantenha o acompanhamento de rotina (…), não apenas em relação ao implante, mas também aos demais cuidados com a saúde da mulher”, orientou Amanda. Ela listou ainda os sinais que exigem retorno imediato à equipe: “dor intensa, sinais de infecção no local da inserção, dificuldade para palpar o implante, sangramento uterino que cause grande incômodo, suspeita de gravidez ou qualquer efeito adverso que impacte sua qualidade de vida”. A mulher também pode solicitar a retirada do método a qualquer momento, se assim desejar.

Amanda Faria | Foto: Arquivo pessoal

Segundo a gerente, a SES-GO enxerga o Implanon como mais uma peça de um leque contraceptivo que já inclui preservativos, pílulas, injetáveis, DIU de cobre e laqueadura. A escolha, destacou, “deve ser individualizada, respeitando as necessidades, preferências e condições clínicas de cada mulher, sempre com orientação dos profissionais de saúde”. 

A Secretaria reconhece uma demanda reprimida pelo método, principalmente porque o custo na rede privada sempre restringiu o acesso. “A expectativa é que a demanda aumente gradativamente à medida que a população e os profissionais conheçam melhor a estratégia e que a implantação seja consolidada nos municípios”, acrescentou Amanda. A pasta, contudo, ainda não dispõe de um sistema informatizado que permita contabilizar quantos implantes já foram inseridos nos braços das pacientes goianas.

Do ponto de vista clínico, o ginecologista e obstetra Dr. José Ricardo Lopes Filho, que atua no Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia (HMAP), confirmou a segurança e a potência do dispositivo. “O Implanon é absolutamente seguro de ser colocado, e é um procedimento que é realizado sob anestesia local. Então, ele é um procedimento praticamente indolor, a única dor que tem é a picadinha da anestesia”, descreveu. 

O médico fez, no entanto, uma ressalva quanto à execução do procedimento. “Uma coisa que é importante ressaltarmos é que a inserção do Implanon é um ato médico, e com essa popularização, alguns municípios estão utilizando profissionais da enfermagem para inserção de Implanon. É algo que eu não concordo”, declarou.

O especialista explicou que a posição correta do implante (na camada subdérmica, e não no tecido subcutâneo) é determinante para o sucesso do método. “Quando ele é colocado de forma errada no subcutâneo, isso pode diminuir a eficácia dele, e dificulta muito a retirada. Então, uma retirada que era para ser fácil, ela se torna extremamente dificultosa, quase que um procedimento cirúrgico mesmo”, alertou. De acordo com o Dr. José Ricardo, a etapa de inserção propriamente dita leva segundos, após a preparação que consome cerca de cinco minutos. 

Uma vez aplicado, o Implanon dispensa exames periódicos de localização, diferentemente do DIU, mas a paciente precisa passar anualmente pelo ginecologista para os exames de rotina. O médico ainda enfatizou que o implante se classifica como um LARC (método contraceptivo reversível de longa duração e alta eficácia). “O Implanon hoje, ele é um método anticoncepcional mais seguro que existe. Ele é mais seguro, inclusive, que a laqueadura, que é um procedimento cirúrgico”, comparou.

Dr. José Ricardo Lopes Filho | Foto: Reprodução

Na avaliação de José Ricardo, a consulta médica prévia é insubstituível para checar o histórico de trombose, câncer de mama, enxaqueca com aura e outras condições que contraindicam o uso. 

Enquanto a rede pública se estrutura, a Coordenadora Científica de Produtos para Saúde, Raquel Anacleto, de 28 anos, vivenciou o método fora do SUS. “A primeira vez que coloquei o Implanon foi em 2022”, contou. Na época, ainda estudante de pós-graduação e sem trabalho formal, ela tentou o DIU, mas sentiu muita dor e desistiu. Conheceu então uma organização social, o Instituto Aramí Saúde Mulher, que atua na prevenção da gravidez na adolescência.

Como as unidades do Implanon recebidas por doação eram escassas e priorizavam adolescentes, Raquel decidiu comprar o dispositivo por cerca de R$700 reais na internet e a ONG fez a inserção gratuitamente, com supervisão de uma médica responsável e a participação de residentes em ginecologia.

Passados três anos, já com o implante vencido, Raquel enfrentou um novo obstáculo: o SUS havia liberado o Implanon, mas apenas para mulheres de até 25 anos. Aos 28, ela não se enquadrava (O SUS fez a liberação para todas as idades a partir de julho de 2025). Recorreu novamente ao instituto, que acabou conseguindo encaixá-la em junho do último ano. “Dessa última vez (…) eu consegui colocar cem por cento gratuito, e eu estou com ele agora a segunda vez”, celebrou. 

Sobre o procedimento, descreveu: “A aplicação é feita com anestesia local, então você não sente, só é um pouco invasivo, porque é uma agulha grande”. O pós-implante trouxe um hematoma que foi mudando de cor ao longo das semanas, mas a cicatrização transcorreu sem intercorrências. “Nas duas primeiras semanas eu tive um pouquinho de irritabilidade, mas pra mim particularmente, eu vejo que é muito individual”, afirmou. Ela praticamente parou de menstruar, efeito que considera positivo, e não associa o ganho de peso ao método, pois já havia emagrecido durante o primeiro ciclo de uso.

Raquel também ressaltou a tranquilidade que o Implanon proporciona em comparação ao DIU. Como alguém que antes enfrentava vaginismo, ela viu na segurança contraceptiva um ganho expressivo de qualidade de vida. Sobre o acesso via SUS, ponderou que a exigência de palestras presenciais durante a semana pode afastar mulheres que trabalham e não têm flexibilidade de horário, barreira que, na opinião dela, merece atenção quando se fala em alcançar adolescentes e populações vulneráveis.

Raquel Anacleto | Foto: Arquivo pessoal

No âmbito estadual, a SES-GO trabalha para consolidar a oferta com protocolos técnicos, materiais de apoio e mais capacitações. A gerente Amanda Faria sublinhou que a incorporação do Implanon ao SUS “tem potencial para reduzir gestações não planejadas, especialmente entre adolescentes e mulheres em situação de maior vulnerabilidade social”. 

Ela também fez questão de rebater mitos frequentes, como o de que o dispositivo fica circulando pelo corpo ou de que a fertilidade não volta. “A fertilidade retorna rapidamente após a retirada do implante”, assegurou. Ainda segundo Amanda, o ganho de peso não é um efeito esperado para todas as usuárias e, quando aparece, costuma estar ligado a múltiplos fatores. “A decisão pelo método deve ocorrer após aconselhamento qualificado, com informações claras sobre seus benefícios, possíveis efeitos e também sobre as demais opções contraceptivas disponíveis no SUS”, reforçou.

Para a Secretaria, garantir o acesso físico ao implante e disseminar informação de qualidade são metas complementares. “O acesso só produz resultados quando vem acompanhado de informação de qualidade e de um aconselhamento adequado”, resumiu Amanda. O princípio norteador, concluiu, é promover autonomia, ampliar possibilidades de escolha e fortalecer o cuidado integral à saúde da mulher.

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