O Hamas anunciou nesta segunda-feira, 6, que pretende dissolver o governo que mantém na Faixa de Gaza e transferir a administração do território para um comitê tecnocrata palestino previsto no acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. A medida ocorre em meio ao impasse nas negociações e é vista por analistas como uma tentativa de aumentar a pressão sobre Israel para avançar na implementação do acordo.

O anúncio foi feito por Ismail al-Thwabta, chefe do Gabinete de Mídia do Governo (GMO) do Hamas. Segundo ele, o grupo está preparado para entregar a administração civil ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), responsável por governar o território conforme previsto nas negociações.

Apesar da sinalização, o Hamas não mencionou o desarmamento de seu braço militar, uma das principais exigências de Israel para a segunda fase do cessar-fogo e que o grupo continua rejeitando.

Na prática, a decisão não altera imediatamente a situação em Gaza. O Hamas segue controlando as áreas do território que não estão sob ocupação das forças israelenses. Ainda assim, o anúncio desloca o foco das negociações para Israel, que enfrenta pressão dos Estados Unidos para dar continuidade ao plano de cessar-fogo.

O grupo palestino também pediu que os mediadores internacionais pressionem Israel para permitir a entrada do NCAG na Faixa de Gaza e o início de suas atividades administrativas.

Criado como parte do acordo mediado pelos EUA, o comitê tecnocrata foi concebido para assumir a administração civil de Gaza após a saída do Hamas. No entanto, o órgão permanece no Cairo e ainda não conseguiu iniciar suas funções no território.

Em comunicado publicado na rede social X, o Conselho de Paz, criado para acompanhar a implementação do cessar-fogo, afirmou que recebeu o anúncio com cautela e declarou aguardar “ações, não promessas”. O órgão também voltou a defender o desarmamento do Hamas, afirmando que o princípio deve ser “uma autoridade, uma lei e uma arma”.

Especialistas avaliam que o movimento busca demonstrar disposição do Hamas em abrir mão da administração civil para destravar o acordo. Segundo Muhammad Shehada, pesquisador do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a iniciativa representa uma tentativa de dialogar diretamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contornando o governo israelense.

Mesmo assim, analistas destacam que Israel mantém controle militar sobre grande parte da Faixa de Gaza, o que pode limitar qualquer mudança administrativa.

O plano de cessar-fogo permanece paralisado. Embora a primeira fase previsse a interrupção completa dos combates, Israel continua realizando ataques no território. De acordo com o Ministério da Saúde palestino, mais de mil pessoas morreram em Gaza desde o início do cessar-fogo.

Na segunda etapa do acordo, as tropas israelenses ampliaram a área sob ocupação e atualmente controlam cerca de 70% da Faixa de Gaza, enquanto uma força internacional prevista para garantir a segurança da região ainda não foi implantada. Enquanto isso, o Hamas continua exercendo autoridade nas áreas que permanecem fora do controle militar israelense.

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