Hantavírus tem alta taxa de mortes, mas chance de epidemia é baixa, diz especialista
07 maio 2026 às 17h09

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O registro de casos de hantavírus em um cruzeiro na Argentina reacendeu o alerta sobre a doença viral transmitida principalmente por roedores silvestres. Apesar da preocupação envolvendo os casos recentes, especialistas afirmam que o risco de epidemia é considerado baixo e que a transmissão entre pessoas continua sendo uma situação rara e restrita a variantes específicas do vírus.
Ao Jornal Opção, o médico infectologista Marcelo Daher explicou que o hantavírus é um grupo de vírus transmitido por roedores e que apresenta comportamentos diferentes dependendo da região do mundo. “O hantavírus foi identificado inicialmente em casos relacionados à região do rio Hanta, na China, causando uma síndrome principalmente renal. Depois foi descoberto que, em países como Brasil, Argentina e Estados Unidos, ele causa principalmente lesões pulmonares graves”, afirmou.
Segundo o infectologista, nas Américas, a doença costuma provocar a chamada síndrome cardiopulmonar por hantavírus, quadro que pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória grave. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a taxa de mortalidade pode chegar a 50% no continente americano.
A transmissão acontece principalmente pelo contato com urina, saliva ou fezes de roedores infectados. A contaminação ocorre, na maioria das vezes, quando pessoas entram em contato com ambientes fechados ou pouco ventilados onde houve circulação desses animais.
“A forma mais comum está relacionada a trabalhadores rurais, pessoas que lidam com armazenamento de grãos, paiol e áreas de mata. É um vírus muito associado ao rato silvestre, principalmente ao rato do campo”, explicou.
De acordo com a OMS, atividades como limpeza de galpões, trabalhos agrícolas, manejo florestal e permanência em locais infestados por roedores aumentam significativamente o risco de exposição ao vírus.
Os sintomas iniciais podem se confundir com outras doenças respiratórias e febris. Febre, dores musculares, dor de cabeça, náuseas e mal-estar costumam surgir entre uma e oito semanas após a exposição ao vírus. Nos casos mais graves, o quadro evolui rapidamente para falta de ar, acúmulo de líquido nos pulmões e insuficiência respiratória.
“O que diferencia os casos graves é justamente essa evolução para um comprometimento pulmonar importante, uma espécie de pneumonite viral severa”, disse o infectologista.

A OMS afirma que o diagnóstico precoce é um desafio porque os sintomas iniciais se assemelham aos de gripe, Covid-19, dengue, leptospirose e outras infecções virais. O histórico de exposição a roedores e ambientes rurais é considerado fundamental para suspeita clínica.
Apesar da preocupação envolvendo os casos registrados na Argentina, o médico afirma que a transmissão entre humanos é extremamente rara. Segundo ele, apenas uma variante específica do vírus, conhecida como vírus Andes, encontrada principalmente na Argentina e no Chile, demonstrou capacidade limitada de transmissão entre pessoas.
“Em praticamente todos os outros lugares, a transmissão depende do roedor. Uma pessoa doente não transmite para outra. O vírus Andes é uma exceção muito específica e localizada”, explicou.
O infectologista acredita que essa característica pode estar relacionada aos casos registrados recentemente em um cruzeiro, onde pessoas permaneceram confinadas em ambientes fechados por longos períodos. “É uma situação muito específica. O ambiente do navio favorece esse contato prolongado, mas não existe risco de epidemia. Não é uma doença com potencial de transmissão comunitária ampla”, afirmou.
Segundo a OMS, os casos de transmissão entre pessoas ocorreram principalmente entre contatos íntimos ou familiares próximos, durante a fase inicial da doença.
Ainda não existe tratamento antiviral específico ou vacina licenciada contra hantavírus. O atendimento médico é baseado em suporte intensivo, monitoramento respiratório e controle das complicações pulmonares, cardíacas e renais.
A principal forma de prevenção continua sendo o controle da exposição a roedores. A OMS recomenda evitar o acúmulo de lixo, vedar frestas em residências e galpões, armazenar alimentos adequadamente e umedecer locais contaminados antes da limpeza, evitando varrer fezes secas ou poeira contaminada.
Marcelo Daher afirma que, embora rara, a doença exige atenção pela gravidade dos casos. “Não é um vírus que tenha potencial para gerar grandes surtos populacionais, mas preocupa porque quando a pessoa desenvolve a forma grave, a mortalidade é alta”, afirmou.
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