ONG goiana lança plataforma para conectar mulheres vítimas de violência a serviços de proteção
20 agosto 2026 às 11h33

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Saber que precisa de ajuda nem sempre significa saber onde encontrá-la. Mas o caminho até um serviço de proteção pode ser marcado por muitas dúvidas, informações desencontradas ou até pela falta delas e até pelo medo de não ser acolhida. E pensando nesses desafios, a Associação Cultura, Cidade e Arte (ACCA) desenvolveu a Rede Conecta ACCA, uma plataforma digital gratuita que reúne serviços de proteção, acolhimento e apoio à autonomia feminina.
O lançamento oficial da plataforma está marcado para ser lançado na próxima terça-feira, 25, às 9h. Nela será possível acessar, pelo endereço redeconecta.org, 143 informações de serviços públicos, coletivos, movimentos e organizações dos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia.
A iniciativa é resultado de anos de pesquisa e acompanhamento de mulheres em situação de violência. A Presidente da ACCA, educadora, geógrafa e pesquisadora Márcia Pelá conta que a ideia ganhou força a partir de uma pesquisa realizada durante seu pós-doutorado, em 2022, sobre a relação das mulheres com o espaço urbano de Goiânia.
Na época, 188 mulheres foram entrevistadas. O estudo abordou temas como medo, violência física e psicológica e as experiências vividas por mulheres em diferentes espaços da cidade. Durante a pandemia, a pesquisa também identificou o aumento da violência dentro de casa. “Uma das questões abordadas foi a desconfiança que grande parte das mulheres têm do serviço público”, explica Márcia.
Segundo a pesquisadora, o problema não está necessariamente na ausência de serviços. Goiânia, por exemplo, foi pioneira na criação da Delegacia da Mulher e possui uma estrutura de atendimento formada por diferentes órgãos. A dificuldade aparece quando a mulher precisa entender qual porta procurar e como seguir depois do primeiro atendimento. “Os serviços que existem não são integrados. Ninguém sabe como é que, por exemplo, uma coisa é a porta de entrada, outra coisa é a continuação. Você precisa de um tratamento psicológico, outra coisa é uma casa de abrigo”, afirma.

É justamente nesse ponto que a Rede Conecta pretende atuar. A plataforma organiza informações sobre segurança, saúde, assistência social, orientação jurídica, acolhimento e outros serviços para que a mulher consiga identificar com mais facilidade o caminho que precisa seguir.
O site também disponibiliza um botão de ajuda rápida que é uma ferramenta de “saída rápida”, que fecha a página caso a mulher seja surpreendida pelo agressor enquanto busca informações.
Rede de apoio começa antes do Estado
Outro aspecto que chamou a atenção da ACCA durante as pesquisas foi a importância das redes informais. Segundo os dados levantados pela organização, 35% das mulheres procuram primeiro amigas, vizinhas ou familiares quando precisam de proteção. Outros 26% citam coletivos de mulheres. Juntos, os dois grupos representam 61% das respostas.
Para Márcia, os números mostram que a busca por proteção muitas vezes começa longe dos serviços oficiais. “O primeiro apontado sempre é uma rede de apoio de mulheres, de amigas, da família, de coletivos”, afirma.
A pesquisadora ressalta, no entanto, que essas redes não devem substituir o poder público. A proposta é que elas sejam reconhecidas como parte do caminho percorrido pelas mulheres e tenham condições de dialogar com os serviços oficiais. “Nós não podemos cumprir o papel do Estado, mas nós podemos ser reconhecidos pelo Estado como um suporte a isso”, diz.
A plataforma também foi construída a partir da escuta de movimentos sociais e organizações que atuam diretamente nos territórios. Para Márcia, esse processo é um dos diferenciais da iniciativa, principalmente porque permite identificar dificuldades que nem sempre aparecem nos fluxos oficiais de atendimento.
Violência também está ligada à autonomia
Embora a Rede Conecta tenha como foco facilitar o acesso à proteção, Márcia afirma que a discussão sobre violência contra a mulher não pode terminar no momento em que ela encontra um serviço de atendimento.
Para ela, renda e autonomia financeira estão entre os principais fatores que precisam ser considerados quando se fala em rompimento com uma relação violenta. “Muitas vezes, elas ficam presas a essa relação por não ter uma rede de sustentação para que ela saia disso”, explica.
A dependência financeira pode se somar à violência psicológica e a outros mecanismos de controle, tornando mais difícil para a vítima deixar a relação. Por isso, a plataforma também apresenta caminhos relacionados à autonomia e ao recomeço.
Márcia também critica a ideia de que a mulher permanece em uma situação de violência simplesmente porque não quer sair. Segundo ela, esse tipo de julgamento ignora a realidade de mulheres que não possuem renda, apoio familiar ou uma rede capaz de sustentá-las durante o processo de ruptura. “A vítima vira culpada, culpabilizada no processo”, afirma.
Para a pesquisadora, fortalecer a rede de atendimento é necessário, mas não suficiente. A violência contra a mulher, defende ela, precisa ser enfrentada como uma questão permanente de política pública. “A integração é importante, mas nós não podemos deixar de bater nessa tecla: a questão é acabar com essas estatísticas da violência da mulher. Porque então nós vamos ficar enxugando gelo”, afirma.
Plataforma será atualizada
Inicialmente, a Rede Conecta contempla os 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia. A intenção da ACCA, porém, é ampliar o alcance da plataforma.
A organização também pretende manter os dados atualizados com a participação dos próprios usuários. Como endereços, telefones e serviços podem mudar, a plataforma permite que informações incorretas ou desatualizadas sejam comunicadas à equipe responsável. “Se acessar a plataforma e ver que não tem dados lá, ou que tem dados errados, porque mudam de endereço, telefone, sem aviso prévio, que nos mande que a gente vai estar abastecendo isso cotidianamente”, explica Márcia.
A Rede Conecta foi desenvolvida por meio de uma parceria entre a ACCA e o Instituto Federal de Goiás (IFG), a partir de um projeto ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação voltado à formação em tecnologia.



