A ingestão de creatina em pó diretamente na boca, prática conhecida como “dry scooping” e popularizada nas redes sociais, pode trazer riscos à saúde bucal. Embora o suplemento seja seguro quando consumido corretamente, especialistas alertam que a forma de uso pode impactar dentes e gengivas.

O cirurgião-dentista Pedro H. Moreira afirmou ao Jornal Opção que o principal problema está no contato direto do pó com a cavidade oral. “Do ponto de vista odontológico, o problema mesmo é o contato direto e concentrado do pó com os dentes e tecidos da boca. Isso pode causar desidratação local e retenção de partículas nos dentes e gengiva”, explica.

Segundo ele, a creatina não é altamente agressiva ao esmalte dentário, mas o consumo sem diluição favorece o acúmulo de resíduos. “O pó pode ficar aderido à superfície dental, principalmente entre os dentes. Isso favorece a formação de biofilme, que pode contribuir para o desenvolvimento de cárie e doença periodontal”, diz.

A sensibilidade dentária não é um efeito direto do suplemento, mas pode ocorrer em situações específicas. “Se houver acúmulo de resíduos e o paciente já tiver retração gengival ou desgaste do esmalte, pode haver aumento da sensibilidade. Mas não é um efeito esperado só pelo uso da creatina em pó”, diz.

O especialista também alerta para o risco de irritação na mucosa oral e na garganta. “O pó em contato direto com a mucosa pode causar irritação, principalmente em pessoas mais sensíveis. Na garganta, pode gerar ardência, desconforto e até episódios de tosse ou engasgo”, afirma.

A diferença entre consumir a creatina diluída e em pó é significativa, segundo o dentista. “Quando a creatina é diluída, o contato com os dentes é mais rápido e menos concentrado, além de haver maior estímulo salivar, que ajuda na limpeza natural da boca. Já o consumo direto aumenta o tempo de contato e a retenção”, explica.

Pedro H. Moreira é cirurgião dentista | Foto: Arquivo Pessoal

Para reduzir os riscos, a orientação é simples: evitar o “dry scooping” e adotar a forma correta de consumo. “A principal orientação é parar com essa prática e consumir o suplemento diluído. Isso já reduz muito os impactos para a saúde bucal”, afirma.

Além disso, a higiene bucal continua sendo essencial. “O básico bem feito resolve muita coisa: escovação duas a três vezes ao dia, uso do fio dental e, se possível, enxágue com água após o consumo do suplemento”, orienta.

O acompanhamento com dentista também deve ser mantido. “De forma geral, a cada seis meses. Mas, para quem faz uso frequente de suplementos ou já apresenta algum problema bucal, esse intervalo pode ser menor, de três a quatro meses”, diz.

Entre jovens, a prática preocupa ainda mais. “Eles estão mais expostos por conta de tendências de redes sociais como o ‘dry scooping’. Muitas vezes não têm orientação adequada e acabam adotando práticas que podem trazer riscos”, conclui.

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