Entenda a “nova” economia do futebol goiano
04 julho 2026 às 21h01

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Donni Araújo
Especial para o Jornal Opção
Em tempos de Copa do Mundo, quando o planeta volta seus olhos para o maior espetáculo do futebol, é fácil enxergar apenas o brilho dos estádios lotados, dos contratos milionários, dos patrocínios globais e das cifras que transformaram o esporte em uma das indústrias mais lucrativas do mundo. Mas, para compreender o que acontece hoje com clubes como Goiás, Vila Nova, Atlético Goianiense e Goiânia, é preciso desviar o olhar desse palco principal.
Quem analisa o futebol apenas dentro das quatro linhas dificilmente consegue explicar por que alguns clubes desapareceram da elite, outros se fortaleceram e tantos passaram a conviver com crises financeiras recorrentes. O jogo continua sendo decidido em noventa minutos, mas o destino dos clubes passou a depender, cada vez mais, de fatores que extrapolam o gramado.
É justamente essa mudança de modelo que ajuda a entender o futebol goiano. Afinal, o que mudou para que clubes que já viveram grandes públicos, disputaram competições nacionais em destaque e fizeram do Serra Dourada um dos grandes palcos do país passassem a enfrentar uma realidade completamente diferente? A resposta não está apenas na bola. Está, principalmente, na profunda mudança da lógica econômica do futebol brasileiro.
Durante muito tempo, a saúde financeira de um clube dependia, sobretudo, da arquibancada. Grandes públicos significavam grandes rendas, e grandes rendas ajudavam a montar equipes competitivas. Aos poucos, porém, essa lógica foi sendo substituída por outra. Direitos de transmissão, patrocínios, premiações, programas de sócio-torcedor, negociações de atletas e, mais recentemente, as SAFs, alteraram profundamente a forma de financiar o futebol brasileiro. Os clubes passaram a disputar não apenas campeonatos, mas mercados, investidores e espaço na mídia.
Essa mudança não é apenas uma impressão. Estudos sobre as finanças do futebol brasileiro mostram que a bilheteria, que durante décadas foi um dos pilares do faturamento dos clubes, hoje representa apenas cerca de 10% das receitas dos principais times do país. Essas novas fontes de receita passaram a sustentar um modelo econômico completamente diferente daquele que marcou o futebol brasileiro durante boa parte do século XX.
O futebol goiano diante de um novo jogo
Se essa mudança redefiniu a economia do futebol brasileiro, seus efeitos foram ainda mais evidentes em mercados periféricos, como o goiano. Durante décadas, os clubes do Estado aprenderam a sobreviver em um ambiente de recursos escassos, dependentes da renda dos estádios, do apoio de dirigentes abnegados, de empresários locais e, muitas vezes, da paixão de suas torcidas.
O problema é que o futebol mudou de estrutura de financiamento. Enquanto os grandes centros passaram a concentrar as principais receitas do novo futebol brasileiro, os clubes goianos passaram a enfrentar uma realidade muito mais complexa. O crescimento dessas novas fontes de receita nunca ocorreu aqui na mesma velocidade. O número de sócios-torcedores continua modesto, grandes patrocinadores são raros e a permanência nas principais competições nacionais tornou-se uma necessidade financeira, muito mais do que apenas esportiva.
Para compreender como o futebol goiano chegou a esse ponto, porém, é preciso voltar algumas décadas no tempo. Afinal, essa história começou muito antes da televisão, das SAFs e das cifras milionárias que hoje movimentam o esporte. A realidade atual é resultado de sucessivas transformações que reorganizaram a economia do futebol no Estado.
Nas primeiras décadas, o crescimento dos clubes acompanhou o próprio desenvolvimento de Goiânia. Mais tarde, a profissionalização, a participação em competições nacionais, a construção do Serra Dourada, a projeção nacional conquistada pelo Goiás e, posteriormente, a importância crescente das receitas de televisão mudariam definitivamente a forma de financiar o futebol.
Mais importante do que acompanhar a sucessão de campeões é observar como cada uma dessas mudanças econômicas redefiniu o equilíbrio de forças entre os clubes goianos. É essa trajetória que ajuda a explicar a realidade vivida hoje por Goiás, Vila Nova, Atlético Goianiense e Goiânia.

A primeira hegemonia
A primeira grande hegemonia do futebol goiano coincidiu com a consolidação da própria capital. O Goiânia tornou-se o principal clube daquele período, em um contexto em que o futebol dependia muito mais da influência política, da força das lideranças locais e da própria construção institucional de Goiânia do que de receitas estruturadas. A economia do esporte ainda era essencialmente regional e acompanhava o crescimento da nova capital, numa época em que os clubes sobreviviam muito mais pela capacidade de mobilizar apoio do que pela geração de receitas propriamente dita.
À medida que Goiânia crescia, o futebol também se fortalecia. A organização dos campeonatos, a melhoria gradual da infraestrutura esportiva e a adoção do profissionalismo no início da década de 1960 marcaram o início de uma nova fase. O esporte tornou-se mais competitivo, o interesse do público aumentou e a renda dos jogos passou a ocupar um espaço cada vez mais importante no orçamento dos clubes. Era o começo de uma nova lógica que mudaria não apenas a forma de jogar futebol, mas também a maneira de o administrar.
A década de 1960 encerrou o período de predominância do Goiânia e inaugurou um cenário muito mais equilibrado. Vila Nova, Goiás, Anápolis e CRAC conquistaram seus primeiros títulos estaduais, enquanto o Atlético Goianiense voltou a levantar a taça após alguns anos de intervalo. O futebol goiano deixava de girar em torno de um único protagonista e passava a revelar novos polos de força. Essa mudança ampliou a competitividade dentro do Estado e preparou o terreno para a maior reorganização de sua história: a entrada definitiva dos clubes goianos no cenário nacional.
A porta para o futebol nacional
A década de 1970 marcou o início da maior alteração na história do futebol goiano. O convite feito ao Goiás para disputar o Campeonato Nacional abriu uma porta inédita para os clubes do Estado. A partir dos anos seguintes, a presença goiana nas competições nacionais deixou de ser uma exceção e passou a integrar a realidade do calendário esportivo, ampliando a visibilidade do futebol local e aproximando-o dos principais centros do país.
A nova realidade produziu efeitos imediatos. Os grandes clubes brasileiros, que antes apareciam em Goiânia apenas em amistosos esporádicos, passaram a disputar partidas oficiais no Estado. O interesse do público cresceu rapidamente, as rendas aumentaram e o antigo Estádio Olímpico começou a dar sinais de que já não comportava a dimensão que o futebol goiano alcançava. A construção do Estádio Serra Dourada foi a resposta natural a essa nova realidade.
Mais do que oferecer uma arena maior, o Serra Dourada simbolizou um novo tempo. Durante anos, tornou-se um dos principais palcos do futebol brasileiro, recebendo grandes públicos e permitindo aos clubes goianos ampliar receitas e consolidar sua presença no cenário nacional. O futebol do Estado vivia seu período de maior expansão e parecia preparado para competir em condições cada vez mais favoráveis.
A segunda hegemonia
A partir de meados da década de 1980, o futebol goiano passou por uma nova mudança estrutural. Se, nas décadas anteriores, a consolidação do Campeonato Nacional havia ampliado a visibilidade dos clubes do Estado, agora o crescimento da televisão como principal financiadora do futebol brasileiro alterava novamente as regras do jogo. Foi nesse contexto que o Goiás consolidou a segunda grande hegemonia da história do futebol goiano.
O clube já vinha colhendo os resultados da presença constante nas competições nacionais, mas a participação na Copa União de 1987 e, posteriormente, sua inserção definitiva no Clube dos 13 colocaram o Goiás em um patamar financeiro muito superior ao dos demais clubes goianos. Pela primeira vez, uma fonte de receita relativamente estável e independente da bilheteria permitia planejamento, investimentos em estrutura, manutenção de elencos mais competitivos e uma presença quase permanente entre os principais clubes do país.
Essa diferença refletiu-se dentro de campo. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, o Goiás construiu uma hegemonia esportiva sem precedentes no futebol goiano, enquanto seus rivais enfrentavam maiores dificuldades para acompanhar o novo ritmo imposto pela economia do futebol brasileiro. O dinheiro da televisão, somado ao calendário nacional e à maior capacidade de investimento, criava uma vantagem que se retroalimentava: melhores equipes produziam melhores campanhas, que geravam maior exposição, novas receitas e novos investimentos.
Mas, assim como havia acontecido em outras fases da história do futebol goiano, esse modelo também não seria permanente. O fim do Clube dos 13, a reorganização das receitas do futebol brasileiro e as mudanças na comercialização dos direitos de transmissão alterariam novamente o cenário. A vantagem construída ao longo de décadas começou a diminuir, enquanto novos mecanismos de financiamento e gestão passaram a redesenhar o equilíbrio entre os principais clubes do Estado.
O novo modelo de financiamento
Durante boa parte do século XX, os recursos que sustentavam os clubes de futebol provinham quase exclusivamente da bilheteria. Quanto maior o público, maior a arrecadação e, consequentemente, maior a capacidade de investimento. A reorganização econômica do futebol brasileiro, porém, modificou de forma decisiva essa lógica. Os clubes passaram a financiar suas atividades por meio de um conjunto muito mais amplo de receitas, reduzindo gradativamente a dependência da renda obtida nas arquibancadas.
Este quadro aparece nos levantamentos realizados por consultorias especializadas, como a Sports Value e a Pluri Consultoria. Hoje, nos principais clubes do país, direitos de transmissão e premiações respondem por cerca de 36% das receitas totais. A venda de atletas representa aproximadamente 22%; marketing e patrocínios, cerca de 16%; programas de sócio-torcedor e clubes sociais, pouco mais de 10%. A bilheteria, que durante décadas sustentou boa parte da economia do futebol brasileiro, responde atualmente por apenas cerca de 10% das receitas dos grandes clubes.
Mais do que uma mudança de números, trata-se de uma mudança de modelo. O torcedor continua sendo indispensável, mas o ingresso deixou de ser o principal financiador do espetáculo. O dinheiro passou a circular por outros caminhos, muito mais ligados à capacidade dos clubes de negociar contratos de televisão, valorizar suas marcas, captar patrocinadores, revelar atletas, disputar competições rentáveis e construir receitas permanentes ao longo de todo o ano.
Essa nova dinâmica econômica mudou radicalmente a forma de administrar o futebol. O desafio já não é apenas colocar mais gente nas arquibancadas, mas criar uma estrutura capaz de gerar receitas diversificadas e recorrentes. É justamente a partir desse novo sistema de receitas que se pode compreender a realidade vivida hoje pelos clubes goianos.
A transformação chega a Goiás
As mudanças que alteraram a economia do futebol brasileiro também chegaram aos clubes goianos. Os balanços financeiros de Goiás, Vila Nova e Atlético Goianiense mostram que a composição das receitas mudou profundamente nos últimos anos. Se antes a renda dos jogos era determinante para a saúde financeira dos clubes, hoje ela divide espaço com cotas de mídia, receitas comerciais, programas de sócio-torcedor, negociação de atletas e novas formas de comercialização dos direitos de mídia. Os dados são corroborados pelos próprios balanços dos clubes e por estudos de consultorias especializadas, como Sports Value e Pluri Consultoria.
O caso do Vila Nova ajuda a compreender essa mudança. Entre 2023 e 2024, a arrecadação com bilheteria caiu de R$ 3,7 milhões para R$ 3,2 milhões. No mesmo período, porém, a receita do programa de sócio-torcedor praticamente triplicou, passando de R$ 786 mil para R$ 2,3 milhões. Somadas, as duas receitas representaram cerca de R$ 5,5 milhões, pouco mais de 10% do faturamento total do clube em 2024, estimado em R$ 53,7 milhões. A arquibancada continua importante, mas já não sustenta, sozinha, a economia do futebol.
O Atlético Goianiense oferece outro exemplo ainda mais eloquente. Em 2024, disputando a Série A, o clube arrecadou R$ 58,1 milhões em direitos de transmissão, valor equivalente a aproximadamente 53% de toda a sua receita operacional. Um ano depois, de volta à Série B, essa receita caiu para R$ 4,46 milhões. A redução superior a 90% evidencia como a permanência na elite deixou de representar apenas prestígio esportivo e passou a ser uma questão de sobrevivência financeira.
Os patrocínios seguiram o mesmo caminho. No Atlético Goianiense, a receita comercial recuou de R$ 14,2 milhões para R$ 8,8 milhões com a mudança de divisão. No Vila Nova, as receitas provenientes de patrocínios mantiveram-se estáveis, enquanto novas operações comerciais, como os contratos relacionados às ligas de clubes, passaram a complementar o orçamento. O futebol goiano passou, definitivamente, a depender de uma combinação de receitas muito mais ampla e complexa do que aquela que sustentou seus clubes durante grande parte do século passado.
A televisão muda as regras do jogo
Boa parte desse novo faturamento chegou pelos contratos de televisão. Durante muitos anos, especialmente no período em que o Clube dos 13 negociava coletivamente os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, os clubes desfrutavam de maior previsibilidade financeira. Havia diferenças entre os valores recebidos, mas o modelo garantia uma receita relativamente estável, permitindo planejamento de médio prazo e reduzindo, em muitos casos, os impactos financeiros de uma eventual queda para a Série B.
Foi nesse ambiente que o Goiás consolidou a segunda grande hegemonia do futebol goiano. A participação constante nas principais competições nacionais, somada às receitas provenientes da televisão, permitiu ao clube investir em estrutura, formar equipes competitivas e manter uma vantagem financeira significativa sobre os demais clubes goianos durante boa parte das décadas de 1980 e 1990.
Esse cenário começou a mudar com o fim do Clube dos 13 e a adoção de uma nova lógica de negociação dos direitos de transmissão. A receita da televisão passou a depender muito mais da divisão disputada e da capacidade de negociação de cada competição. A diferença entre Série A e Série B tornou-se muito maior do que havia sido nas décadas anteriores, transformando o acesso e o rebaixamento não apenas em resultados esportivos, mas em acontecimentos capazes de transformar a saúde financeira dos clubes.
Os efeitos dessa mudança aparecem de forma clara nos balanços dos clubes goianos. A televisão passou a representar uma parcela muito mais volátil das receitas, tornando a permanência na Série A um fator decisivo para a saúde financeira das equipes.
O antigo modelo favorecia a continuidade dos clubes já estabelecidos no cenário nacional. O atual, ao contrário, premia sobretudo o desempenho imediato. Permanecer na Série A tornou-se uma necessidade econômica permanente, enquanto o rebaixamento passou a significar não apenas a perda de prestígio esportivo, mas também um duro golpe na capacidade de investimento e de planejamento dos clubes.
Serra Dourada deixa de ser bom negócio
Diante dessa nova realidade financeira dos clubes, a necessidade de grandes espaços físicos para a arquibancada deixou de existir. Foi uma mudança que imediatamente alterou a relação de dependência dos clubes goianos com o Estádio Serra Dourada, especialmente o Goiás, cujo crescimento está umbilicalmente ligado ao até então principal palco do futebol goiano.
Nos últimos anos, consolidou-se a interpretação de que o afastamento dos clubes do Serra Dourada decorria principalmente da falta de modernização do estádio. O argumento não deixa de ter fundamento. Comparado às arenas construídas ou reformadas para a Copa do Mundo de 2014, o principal palco do futebol goiano realmente passou a apresentar limitações estruturais. Essa explicação, porém, parece insuficiente para compreender um fenômeno muito mais amplo.
Por muito tempo, o Serra Dourada simbolizou o auge do futebol goiano. Sua grande capacidade permitia receber públicos expressivos e gerar receitas compatíveis com o sistema econômico da época, fortemente baseado na venda de ingressos. Enquanto a bilheteria era o principal motor financeiro dos clubes, fazia sentido disputar grandes partidas em um estádio de grandes dimensões.
O futebol, porém, mudou. Com a redução do peso da bilheteria no orçamento dos clubes e o crescimento de outras fontes de receita, passou a ser mais vantajoso controlar integralmente o evento esportivo. Estádios próprios, como a Serrinha, o Antônio Accioly e o Onésio Brasileiro Alvarenga, permitem aos clubes administrar não apenas a venda de ingressos, mas também bares, camarotes, estacionamento, publicidade, ações comerciais e outras receitas geradas em dias de jogo. Mais importante do que a renda bruta passou a ser a renda líquida efetivamente incorporada ao caixa do clube.
O problema, portanto, nunca foi o Serra Dourada. O que mudou foi a lógica econômica do futebol brasileiro. Um modelo que antes premiava grandes públicos em grandes estádios passou a favorecer arenas capazes de concentrar a gestão e a exploração comercial de praticamente toda a receita gerada pelo evento. Sob essa perspectiva, a opção dos clubes goianos por estádios menores deixa de parecer um contrassenso esportivo e revela-se, antes de tudo, uma decisão econômica.
Mais próximos, não necessariamente mais fortes
As mudanças no cenário econômico também alteraram a distribuição de forças dentro do futebol goiano. Durante muitos anos, especialmente entre o fim da década de 1980 e os anos 2000, o Goiás desfrutou de uma vantagem financeira difícil de ser alcançada pelos rivais. A presença constante na elite do futebol brasileiro, as receitas garantidas pelos contratos coletivos de televisão e a participação no Clube dos 13 permitiram ao clube construir uma estrutura que o colocava em um patamar muito acima dos demais.
Esse cenário começou a mudar com a reformulação do mercado de direitos de transmissão e a crescente dependência do desempenho esportivo imediato. Permanecer na Série A passou a ser determinante para a saúde financeira dos clubes. O Atlético Goianiense, com sucessivos acessos, e o Vila Nova, consolidando sua presença em competições nacionais e ampliando suas fontes de receita, reduziram parte da distância que os separava do Goiás.
Essa aproximação, contudo, não significou prosperidade. Os números mostram que Vila Nova e Atlético Goianiense ampliaram receitas e profissionalizaram suas estruturas, mas continuam sujeitos às oscilações provocadas por acessos e rebaixamentos. Ao mesmo tempo, o Goiás deixou de contar com a vantagem estrutural que durante décadas lhe garantiu maior estabilidade financeira. O resultado foi um cenário de maior equilíbrio entre os principais clubes do Estado, mas em um ambiente muito mais desafiador do ponto de vista econômico.
Em outras palavras, o futebol goiano tornou-se mais equilibrado sem, necessariamente, tornar-se mais rico. A distância entre seus principais clubes diminuiu, mas isso ocorreu muito mais pela redução das antigas vantagens competitivas do que pela construção de um novo ciclo de prosperidade para o futebol do Estado.
Há caminho?
A história mostra que o futebol goiano já mudou de modelo outras vezes. Primeiro, esteve ligado à formação da capital e à força política de seus clubes. Depois, cresceu com o profissionalismo, com a ampliação dos estádios e com a entrada nas competições nacionais. Mais tarde, foi profundamente reorganizado pela televisão. Agora, vive uma nova etapa, marcada pela necessidade de diversificar receitas, controlar melhor seus eventos, fortalecer marcas, profissionalizar gestões e traduzir presença nacional em sustentabilidade financeira.
Não há, portanto, solução simples. Também não basta apenas lamentar o esvaziamento do Serra Dourada, a perda de receitas tradicionais ou a distância em relação aos grandes centros do futebol brasileiro. O problema é mais complexo. Os clubes goianos precisam entender que a disputa atual acontece em várias frentes ao mesmo tempo: no campo, nos contratos de transmissão, nos programas de sócio-torcedor, nas categorias de base, nas plataformas digitais, nos patrocínios, nos estádios próprios e na capacidade de transformar a torcida em receita permanente.
O passado ajuda a compreender o presente, mas não oferece uma fórmula pronta para o futuro. A primeira hegemonia pertenceu ao clube que melhor se ajustou à estrutura política e social da nova capital. A segunda, ao clube que melhor aproveitou a entrada no futebol nacional e o sistema de receitas da televisão. A próxima fase, se vier, pertencerá a quem compreender antes dos demais a nova economia do futebol.
O futebol goiano não precisa escolher entre a nostalgia e a resignação. Precisa reconhecer que o jogo mudou outra vez. E, como em todas as mudanças anteriores, sobreviverá melhor quem entender primeiro onde a bola realmente está sendo disputada.
Donni Araújo, compositor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



