Apesar de figurar como um dos maiores desejos da população, a compra da casa própria ainda esbarra em desinformação e receios sobre o crédito imobiliário. Levantamento da Quaest indica que o imóvel só perde para a saúde na lista de prioridades dos brasileiros. Especialistas avaliam que, mais do que condições econômicas, mitos persistentes dificultam o acesso ao financiamento.

O leve recuo na taxa básica de juros, a Selic, fixada em 14,75% em março após longo período em 15%, recria o interesse pelo crédito imobiliário. Dados da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) apontam que, a cada redução de 1 ponto percentual, cerca de 160 mil famílias passam a ter capacidade de compra. Simulações do setor indicam ainda alívio médio de quase 7% nas parcelas.

Para o especialista Ricardo Teixeira, sócio da URBS Imobiliária, a melhora no cenário é relevante, mas insuficiente sem informação. “Para essas famílias, uma redução aparentemente pequena nos juros é decisiva”, afirma. Segundo ele, o histórico econômico do país ainda influencia o comportamento do consumidor. “Contrair um empréstimo a longo prazo, mesmo com um objetivo nobre, é uma prática que ainda aterroriza muita gente”.

Nesse contexto, a especialista em crédito imobiliário Ione Vicente da Silva, proprietária da SEJACRED, aponta os principais equívocos que ainda rondam o tema.

Ione Vicente da Silva | Foto: Divulgação

Quem financia paga três imóveis?

Um dos mitos mais recorrentes é a ideia de que o financiamento triplica o valor do imóvel. Ione pondera que, embora os juros elevem o custo final, a conta não chega a esse patamar. “É preciso considerar também a valorização do imóvel ao longo dos anos. O bem adquirido tende a se valorizar, o que compensa parte desse custo”, explica.

O contrato pode virar uma dívida impagável?

O receio tem origem no período de hiperinflação das décadas de 1980 e 1990. Hoje, segundo a especialista, o cenário é diferente. “Os contratos atuais são mais seguros e podem ser feitos pelo Sistema de Amortização Constante, em que as parcelas diminuem ao longo do tempo”, afirma.

Amortizar não vale a pena?

Outro equívoco, segundo Ione, é ignorar a amortização. “Quando o cliente antecipa parcelas, ele reduz a incidência de juros sobre o saldo devedor. Isso diminui significativamente o valor total pago e o prazo do financiamento”, diz.

A aprovação é lenta e burocrática?

A fama de processo demorado também não corresponde à realidade atual. “Se o cliente estiver com a documentação organizada, a aprovação pode acontecer em poucas horas, com emissão de contrato em cerca de 10 dias”, afirma. Ela reafirmao papel da tecnologia: “A digitalização reduziu etapas e agilizou todo o processo”.

A entrada é sempre muito alta?

A exigência de 20% de entrada não é regra absoluta. “Em programas habitacionais, esse percentual pode ser menor. Em imóveis na planta, é comum o parcelamento da entrada durante a obra”, explica. O uso do FGTS também pode viabilizar o pagamento inicial.

O FGTS só serve para o primeiro imóvel?

Segundo Ione, o fundo tem uso mais amplo do que se imagina. “O trabalhador pode utilizar o FGTS para amortizar o saldo devedor ou reduzir o valor das parcelas, respeitando alguns critérios”, afirma.

Não é possível ter mais de um financiamento?

A especialista também desmistifica a ideia de limitação. “É possível ter mais de um financiamento, desde que a renda suporte. A restrição existe apenas em contratos vinculados ao FGTS”, esclarece. “Quando o crédito vem da poupança, não há limite de contratos, apenas análise de capacidade de pagamento.”

Para os especialistas, a combinação de informação e condições econômicas mais favoráveis pode ampliar o acesso ao crédito e destravar o mercado imobiliário.

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