Goiás se antecipa ao Super El Niño com novas ferramentas climáticas; previsão da qualidade do ar já tem 72 horas de antecedência
20 agosto 2026 às 12h11

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O Estado de Goiás passa a contar, a partir desta quarta-feira, 20, com uma previsão da qualidade do ar com antecedência de até 72 horas, um boletim semanal focado na Região Metropolitana de Goiânia (RMG) e uma versão mais interativa da ferramenta de monitoramento de focos de fogo ativo. O anúncio foi feito pelo Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado), da Universidade Federal de Goiás (UFG), em meio ao avanço do El Niño e à intensificação das queimadas no estado.
Segundo o diretor-executivo do CEMPA-Cerrado, Manuel Eduardo Ferreira, os lançamentos representam o cumprimento de metas previstas desde a criação do centro, em outubro de 2023. Em entrevista ao Jornal Opção, ele detalhou o funcionamento das novidades e explicou por que o momento exige articulação, conhecimento e uma verdadeira “cultura climática”.
A principal novidade é a previsão da qualidade do ar para todo o estado, que entrega informações com até três dias de antecedência. De acordo com Manuel, esse horizonte temporal foi pensado justamente para apoiar órgãos de saúde, Defesa Civil e outros setores no planejamento de ações. Ele ressalta, porém, que a ferramenta ainda será aprimorada. “Hoje, a previsão da qualidade do ar não é nosso principal produto, nós iremos avançar no aperfeiçoamento deste produto. Ele será ainda mais preciso. Hoje ele corresponde a um produto gerado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que cobre uma área grande do território nacional e nós vamos ainda aprimorar a resolução espacial para o estado de Goiás. Daqui para o final do ano, teremos um produto melhor, mais adequado e mais detalhado para o estado e especialmente para a região metropolitana de Goiânia”, detalhou.

Além da previsão, o CEMPA lança o Boletim Semanal de Qualidade do Ar, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti). O foco inicial é a RMG, que reúne 21 municípios. Manuel explicou que os primeiros boletins indicaram uma condição moderada na capital, mas não escondeu a preocupação com a cidade. “Pela nossa experiência, nós sabemos que Goiânia vai sempre apresentar uma qualidade do ar com maior deterioração. Especialmente neste período de seca, quando você tem baixa umidade e ausência de chuvas, os particulados finos inaláveis tendem a ficar em maior quantidade na atmosfera, especialmente próximo à superfície terrestre. Isso certamente deteriora a qualidade do ar.”
O terceiro produto apresentado é a nova versão da plataforma de monitoramento de focos de fogo ativo. A ferramenta, que utiliza dados de satélites da NASA e do INPE, ganhou interface mais intuitiva e passou a permitir a visualização da nuvem de fumaça em tempo real, com defasagem de apenas 15 minutos. De acordo com o diretor, essa atualização é estratégica para o combate a incêndios florestais. “Você pode acompanhar o início de um incêndio e ver a evolução deste e de outros focos que vão surgindo naquela vizinhança e tomar medidas de contenção, com brigadas contra incêndios, fiscalização, buscar entender onde que surgiu aquele foco de queimada. Isso é algo muito interessante pro gestor, tanto da Secretaria de Meio Ambiente, quanto da área de saúde, que liga isso ao fato da qualidade do ar e aos problemas respiratórios.”
Manuel também destacou que a integração entre os produtos do CEMPA permite um monitoramento mais completo para os gestores públicos. Isso porque a previsão meteorológica detalhada (com resolução espacial de até 5 quilômetros), se soma aos dados de qualidade do ar e de focos de calor. “Quando você associa isso aos nossos outros produtos, você fecha um monitoramento muito bom para o governo, para os órgãos gestores do Estado de Goiás e de outras localidades do Cerrado”, destacou. “O gestor, o tomador de decisão e o formulador de políticas públicas consegue ter todo esse arranjo de dados com antecedência. E, todos os dias, você pode acompanhar a previsão, porque ela se renova diariamente.”
Essa integração, segundo ele, permite antecipar medidas de contenção a incêndios florestais, controlar queimadas intencionais e até prever condições desfavoráveis à saúde pública. “Com uma baixa umidade relativa do ar, a gente já pode prever riscos para a população, especialmente os mais idosos e recém-nascidos. Isso pode ajudar inclusive a Secretaria de Educação no controle da exposição dos estudantes”, exemplificou.
O lançamento dos novos produtos não acontece por acaso. Manuel enfatizou o papel da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) nesse processo. “Nós temos uma relação muito profícua, muito eficiente com a SECTI, com a qual temos um projeto. Esse projeto tem nos favorecido a fazer o lançamento dessas ferramentas e produtos. Nós estamos dedicando um bom tempo para essa elaboração de documentos, protocolos e ferramentas, muito em virtude do apoio da SECTI. Eles têm sido fundamentais nesse crescimento do CEMPA-Cerrado, assim como a FAPEG e outros parceiros.”
O centro também mantém parcerias diretas com a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD), a Defesa Civil, o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) e a Agência Municipal de Meio Ambiente. “Nós somos participantes ativos do Fórum Goianiense de Mudança Climática. Temos um assento lá, temos representantes do CEMPA nesse fórum, e a gente se volta para as ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas do município, assim como já fazemos com o Estado”, afirmou.
Queimadas, El Niño e o futuro da prevenção
O momento é de atenção redobrada. Com a previsão de um El Niño forte neste segundo semestre, as queimadas no Cerrado tendem a se intensificar. “A gente está olhando para essas queimadas nesse sentido. E também para os dados meteorológicos que indicam um aumento da temperatura, uma estiagem mais prolongada etc”, disse o diretor-executivo do CEMPA-Cerrado.
“Nós podemos sim melhorar modelos que prevejam risco de queimadas. O que o CEMPA está trazendo é um acesso a essa informação, atrelando a outras informações de clima meteorológico. Certamente esses dados podem alimentar modelos para a gente conseguir fazer cenários futuros do risco de queimada, dentro de um ano mesmo, cenários sazonais”, projetou.
Manuel Ferreira ressalta que o CEMPA tem uma frente de pesquisa aberta e já recebe pesquisadores que se aprofundam nesses dados. “Aqui na universidade mesmo, temos vários estudantes que estão usando os dados do CEMPA, por exemplo, para ver o efeito na regulação climática dos parques urbanos, ou pegar as previsões meteorológicas e tornar os mapas de risco de queimadas dinâmicos. Tem várias ideias surgindo, pesquisas avançando em nível de graduação e pós-graduação.”
Por fim, o diretor resumiu o espírito da iniciativa: “A gente entende o CEMPA como uma ferramenta, um centro para enfrentar as mudanças climáticas na forma de adaptação. Nós temos que ter informações, dados mais precisos, cobrir melhor o território para que a gente possa enfrentar esse novo momento que exige articulação, exige conhecimento, exige uma educação climática que a gente também não tinha antes, a gente está aderindo agora.”
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