O avanço dos efeitos do El Niño em Goiás acendeu o alerta da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) para o aumento de doenças relacionadas às altas temperaturas, à baixa umidade do ar e à proliferação do mosquito Aedes aegypti. Em entrevista coletiva nesta quinta-feira, 27, o secretário de Estado da Saúde, Rasível Santos, e a subsecretária de Vigilância em Saúde, Flúvia Amorim, destacaram que o Estado já trabalha na preparação da rede pública para reduzir os impactos do fenômeno climático sobre a população.

Segundo Rasível Santos, Goiás já está sob influência do El Niño, com temperaturas elevadas e períodos prolongados de baixa umidade. De acordo com o secretário, o Estado registra há mais de três semanas temperaturas superiores a 34°C, enquanto a umidade relativa do ar chegou a ficar abaixo de 20%.

“A gente já está sob efeito do El Niño. O último ano que a gente teve o El Niño, em 2024, a gente teve uma crise grave no Brasil e aqui em Goiás também com relação a arboviroses, a dengue principalmente”, disse.

O secretário ressaltou que os efeitos das condições climáticas atingem principalmente os grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, recém-nascidos e gestantes. Pessoas com doenças crônicas cardiovasculares, renais e pulmonares também exigem atenção especial, principalmente durante períodos de calor intenso e exposição à fumaça.

“Isso traz um grande impacto para as pessoas, principalmente para aqueles mais vulneráveis. Então idosos, crianças, recém-nascidos e as gestantes, a gente tem que ter uma preocupação especial”, explicou Rasível.

Estado prepara plano de contingência

Para enfrentar os possíveis impactos, a SES-GO afirma ter estruturado um plano de emergência em saúde pública que contempla diferentes tipos de eventos, incluindo situações relacionadas a condições hidrológicas, meteorológicas e climáticas, além de emergências envolvendo agentes nucleares, radiológicos, biológicos, químicos e explosivos.

Rasível Santos afirmou que o planejamento também está sendo realizado em conjunto com os 246 municípios goianos. A proposta é identificar os riscos específicos de cada região e antecipar medidas para evitar que eventuais problemas provoquem uma sobrecarga no sistema de saúde.

“A gente está fazendo todo um plano de contingência também com os municípios. Já temos aí um cronograma de estar indo aos municípios, aos 246 municípios, para que a gente possa prepará-los também com análise de risco pormenorizada, individualizada por município, por região”, disse.

Na prática, o planejamento envolve desde o reforço de estoques de medicamentos e insumos até a manutenção do funcionamento das unidades de saúde, abastecimento de água e proteção de vacinas em caso de interrupções no fornecimento de energia elétrica.

“Independentemente da ocorrência do El Niño, a gente tem que ter resiliência, a gente tem que ter contingência para reduzir o impacto”, afirmou o secretário.

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Rasível Santos: “essas altas temperaturas fazem com que o ciclo do mosquito fique mais acelerada” Foto: SESGO

Calor pode acelerar ciclo do Aedes aegypti

Outro ponto de preocupação é o avanço das arboviroses, especialmente dengue, chikungunya e zika. Rasível destacou que as altas temperaturas podem acelerar o ciclo de desenvolvimento do mosquito Aedes aegypti, aumentando o risco de transmissão das doenças.

“Essas altas temperaturas fazem com que o ciclo do mosquito fique mais acelerado. Então pode estar acontecendo já uma consequência do El Niño, por causa das altas temperaturas e aceleração desse ciclo”, explicou.

O secretário reforçou que o combate ao mosquito depende também da participação da população. Ele recomendou que os moradores façam, pelo menos a cada cinco dias, uma vistoria em casa e no quintal para identificar e eliminar possíveis criadouros.

“A população pode nos ajudar muito eliminando os criadouros, não deixando lotes baldios, não jogando lixo no local inadequado, eliminando esses criadouros e ficando atento à água parada.”

Segundo Rasível, períodos de eventual escassez hídrica também exigem atenção, já que o armazenamento de água pode criar focos do mosquito.

“Se tiver armazenamento de água, tem que cobrir, igual a caixa d’água tem que ser coberta. Todas essas preocupações, a gente precisa da parceria da sociedade, porque sem a parceria da sociedade a gente não consegue sozinhos fazer esse combate.”

Dengue continua mesmo durante período de seca

A subsecretária de Vigilância em Saúde da SES-GO, Flúvia Amorim, destacou que o comportamento do mosquito varia conforme as condições climáticas e que a ausência de chuva não significa o fim da transmissão da dengue.

Segundo ela, Goiás apresenta realidades diferentes entre as regiões. Enquanto há previsão de chuva em municípios do Sul do Estado, localidades do Norte e Nordeste enfrentam períodos prolongados de estiagem.

“Nós temos um estado muito grande. Ao mesmo tempo que a gente vê previsão de chuva na região Sul, a gente tem municípios da região Norte e Nordeste com quatro meses sem uma gota de água, de chuva. Então, a gente tem realidades muito distintas em nosso estado”, explicou Flúvia.

A subsecretária afirmou que a dengue permanece presente mesmo durante o período seco. Ela citou, inclusive, o aumento de casos de chikungunya em Goiânia como exemplo da capacidade de adaptação do Aedes aegypti.

“Seja com chuva ou sem chuva, o que a gente viu esse ano? Dengue o ano inteiro. Inclusive, a gente vê o município de Goiânia com alto caso, aumento de casos de chikungunya, em pleno período seco”, destacou.

Flúvia explicou que, durante a estiagem, os principais criadouros costumam estar dentro das próprias residências, como vasos de plantas, bebedouros de animais, vasos sanitários sem uso e caixas-d’água destampadas. Com a chegada das chuvas, novos pontos de acúmulo de água aparecem em áreas externas.

“Em qualquer dessas situações ele aparece. Agora, por que nós estamos mais preocupados esse ano? Porque com o El Niño a temperatura aumenta e, com o aumento da temperatura, aumenta a chance daquele ovinho se transformar em mosquito”, disse.

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Flúvia Amorim: “a dengue permanece presente mesmo durante o período seco” | Foto: SESGO

Preparação da rede busca evitar colapso

Além da prevenção dos focos do mosquito, a SES-GO trabalha para preparar a rede pública para um eventual aumento de atendimentos provocados pelas arboviroses e pelos efeitos do calor.

Flúvia Amorim explicou que o objetivo do plano de contingência não é impedir completamente o aumento dos casos, mas reduzir as consequências mais graves, como internações e mortes.

“Não é que a gente vai evitar a emergência, a gente vai tentar diminuir o impacto dela, porque essa sazonalidade para dengue ela sempre vai acontecer”, afirmou.

Entre as medidas previstas estão a capacitação dos profissionais de saúde e o reforço de insumos considerados estratégicos para o atendimento da população.

Desidratação também preocupa

Outro efeito associado ao cenário de altas temperaturas e baixa umidade é o aumento dos casos de desidratação. Segundo Flúvia, esse é um dos motivos pelos quais a SES-GO está avaliando a necessidade de reforçar os estoques de soro e outros insumos para o atendimento da população.

“A gente tem duas expectativas: aumento de temperatura com baixa umidade em muitas regiões e isso aumenta casos de desidratação”, explicou.

A subsecretária destacou ainda que o período de calor e seca será seguido pela temporada de chuvas, quando tradicionalmente aumenta a circulação das arboviroses. Por isso, a preparação da rede precisa considerar os diferentes cenários ao longo dos próximos meses.

“Quanto nós vamos precisar desses insumos para esse período que virá agora até maio, pelo menos de 2027”, pontuou Flúvia.

A orientação da SES-GO é que a população mantenha os cuidados durante todo o período, independentemente da presença ou ausência de chuva. A eliminação de criadouros do Aedes aegypti, a hidratação e a atenção às condições de calor e baixa umidade estão entre as principais medidas recomendadas pelas autoridades de saúde.

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