O consumo de açúcar, por si só, não pode ser apontado como responsável pelo desenvolvimento ou pela piora do câncer de ovário, apesar de uma pesquisa recente publicada na revista Nature Aging ter identificado um mecanismo pelo qual a frutose pode favorecer a disseminação de células tumorais em modelos experimentais.

A avaliação é do oncologista Francisco Borges Filho, em entrevista ao Jornal Opção, que ressalta que os resultados representam um avanço na compreensão da doença, mas ainda estão distantes de justificar mudanças no tratamento ou na alimentação dos pacientes.

Segundo o especialista, o principal mérito do estudo é aprofundar o conhecimento sobre a biologia do câncer e abrir caminho para novas estratégias terapêuticas. “A importância desse tipo de pesquisa não é recomendar imediatamente mudanças na dieta, mas identificar novos alvos terapêuticos. Esses estudos com metabolismo e dieta reforçam uma visão cada vez mais aceita na oncologia, de que o comportamento do câncer é profundamente influenciado pela reprogramação metabólica e pelo microambiente tumoral”, afirma.

Para ele, o trabalho também demonstra que “o metabolismo tumoral não é apenas um mecanismo de produção de energia, mas também um regulador da agressividade do câncer”. Francisco Borges explica que o estudo foi realizado em modelos experimentais, utilizando culturas celulares, o que impede conclusões diretas sobre os efeitos do consumo de açúcar em seres humanos.

“Esses modelos são fundamentais para compreender como o câncer funciona, mas não permitem concluir, por si só, que o consumo habitual de açúcar em humanos aumente o risco de desenvolver ou agravar o câncer de ovário”, destaca. O oncologista lembra, contudo, que já existe uma relação bem estabelecida entre obesidade e o aumento do risco de diversos tipos de câncer, incluindo o de ovário.

“O que já é devidamente estudado e comprovado é que a obesidade aumenta, sim, o risco de desenvolvimento de neoplasias, incluindo a de ovário, o que tem correlação com o consumo excessivo de açúcares.” Ainda assim, ele ressalta que o surgimento da doença depende de diversos fatores.

“O desenvolvimento do câncer de ovário envolve múltiplos aspectos, como alterações genéticas, inflamação, hormônios, sistema imunológico e características do microambiente tumoral.” Em relação à alimentação, Francisco Borges afirma que ainda é cedo para recomendar mudanças específicas com base apenas nesse estudo. Segundo ele, as orientações nutricionais para pacientes oncológicos permanecem as mesmas e são fundamentais para o tratamento e para reduzir o risco de recidivas.

“Manter um peso corporal adequado, combatendo a obesidade, priorizar uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes e proteínas de boa qualidade, evitar excesso de bebidas açucaradas e alcoólicas, alimentos ultraprocessados e limitar o consumo de açúcares adicionados como parte de uma dieta equilibrada” continuam sendo as principais recomendações.

Oncologista Francisco Borges Filho | Foto: Arquivo pessoal

Ele ressalta que essas orientações se baseiam nos benefícios para a saúde metabólica e cardiovascular, e não na comprovação de que possam impedir diretamente a progressão do câncer de ovário. Além disso, faz um alerta contra dietas radicais. “Também é importante evitar restrições alimentares extremas. Dietas muito restritivas podem levar à perda de massa muscular, desnutrição e pior tolerância ao tratamento, especialmente durante a quimioterapia.”

Para o especialista, embora os resultados sejam promissores, ainda há um longo caminho até que possam ser incorporados à prática clínica. “O estudo ajuda a entender melhor como a frutose pode influenciar o comportamento das células do câncer de ovário em condições experimentais, mas isso não significa que o mesmo efeito ocorra da mesma forma em pacientes na prática”, pondera.

Francisco Borges observa ainda que as células cancerígenas possuem grande capacidade de adaptação. “O câncer não depende de uma única fonte de energia. As células tumorais podem utilizar diferentes nutrientes para sustentar seu crescimento e disseminação.” Antes que a descoberta possa resultar em mudanças no tratamento, ele afirma que será necessário comprovar que o mecanismo identificado também ocorre em pacientes e demonstrar que sua interrupção traz benefícios clínicos concretos.

“Será necessário confirmar que esse mecanismo também ocorre em pacientes na vida real e, principalmente, demonstrar que bloqueá-lo, seja por meio de medicamentos, seja por intervenções nutricionais, realmente reduz a formação de metástases, diminui as recidivas ou melhora a sobrevida.”

Na avaliação do oncologista, a pesquisa representa um avanço importante para compreender a biologia do câncer de ovário e identificar possíveis alvos terapêuticos, mas “ainda não há evidências suficientes para justificar mudanças no tratamento ou recomendações alimentares específicas com base apenas nesses resultados”.

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