Quando Brasil e Noruega entrarem em campo neste domingo, 5, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, um dos principais nomes da seleção europeia não estará no gramado. Aos 44 anos, a ex-jogadora Lise Klaveness se tornou a principal responsável pela transformação institucional do futebol norueguês e uma das dirigentes mais influentes do esporte mundial.

Primeira mulher a comandar a Federação Norueguesa de Futebol (NFF) desde a fundação da entidade, há mais de 120 anos, Klaveness assumiu a presidência em 2022 com um discurso de renovação. Quatro anos depois, colhe resultados esportivos e políticos: a seleção masculina voltou à Copa do Mundo após 28 anos, a feminina voltou a figurar entre as principais da Europa e a Noruega passou a ocupar posição de destaque nos debates sobre governança e direitos humanos no futebol.

Das Copas como jogadora ao comando da federação

Muito antes de ocupar os principais gabinetes do futebol europeu, Lise Klaveness construiu sua trajetória dentro das quatro linhas.

Meio-campista de origem, disputou 73 partidas pela seleção feminina da Noruega, marcou nove gols e participou das Copas do Mundo de 2003, nos Estados Unidos, e de 2007, na China. Também conquistou o vice-campeonato da Eurocopa em 2005 e atuou por clubes da Noruega e da Suécia.

Depois de encerrar a carreira, decidiu seguir um caminho pouco comum para ex-atletas. Formou-se em Direito, tornou-se advogada, trabalhou como juíza suplente em Oslo e atuou como assessora jurídica do Banco Central da Noruega.

Lise Klaveness | Foto: Reprodução

Sem abandonar o futebol, abriu outra frente inédita: tornou-se a primeira comentarista esportiva da televisão norueguesa, função na qual enfrentou críticas e ataques machistas.

Em entrevista ao Financial Times, contou que chegou a ser alvo de comentários sobre sua aparência.

“As pessoas diziam que eu era feia. Eu transformei isso em motivação”, relatou.

Quebrando barreiras

A experiência na televisão abriu caminho para a gestão esportiva.

Primeiro, tornou-se diretora técnica das seleções nacionais, sendo a primeira mulher responsável simultaneamente pelas equipes masculina e feminina da Noruega.

Em 2022, venceu a eleição para a presidência da Federação Norueguesa de Futebol, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em mais de um século de história da entidade.

Na época, afirmou que esperava encontrar resistência em um ambiente tradicionalmente masculino.

“Eu achei que seria uma guerra. Mas fui recebida de forma muito calorosa. Naquele momento percebi que tinha medo de algo que não existia”, disse.

Hoje, entre as 48 seleções que disputam a Copa do Mundo de 2026, apenas cinco federações são presididas por mulheres: Noruega, Inglaterra, Estados Unidos, Bélgica e Haiti.

A reconstrução da Noruega

Quando assumiu a federação, a Noruega atravessava um dos períodos mais discretos de sua história recente.

A seleção masculina não disputava uma Copa desde 1998 e acumulava eliminações consecutivas.

Sob sua gestão, a entidade fortaleceu um projeto iniciado anos antes chamado Landslagsskolen (Escola da Seleção Nacional), que aproximou a federação dos clubes de base e padronizou a formação de atletas em todo o país.

A filosofia rompe com o modelo de concentração precoce de talentos.

Jogadores das categorias de base da Escola de Futebol da Noruega — Foto: reprodução/Landslagsskolen

Em vez de retirar jovens promessas dos clubes, a federação incentiva que permaneçam em suas cidades pelo maior tempo possível.

“Nós queremos clubes fortes em toda a Noruega. Os jogadores precisam crescer onde começaram antes de chegar às seleções”, explicou Klaveness à Reuters.

O sistema ajudou a consolidar uma geração liderada por Erling Haaland, Martin Ødegaard e Alexander Sørloth.

Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, a Noruega venceu oito partidas consecutivas, marcou 37 gols e garantiu vaga no Mundial após 28 anos.

No futebol feminino, o país também voltou às fases decisivas das competições europeias, alcançando as quartas de final da Euro de 2025.

A dirigente que enfrentou a Fifa

Foi, porém, fora de campo que Lise Klaveness ganhou fama mundial.

Em março de 2022, durante o Congresso da Fifa realizado em Doha, fez um dos discursos mais duros já dirigidos à entidade.

Ela criticou a escolha do Catar para sediar a Copa do Mundo.

“A Copa do Mundo foi concedida de maneira inaceitável e com consequências inaceitáveis”, afirmou.

A dirigente cobrou indenizações para trabalhadores migrantes mortos ou feridos durante as obras do Mundial e criticou a falta de proteção aos direitos das mulheres e da população LGBTQIA+.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, ao lado de Lise Klaveness | Foto: Reprodução

O discurso repercutiu internacionalmente porque Klaveness é casada com outra mulher e discursava justamente em um país onde relações homoafetivas são criminalizadas.

Um ano depois, voltou ao Catar para verificar se as promessas de melhoria haviam sido cumpridas.

Segundo ela, houve avanços na legislação trabalhista, mas pouca evolução em relação aos direitos LGBTQIA+.

Críticas também à Rússia, Israel e Arábia Saudita

A postura crítica não ficou restrita ao Catar.

Sob seu comando, a Federação Norueguesa questionou a escolha da Arábia Saudita para sediar a Copa de 2034 e foi uma das únicas entidades nacionais a cobrar investigações sobre os ataques israelenses na Faixa de Gaza.

Durante as Eliminatórias, a renda de uma partida contra Israel foi destinada a programas humanitários da organização Médicos Sem Fronteiras.

Mais recentemente, a federação assinou um pedido para que o Comitê de Ética da Fifa analisasse a conduta do presidente Gianni Infantino após a entrega de um prêmio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Influência internacional

Além da presidência da federação, Klaveness passou a integrar o Comitê Executivo da Uefa em 2025.

Na primeira tentativa de eleição, recusou disputar uma vaga exclusiva para mulheres.

Segundo ela, esse modelo colocava mulheres qualificadas para competir entre si, em vez de ampliar a participação feminina.

Comitê Executivo da Uefa em 2025 | Foto: Reprodução

Somente na eleição seguinte aceitou disputar uma das vagas destinadas às mulheres e acabou eleita.

Hoje, é considerada uma das dirigentes mais influentes do futebol europeu.

Enquanto Haaland representa a força da Noruega dentro de campo, Lise Klaveness simboliza uma transformação iniciada nos bastidores. O duelo contra o Brasil, neste domingo, também coloca frente a frente um projeto de gestão que ajudou a recolocar o futebol norueguês entre os protagonistas do cenário internacional.

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